OS PRINCIPAIS EVENTOS DA SEMANA SANTA E DA PÁSCOA – PARTE 3

O Julgamento do Sinédrio

Enquanto isso, ouviu-se um ruído entre as árvores e arbustos — soldados haviam chegado para prender o Salvador. Judas aparentemente não queria revelar sua traição aos outros apóstolos. Ele planejava beijar Cristo, indicando assim aos soldados quem deveriam prender, e depois se misturar com os outros discípulos. Mas as coisas aconteceram de forma diferente — Jesus imediatamente revelou sua traição a todos e, após a saudação de Judas, declarou em voz alta:

“Judas, com um beijo trais o Filho do Homem?” (Lucas 22:48) E voltando-se para a multidão de soldados, continuou: “Saístes como contra um ladrão, com espadas e varas, para Me prender. Eu Me sentava todos os dias convosco, ensinando no templo, e não Me prendestes” (Mateus 26:55).

Após um breve confronto com os apóstolos, soldados prenderam Cristo e O levaram perante o sumo sacerdote Caifás. O julgamento foi conduzido em violação de todas as normas legais do Israel do Antigo Testamento e foi, em essência, um julgamento sem lei. De acordo com as regras, o Sinédrio — como era chamado o tribunal supremo judaico — deveria se reunir durante o dia, oficialmente, em sessão plenária, e proferir um veredicto somente após mais de três testemunhas fornecerem exatamente o mesmo depoimento. Mesmo após o veredicto ter sido proferido, até o momento da execução, permanecia em vigor um princípio que ditava que, se houvesse sequer uma única prova a favor do prisioneiro, a execução seria suspensa e o julgamento reaberto. Além disso, era estritamente proibido usar as palavras do réu contra ele.

Essas e muitas outras condições não foram cumpridas. Tendo se reunido à noite, os anciãos convocaram falsas testemunhas que falaram de forma incoerente e desconexa. Ao mesmo tempo, qualquer tentativa de testemunhar a favor de Jesus foi resolutamente suprimida — até mesmo os renomados mestres judeus José e Nicodemos, que conheciam Cristo e eram seus discípulos secretos, não foram ouvidos. A base formal para a condenação foi a resposta afirmativa de Cristo à pergunta do sumo sacerdote sobre se Ele era o Filho de Deus. Isso era uma violação das regras — era proibido tomar decisões com base nas próprias palavras do réu.

Mas os fariseus estavam com pressa. Se o julgamento de Jesus tivesse ocorrido um século antes, Ele provavelmente teria sido apedrejado até a morte como blasfemo imediatamente após a sentença de morte ser proferida. Mas, por várias décadas, o Sinédrio não tinha o direito de tomar decisões sobre assassinato. Somente um representante da administração romana, com um cargo não inferior ao de prefeito ou procurador, podia fazê-lo. Na época da prisão do Salvador em Jerusalém, Pôncio Pilatos ocupava esse cargo. O Cristo condenado foi levado a ele na manhã seguinte, sexta-feira, 14 de Nisã.

Pilatos

O dia mal havia começado, mas o ar já estava insuportavelmente abafado. Um homem de meia-idade, com o rosto marcado por arrogância, crueldade e autoridade, olhava para Cristo. Era Pilatos.

No relato do Evangelho, o hegemon — como os judeus conquistados chamavam Pôncio — é apresentado como muito mais simpático do que os historiadores seculares o retratam. Ele era um soldado romano implacável que reprimia impiedosamente qualquer protesto. Posteriormente, foi destituído do cargo de prefeito da Judeia justamente por sua crueldade. Diante disso, dificilmente se pode suspeitar que Pilatos simpatizasse com Cristo.

A maioria dos comentaristas e historiadores concorda que, aos olhos do oficial romano, Jesus de Nazaré era um filósofo errante inofensivo, um filho de carpinteiro meio excêntrico que viajava com um pequeno grupo de seguidores e pregava sobre algum tipo de reino. É muito revelador que, durante o interrogatório, Pilatos pergunte a Cristo: “O que é a Verdade?”, sem esperar uma resposta. Não era sequer uma pergunta, mas sim uma zombaria.

Então, por que Pilatos foi leniente com Cristo e só cedeu às exigências dos anciãos judeus após muita discussão? Em primeiro lugar, a esposa do oficial se opôs à execução — suas queixas de noites sem dormir e dores de cabeça fizeram o marido hesitar. Ela associou diretamente seus pesadelos à iminente execução e implorou a Pôncio que não ferisse Jesus. Pilatos também era pagão e, ao ouvir Cristo falar de Sua dignidade divina, sentiu um leve temor. E se aquele Nazareno fosse realmente um dos semideuses? Querendo se “garantir”, o procurador decidiu perdoar o Condenado, após puni-Lo com chicotadas.

