Sepultamento e Descida ao Inferno
A antiga capital gradualmente mergulhou numa atmosfera festiva, cada vez menos pessoas eram vistas nas ruas, e quando os sacerdotes começaram a tocar as trombetas no telhado da igreja, a cidade pareceu adormecer por completo. A festa da Páscoa, que começava após o pôr do sol, se aproximava. Considerava-se sacrilégio deixar os crucificados vivos, então decidiram acabar com eles. A essa altura, Cristo já havia morrido, então não mutilaram Seu corpo. Mas para confirmar Sua morte, um dos soldados O atingiu no lado com uma lança, causando um jorro de líquido pericárdico e sangue.
Os criminosos geralmente eram entregues a parentes, mas às vezes os cadáveres eram simplesmente queimados, dados como alimento para animais selvagens ou enterrados em uma vala comum. Os discípulos não podiam permitir isso. José de Arimateia pediu permissão a Pilatos para sepultar Jesus, comprou um pano embebido em especiarias e, junto com as discípulas, depositou o corpo do Senhor na caverna que havia preparado para si. José era um homem rico, justo e respeitado. Naturalmente, preparou um túmulo digno para si. Por três dias, aquele se tornou o leito de morte do Rei do Universo.
A Páscoa estava começando na terra de Israel. Enquanto isso, segundo a Tradição da Igreja, após a morte, Cristo desceu ao Sheol — o lugar para onde iam as almas de todos os mortos. Ele entrou lá legalmente — como um do povo. Mas Ele também foi o primeiro a emergir — como Deus. Pelo Seu poder, o Filho de Deus destruiu o Hades e trouxe à luz todos os que desejavam segui-Lo. Estes foram centenas de milhares daqueles que morreram com fé no Redentor que viria. Satanás foi derrotado. Agora o caminho para Deus está aberto a todas as pessoas, e se alguém seguirá esse caminho depende unicamente de si mesmo.
A descida ao inferno não é mencionada nos Evangelhos, mas os evangelistas descrevem os eventos do sábado. Os discípulos passaram o dia em paz, como convém a judeus piedosos. Mas os fariseus não tinham tempo para o feriado: apesar da estrita proibição de fazer qualquer coisa no sábado, eles foram até Pilatos e o persuadiram a selar o túmulo de Cristo. Os anciãos temiam que os apóstolos roubassem o Seu corpo e depois afirmassem que Ele havia ressuscitado. Então o túmulo foi selado. Além disso, soldados romanos foram designados para guardá-lo.
“Ele ressuscitou!”
Um grupo de mulheres apressou-se pelos quarteirões desertos da cidade em direção à periferia oeste. Era óbvio que estavam com pressa — seus véus brancos esvoaçavam na penumbra da madrugada. Elas passaram rapidamente sob o portão arqueado, viraram-se e começaram a abrir caminho entre os arbustos da vinha que ali crescia.
Esses eram os discípulos de Cristo, a caminho de seu túmulo, levando especiarias para realizar os ritos finais — lavar o corpo e ungi-lo com óleo. Isso precisava ser feito antes do sepultamento, mas a festa começava na sexta-feira, e todos estavam com pressa. Limitaram-se a limpar rapidamente o sangue e envolver o corpo em um sudário embebido em óleo.
Amados em sua dor, nem sequer pensaram em quem abriria o túmulo lacrado para eles. Mas quando as mulheres se aproximaram da gruta, uma visão inesperada se apresentou diante de seus olhos: o túmulo estava aberto, uma pedra jazia na entrada e o interior da câmara mortuária estava inundado de luz. As mulheres apressaram o passo, temendo que o corpo tivesse sido roubado. Mas quando espiaram lá dentro, viram um anjo. O mensageiro celestial, sentado à beira do leito de pedra, disse-lhes: “Não temais, porque eu sei que buscais a Jesus, que foi crucificado; Ele não está aqui, ressuscitou!” (Mateus 28:5-6).
Contudo, dúvidas atormentaram os discípulos de Cristo até que o próprio Senhor ressuscitado lhes apareceu.
Segundo a Tradição, Sua Mãe foi a primeira a receber a alegre notícia: o Senhor apareceu somente a Ela, a pessoa mais querida do mundo. Depois disso, de acordo com as Escrituras, mais de quinhentos discípulos viram Jesus Ressuscitado em diversas ocasiões. Durante quarenta dias, Ele conversou com eles, revelando-lhes o que antes não havia dito. Agora, eles estavam prontos para acolher em seus corações todas as palavras proferidas pelo Mestre. E não apenas acolhê-las, mas levá-las por todo o mundo, pregando o Evangelho e testemunhando d´Ele.
Após a morte dos apóstolos — na maioria das vezes, o martírio — dezenas de milhares de homens e mulheres repetiram o caminho de seu Redentor com suas próprias vidas. E em cada nova morte de mártir, a Santa Igreja se fortalecia e se reerguia.
Por quase dois milênios, ela tem levado ao mundo a luz da Verdade, a luz do amor divino, a luz da Eternidade — a mesma luz que brilhou na gruta no dia da Ressurreição de Cristo.
Portal Ortodoxo russo “Jornal Foma”
tradução de monja Rebeca (Pereira)







