PATRIARCA ILIA II DA GEÓRGIA COMO PAI DE MUITAS NAÇÕES

Às vezes, na vida, nos deparamos com situações em que as palavras se mostram impotentes. Elas não conseguem capturar a grandeza de uma pessoa, a profundidade de sua trajetória ou o poder de sua influência sobre os corações das pessoas. O Patriarca Ilia II da Geórgia foi precisamente uma dessas pessoas. Sua vida não pode ser descrita apenas por uma lista de feitos, seu serviço não pode ser medido unicamente por fatos históricos, pois ele era uma pessoa que combinava profundidade espiritual, amor paternal e uma rara nobreza interior. Ele se tornou não apenas o Primaz da Igreja, mas um testemunho vivo de como a graça de Deus opera através do homem.

Sua importância vai muito além da história da Igreja georgiana dos séculos XX e XXI. Ela pertence a toda a Igreja, porque seu coração provou ser capaz de acolher não apenas seu próprio povo, mas também muitos outros, incluindo aqueles que por muito tempo estiveram à margem da vida eclesial. E isso não foi uma declaração, mas uma experiência vivida pelo povo.

Muitas vezes ouvi sacerdotes do Patriarcado Georgiano relembrarem como, no início dos anos 2000, quando a construção da Catedral de Sameba estava apenas começando, o Patriarca disse que cultos seriam realizados nesta igreja em vários idiomas. Ele mencionou aramaico, armênio, hebraico e curdo. Muitos não entendiam essas palavras naquela época, porque os curdos na Geórgia eram majoritariamente muçulmanos, e a maioria era yazidi; as conversões à Ortodoxia eram raras e quase imperceptíveis. Parecia que esse futuro não tinha fundamento no presente, mas ele retornava a esse pensamento repetidamente, como um homem que já enxerga o que os outros ainda não descobriram.

Em 2011, tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o Patriarca Ilia no Patriarcado. Conversei com ele sobre meu chamado interior para servir ao meu povo, traduzir textos litúrgicos para o curdo, obter formação teológica e trabalhar como missionário. Tudo isso vivia dentro de mim, e eu precisava de apoio e bênção. E ele me recebeu com uma incrível cordialidade, sem formalidades, como se nos conhecêssemos há muito tempo. Ele me ouviu em silêncio, depois abençoou minhas intenções e disse: “É importante que um sacerdote apareça entre o seu povo.” Ele me chamou para estudar e me abençoou para fazer o que o Senhor me chama para fazer.

Mais tarde, tive a oportunidade de assistir aos Serviços Religiosos que ele celebrava em diversas ocasiões, e a cada vez experimentava um estado especial: uma sensação de segurança e tranquilidade, quando o sentimento de alienação se dissipava e emergia uma clara sensação de não ser um forasteiro, de ser aceito, de ser um filho. Era precisamente esse sentimento que revelava a profundidade de sua paternidade.

A grandeza do povo georgiano se revelava plenamente na pessoa do Patriarca Ilia II, pois não apenas a terra da Geórgia se abriu para os curdos e yazidis, mas a própria vida da igreja georgiana se tornou um espaço que encontrou um lugar para o meu povo. Essa era uma aceitação interior de todo georgiano ortodoxo. O Patriarca tratava todos os povos que viviam na Geórgia com atenção especial, e isso era evidente não apenas em suas ações, mas também em suas palavras. Em suas mensagens festivas, ele invariavelmente listava os povos do país, dirigindo-se a cada um, e entre esses nomes, o nome do meu povo, os yazidis, sempre era ouvido, e isso não era apenas uma menção, mas reconhecimento, aceitação e cuidado paternal.

Sua paternidade ficou especialmente evidente em sua resposta à crise demográfica da Geórgia, quando incentivou o povo a ter filhos e assumiu a responsabilidade espiritual, tornando-se padrinho do terceiro e dos filhos subsequentes nascidos em famílias ortodoxas georgianas. Entre essas crianças estavam yazidis convertidos ao Cristianismo, que buscavam uma conexão espiritual com o Patriarca e traziam seus filhos a Sameba para que ele pudesse ser seu padrinho.

Eu cumpri sua bênção: ingressei na faculdade de teologia da Universidade de Atenas e me formei. Em 2022, o Patriarca abençoou minha ordenação ao diaconato e, em 2023, meu bispo Savvas da América do Norte recebeu a bênção do Patriarca para me ordenar ao sacerdócio. Nessa altura, eu já tinha concluído a tradução da Divina Liturgia e, em 2024, fui à Geórgia e celebrei a primeira Divina Liturgia de João Crisóstomo em curdo-kurmanji na história do nosso povo, na Catedral de Sameba, na mesma igreja onde o Patriarca havia profetizado muito tempo antes, e o que antes parecia impossível tornou-se realidade.

Processos semelhantes ocorreram com outros povos. Com sua bênção e iniciativa, um sacerdote foi ordenado para os assírios ortodoxos. A tradução da Liturgia para o armênio já foi concluída.

Há vários anos, uma igreja está aberta em Tbilisi, onde as orações são celebradas em inglês, e isso é uma manifestação de sua visão da Igreja como um lar para muitos povos.

E nós, que estivemos envolvidos na tradução e na missão, nos sentimos e continuamos a nos sentir como filhos do mesmo Pai, porque por meio dele percebemos a fonte da graça que une pessoas de diferentes línguas e culturas no único Corpo Eclesial de Cristo.

O que é especialmente precioso para mim é que tudo isso foi possível graças à sua bênção. Suas mãos abençoaram milhões de pessoas, e essas bênçãos se tornaram o início de jornadas, ministérios e mudanças nos destinos humanos. Sua misericórdia e perdão não conheciam limites; ele ajudou as pessoas a encontrarem seu caminho e a retornarem à fé.

Para nós, ele permanece não apenas o Patriarca dos Georgianos — ele é o pai e Patriarca dos Curdos e Yazidis, Armênios e Assírios, Judeus e Azeris, bem como de muitos outros povos que vivem nesta terra abençoada. Sua partida não é um desaparecimento; sua presença continua viva nos corações, nas orações e na vibrante vida da Igreja que ele ajudou a criar e preservar.

Sou grato a Deus por ter tido a oportunidade de conhecer o Patriarca, receber sua bênção para me tornar sacerdote e servir em língua curda. Por meio dessa bênção, a Ortodoxia nasceu e está se fortalecendo entre os curdos e yazidis, e hoje vemos muitos do meu povo na Geórgia se convertendo voluntariamente a Cristo em massa. Isso é de enorme significado: os curdos e yazidis estão emergindo como um povo cristão.


Hieromonge Madai (Maamdi)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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