Mas o Sinédrio precisava da morte do Justo que odiavam. Os anciãos haviam conseguido incitar a multidão a entoar cânticos furiosos exigindo a crucificação de Cristo. Era evidente que os gritos haviam sido orquestrados, mas Pilatos também não queria problemas desnecessários. Além disso, os judeus ameaçaram reclamar ao próprio imperador se Pilatos não confirmasse a sentença de morte. Por fim, ele decidiu deixar o sentimentalismo de lado e sacrificar a vida do estranho réu para apaziguar a multidão. Assim, Jesus foi condenado à morte — à crucificação.

Gólgota

Não apenas os anciãos israelitas, mas também os soldados romanos, em cujas mãos Cristo agora jazia, regozijaram-se com o veredicto anunciado. Eles viam o prisioneiro incomum como apenas mais uma vítima, alguém que poderiam apreciar plenamente antes de executá-lo.

Primeiro, arrastaram-No para o pátio do quartel, onde os soldados zombaram d´Ele. Depois, zombando de Sua dignidade real, colocaram uma coroa de espinhos na cabeça do Salvador emaciado e quase sem vida, e cobriram Seus ombros com um trapo carmesim. Quando chegou a hora da execução, por volta do meio-dia, a trave da cruz foi erguida sobre os ombros do prisioneiro e Ele foi levado para os arredores da cidade, onde morreria pelos pecados de toda a humanidade.

Apesar do desejo dos fariseus de matar o Senhor discretamente, a cidade se encheu de comentários sobre a execução de Jesus. Quase toda a população acorreu para ver o Profeta exausto carregar a cruz com Suas últimas forças até o local de Sua morte. Alguns choravam, outros se indignavam… E alguns até amaldiçoavam o próprio Cristo. Essas eram as mesmas pessoas que, cinco dias antes, esperavam um milagre d´Ele, que gritaram hosanas a plenos pulmões, pensando que Ele Se proclamaria rei. Agora, haviam sido enganadas. E eles explodiram em maldições com a mesma intensidade. Ainda não tinham visto seu Salvador no Homem ensanguentado.

Gólgota era o nome de uma colina rochosa fora das muralhas da cidade. Outrora, extraía-se pedra ali, mas agora criminosos eram executados naquele local. A maioria dos apóstolos havia fugido e agora se refugiava em suas casas. Somente as mulheres da comunidade apostólica realizaram um ato heroico: seguiram seu Mestre constantemente e estavam com Ele na crucificação. A Mãe de Deus, juntamente com o discípulo mais próximo de Cristo, João, também seguiu de perto Seu Filho. Nessas últimas horas de Sua vida, o Senhor confiou a João o cuidado de Sua Mãe.

Dois ladrões foram crucificados junto com Cristo. Mesmo enquanto pendiam em suas cruzes, insultavam Jesus. Mas quando a Mãe de Deus apareceu na multidão, um deles mudou de ideia a respeito do Salvador, pedindo Seu perdão e suplicando-Lhe salvação. Segundo a tradição, o prudente ladrão havia sido membro do bando que interceptou a Sagrada Família na estrada do Egito para a Palestina em sua juventude. Jesus tinha apenas dois anos de idade na época. Os ladrões queriam roubar os pertences dos viajantes, abusar deles e matá-los. Mas o jovem ladrão teve pena deles e convenceu seus companheiros a não lhes fazerem mal. Mais de trinta anos se passaram, e agora o ladrão e o Justo se reencontraram. Como a Virgem Santíssima havia predito, pela misericórdia que o ladrão demonstrou a Ela e a Seu Filho, ele seria salvo.

A crucificação foi dolorosa para o Senhor não apenas fisicamente, mas também psicologicamente. Por Sua natureza humana, Cristo experimentou voluntariamente um estado de completa solidão — tão completa que parece que até o próprio Deus O abandonou… Na cruz, o Cristo sem pecado bebeu até a última gota o cálice do sofrimento que se tornou o destino de todas as pessoas após a Queda.

“Está consumado!” — estas foram suas últimas palavras (João 19:30). Quando Ele expirou, Jerusalém sentiu tremores e, no Templo, o véu que separava o santuário do lugar mais sagrado — o Santo dos Santos — rasgou-se. Este foi um sinal de que a morte de Cristo havia fechado o abismo que até então existia entre Deus e o homem.


Portal Ortodoxo russo “Jornal Foma”
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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