“PARADOS COMO UM TOCO”

As palavras do Metropolita Atanasios de Limassol sobre ir à Liturgia “mesmo que estejamos parados como tocos de árvore” tocam o âmago da compreensão ortodoxa da vida espiritual: que a salvação não é fruto de nossos estados interiores, sentimentos e sucessos, mas sim o dom da graça de Deus que é recebido na obediência e na perseverança.

O homem de hoje, mesmo um homem piedoso, muitas vezes mede seu relacionamento com Deus pelo que “sente”: se estava concentrado, se foi tocado por algo, se entendeu as palavras, se teve paz interior. Isso gera a tentação de ir à Liturgia somente quando nos sentimos “dignos” ou “prontos”.

Mas é aqui que começa o engano. Pois a Liturgia não é uma recompensa pelo estado espiritual, mas uma cura para a doença. Não viemos como pessoas saudáveis, mas como pessoas em busca de cura.

A imagem da perfumaria é profundamente eucarística. Mesmo que você não compre nada, se apenas permanecer entre os aromas, suas roupas receberão sua essência. Da mesma forma, uma pessoa que permanece no espaço do Reino de Deus, no templo onde o Sacrifício Incruento é oferecido, é, quer queira quer não, abraçada pela graça. Não segundo a medida da atenção individual, mas segundo a medida da dádiva de Deus. A graça não é uma experiência psicológica, mas a própria energia de Deus que transforma o ser.

Quando o Metropolita diz que já nos encontramos “parados como um toco”, ele não justifica a negligência, mas sim destrói o orgulho. Porque, muitas vezes, por trás do “não consigo me concentrar” está a crença oculta de que só posso me aproximar de Deus se estiver no auge da minha capacidade. E isso significa que me coloco no centro, e não Deus. Humildade é dizer: “Eis-me aqui, Senhor, nada, disperso, frio, mas venho mesmo assim, porque sem Ti nada posso fazer.”

A imagem do “tronco não talhado” revela a verdade sobre o homem como matéria-prima das mãos de Deus. A madeira não se molda sozinha. Ela não reclama do golpe do cinzel, nem escolhe a forma que tomará. Assim, no templo, o homem se entrega ao Carpinteiro Celestial. A Liturgia torna-se um lugar onde Deus, por meio de palavras, cânticos, leituras, movimentos, o aroma do incenso e, sobretudo, pelo Corpo e Sangue de Cristo, molda gradualmente os nossos corações. Mesmo quando não nos damos conta disso.

Por trás dessas palavras reside uma profunda verdade do ascetismo ortodoxo: a vida espiritual não se constrói sobre sentimentos, mas sobre a fidelidade. Os Santos Padres ensinam que o estado mais perigoso é quando uma pessoa começa a escolher um feito de acordo com seu estado de espírito. Pois então o estado de espírito se torna a medida da verdade. E, na realidade, é precisamente a perseverança na “aridez” que dá origem à verdadeira humildade e à fé pura, uma fé que não busca conforto, mas busca a Deus.

O ditado que diz que se não formos por causa de distrações, “as coisas vão piorar cada vez mais” ilustra uma lei espiritual: o que não é praticado enfraquece. Se uma pessoa deixa de estar diante de Deus porque lhe é difícil, com o tempo não só lhe será difícil estar diante de Deus, mas também crer, orar e desejar a Deus. A partida não acontece de repente, mas silenciosamente, sob o pretexto de “honestidade consigo mesmo”.

A Liturgia, porém, é sempre um evento do Reino, independentemente da nossa condição. É obra de Cristo, não nossa. Entramos nela como num rio de vida que já começou. E mesmo que permaneçamos na margem como “tocos”, a água nos toca. Pois na Liturgia a Igreja já está onde Cristo é “tudo e em todos”, e todos os que entram nesse espaço entram no mistério da comunhão que transcende a sua dispersão interior.

Por isso, estas palavras do Metropolita Atanásios não são um apelo ao formalismo, mas à esperança. À esperança de que Deus age mesmo quando não sentimos nada. Que Ele não nos rejeita por causa da nossa frieza, mas sim nos espera precisamente nela. E que, às vezes, o maior feito não é uma oração sublime, mas um passo simples: levantar-me, mover-me e ficar diante de Deus como sou. Pois se Deus pode pegar um tronco bruto em Suas mãos e fazer dele um ícone, então Ele também pode fazer do nosso coração disperso, endurecido e cansado um lugar de Sua morada.



P.P
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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