Basílio, Gregório e João são tão frequentemente lembrados juntos que é difícil pensar neles separadamente. No entanto, eles, assim como Pedro e Paulo, são surpreendentemente opostos em muitos aspectos. Elucidar esses contrastes não destrói, mas, ao contrário, ressalta a unidade que lhes foi dada pelo Espírito Santo e que entrou organicamente na consciência da Igreja.
O primeiro lugar nesta pequena Sinaxe de Santos Hierarcas pode ser dado a Basílio. Tudo o que podemos dizer sobre Gregório e João, podemos dizer sobre Basílio. Eles são guerreiros contra a heresia — e ele também; são brilhantes pregadores da Palavra — e ele também. Um espírito corajoso, amor à solidão, uma vida humilde, uma profunda compreensão dos dogmas — tudo isso e muito mais esses três pais têm em comum. Os três vêm de famílias santas. Suas mães, pais e irmãos constituem uma constelação inteira de personalidades notáveis em santidade. Mas Basílio se distingue pela mais alta ordem de autodisciplina. Basílio é um organizador, o que não se pode dizer de Gregório e João, ou pelo menos não sem ressalvas. Por onde Basílio passava, deixava para trás uma hierarquia e ordem rígidas. Sem dúvida, era um homem carismático, mas confiava na prática da Igreja, não apenas na força da influência pessoal e nos dons espirituais. Basílio o Grande levava consigo disciplina, estatutos, leis e organização — em uma palavra: ordem. De fato, as coisas na Igreja naquela época eram como uma batalha noturna, onde todos atacavam tanto inimigos quanto aliados, sem ver nem compreender nada.
A mente e o intelecto de Basílio permitiram que ele se tornasse um erudito, e sua vontade e rigor o transformaram em um verdadeiro monge, como Antônio. Mas ele sacrificou todos os seus talentos em batalha pela Igreja. Escondeu profundamente sua mansidão espiritual para se tornar inabalável e, ao menos secretamente, como seu amigo Gregório, ansiava pela vida tranquila, pelo deserto e pelo isolamento. Poucos compreendem o que significa, amando as Escrituras e o silêncio, sacrificar-se e mergulhar de cabeça numa luta pela Igreja e seus dogmas, sem ter descanso, arriscando a própria vida e perecendo diariamente.
João era completamente diferente, e ainda mais distinto desses dois primeiros está Gregório. João era o favorito e líder do povo, mas estava fora do sistema. Os bispos não o amavam, e não apenas os bispos hereges. A corte real ficou enfurecida com seus ensinamentos e denúncias. O Boca de Ouro[1] deixa seu nome, suas palavras e sua memória, mas nenhuma organização, nenhuma estrutura de combate. Seus amigos e círculo íntimo caem em desgraça e se tornam vítimas após sua expulsão. E isso não é uma repreensão, mas enfatiza a dissimilaridade, pois todo soldado em Cristo luta como pode.
Mas Gregório é um contemplativo. Ele, é claro, vive entre o povo e edifica seu rebanho, visto que ocupa o mais alto cargo eclesiástico. Mas ele sente o peso de seu cargo, o peso daquilo que aqueles indignos dele tanto almejam. O omóforo episcopal torna-se motivo de amargura para Gregório contra Basílio. Este último subordina tudo, inclusive a amizade, aos interesses da Igreja e, na essência, força seu amigo a se tornar arcebispo em um momento difícil para a Igreja. Como pregador, Gregório não se limita a exortar e discursar, mas sim a cantar. É precisamente pela doce voz de seus pronunciamentos, chamada pela Igreja de “a flauta do pastor”, que pessoas imbuídas de ilusões acorrem ao recinto da Igreja e recebem a Ortodoxia.
Basílio não tem tempo livre. Gregório escreve poesia em seus momentos de lazer. João interpreta as epístolas de Paulo, e o próprio apóstolo lhe aparece para esclarecer passagens difíceis em suas epístolas. É difícil encontrar três pessoas psicologicamente mais distintas entre si.
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O conflito que uniu a memória dos Três Santos Hierarcas é bastante compreensível. As pessoas são capazes de transformar até mesmo as coisas mais sagradas em motivo de contenda e disputa. Os coríntios argumentavam, dizendo: “Eu sou de Paulo… eu sou de Apolo” (1 Coríntios 3:4). Então, os cristãos começaram a debater sobre qual dos três é o maior e mais glorioso. O problema é que, ao analisarmos cada um deles, cada um poderia, sem dúvida, ser considerado o supremo. Examine a vida de Basílio (e cada um de nós deveria fazê-lo), aprofunde-se nela, e você exclamará: “Grande é Basílio! Quem entre os santos se compara a ele?!” Mas então comece a considerar a imagem de João, e logo você dirá com admiração: “Não há ninguém como João!” Se você ler atentamente as palavras de Gregório e contemplar em silêncio a humildade deste possuidor de mente celestial, então esquecerá todos aqueles que elogiou antes, dizendo: “Roga a Deus por mim, maravilhoso Gregório!” Não há um maior entre eles, precisamente porque são diferentes. Ninguém se iguala ao segundo Teólogo[2] em beleza e precisão de palavras. E em zelo pela glória de Deus, ninguém se compara a João Crisóstomo, exceto, talvez, Elias, o Tesbita. Basílio não é apenas um guerreiro, asceta, sábio e chefe de monges, ele também é um general, capaz de reunir uma multidão de soldados díspares e transformá-los em um exército. Os três são grandes, e grandes de maneiras diferentes.
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A Igreja precisa de organizadores em todas as épocas, de oradores inflamados e de contemplativos serenos. Ai da Igreja e do povo de Deus se um desses três não estiver presente em qualquer época. Ai da Igreja se não houver nenhum deles! Então, doenças terríveis aumentarão e se multiplicarão em nome de uma aparência convencional e agradável, e não haverá ninguém para curá-las.
Todo homem colocado por Deus em ordens sagradas deve examinar a si mesmo para descobrir qual desses três talentos corresponde melhor ao seu repertório espiritual e à sua experiência. Não existe pastor para quem nenhum deles seja relevante. Mas a união dos três dons em uma só pessoa é praticamente impossível!
Pregador, organizador, contemplativo recluso.
O mais calmo do mar humano, filho da batalha e filho do silêncio da oração.
Um dos três.
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Se alguém comanda, administra ou gerencia outros, que se inspire na imagem de Basílio o Grande. Ele não deve apenas comandar, apontando o que os outros precisam fazer, mas também acumular todo tipo de conhecimento, como fez Basílio. Ele deve amar os jejuns e os livros, e deve reunir suas forças na solidão para lutar pela Verdade em meio às multidões.
Se alguém prega em tempo oportuno e inoportuno, como ordenou o apóstolo Paulo, que fuja das refeições repletas de conversas vãs e da bajulação aos ricos, à imagem do Boca de Ouro. Que una às suas leituras e homilias o serviço fervoroso da Liturgia e a abundância da caridade, seguindo o exemplo dos grandes padres, e que sacrifique tudo para que sua boca se torne a boca da Palavra.
Se alguém ama a solidão, ama longas orações e, com relutância, afasta a mente do céu em prol de assuntos terrenos, que olhe para Gregório — aquele que, apesar de todo o sofrimento, deixou o deserto e assumiu a cátedra quando a Igreja o exigiu — aquele que negligenciou a si mesmo em prol do bem comum e foi proclamar suas homilias com trombetas de prata, derrubar as grossas muralhas de Jericó.
Todo homem que porta o éfode de linho[3] deveria possuir ao menos uma dessas características, ainda que em pequena medida. Reavivar essa verdade em nossas mentes talvez seja o principal propósito da veneração conjunta da Igreja por Basílio, Gregório e João.
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[1] “Crisóstomo” significa “Boca de Ouro”.
[2] São Gregório é apenas o segundo santo na história da Igreja a ser oficialmente intitulado “o Teólogo”, sendo o primeiro São João, o Teólogo e Evangelista, e o terceiro e, até agora, último, São Simeão, o Novo Teólogo.
[3] Uma vestimenta do sacerdócio do Antigo Testamento que corresponde à estola atual.
Arcipreste Andrey Tkachev
tradução de monja Rebeca (Pereira)







