OS PRINCIPAIS EVENTOS DA SEMANA SANTA E DA PÁSCOA – PARTE 2

Trinta Moedas de Prata

Se tivéssemos que conhecer Judas pessoalmente, dificilmente suspeitaríamos de algo de errado a seu respeito. Iscariotes serviu como tesoureiro dos irmãos apostólicos. Ele era, de fato, um bom homem; foi escolhido pelo próprio Salvador, juntamente com outros, e compartilhou com Ele todas as dificuldades e tribulações de Seu ministério terreno. É bem possível que ele tivesse se tornado um excelente pregador, assim como os outros discípulos de Jesus.

Contudo, Judas foi consumido pela paixão da avareza. A tragédia de sua vida residia em sua incapacidade de aceitar o Senhor como o Messias crucificado. Talvez Iscariotes tenha esperado até o fim que o Mestre, ainda assim, lutasse pelo poder. Mas, mesmo após sua entrada triunfal na capital, Cristo não Se revoltou nem negociou com a elite judaica. E assim Judas decidiu agir por conta própria.

Na quarta-feira à noite, ele foi até os sacerdotes e disse-lhes que estava disposto a lhes dar um lugar onde pudessem capturar o Salvador sem impedimentos. Por seu papel como informante, o traidor recebeu 30 siclos de prata, um total de aproximadamente 360 ​​gramas de prata. Essa era a recompensa usual pela captura de um escravo fugitivo. Era exatamente esse o valor que a vida do Deus-homem tinha aos olhos da elite judaica.

Os motivos por trás da traição de Judas ainda são debatidos. Alguns exegetas o consideram um amante inveterado do dinheiro, que via lucro em tudo. Outros acreditam que Iscariotes foi motivado pelo desejo de se tornar um ministro no futuro reino do Messias e esperava que sua prisão levasse Jesus a um confronto aberto com as autoridades judaicas e romanas. De qualquer forma, não conhecemos os verdadeiros motivos do ex-apóstolo.

Mas João, o Teólogo, indicou claramente em seu Evangelho que o ato de Judas foi resultado de sugestão demoníaca e que o próprio Satanás agiu por meio de Iscariotes. O fim do traidor foi horrível. Ao saber que a prisão do Mestre o levaria à morte inevitável, ele foi até os anciãos e renunciou ao seu dinheiro. Contudo, era tarde demais — Cristo já havia sido condenado à morte.

O discípulo traidor foi tomado pela culpa, que crescia a cada minuto que passava. Por fim, isso o levou ao suicídio. Judas se enforcou, mas, segundo a tradição, apenas na terceira tentativa — suas duas primeiras tentativas haviam sido malsucedidas. A tradição da Igreja vê esses “fracassos” como a tentativa de Deus de deter o apóstolo, de transformar sua traição em arrependimento — assim como aconteceu mais tarde com Pedro no pátio da casa onde Cristo estava sendo julgado. Pedro também havia negado Cristo naquela ocasião, mas se arrependeu. Judas, infelizmente, não.

A Última Ceia

Chegou a quinta-feira… Assim que o sol tocou o topo das colinas ao redor, o Salvador pediu a dois discípulos que fossem à capital e fizessem os preparativos necessários para a Páscoa que se aproximava. É difícil dizer agora se era a véspera da própria festa ou se Jesus realizou o antigo rito um dia antes do habitual — no dia 13 de Nisã. A maioria dos comentaristas da Igreja adere à última interpretação. Baseia-se no testemunho do apóstolo João que o Salvador se sacrificou no Gólgota exatamente no dia em que o cordeiro pascal tradicional era sacrificado — 14 de Nisã. Consequentemente, Jesus celebrou sua última ceia com seus discípulos no dia anterior.

Os discípulos reuniram-se no cenáculo de uma casa em Jerusalém. Antes da refeição ritual do pão, do vinho e do cordeiro consagrado, Jesus cingiu-Se com uma toalha e lavou os pés dos Seus discípulos, demonstrando assim um modelo de humildade: “Quem quiser ser o primeiro deverá ser o último e servo de todos” (Marcos 9:35). Nessa ceia, o Mestre estava essencialmente Se despedindo deles, proferindo palavras muito importantes — as mais importantes. Contudo, os apóstolos compreenderam pouco do que foi dito. Precisavam suportar muitos choques e então serem iluminados pelo Espírito Santo, e somente então o verdadeiro significado das palavras daquele discurso final lhes seria revelado.

Após realizar o antigo rito da Páscoa, Cristo tomou um dos pães em Suas mãos (muito provavelmente, era pão levedado, visto que o pão ázimo era consumido apenas na noite de 14 de Nisã) e o partiu. Jesus tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e, distribuindo-o aos discípulos, disse: “Tomai e comei; isto é o Meu Corpo”. E, tomando o cálice, deu graças e o ofereceu a eles, dizendo: “Bebei todos dele; pois isto é o Meu Sangue da Nova Aliança, que é derramado em favor de muitos, para remissão dos pecados” (Mateus 26:26-28).

Assim, foi concedido à humanidade o maior Sacramento da Comunhão, no qual todos os fiéis são inexplicavelmente unidos a Cristo, participando de Seu Corpo e Sangue e tornando-se membros do único organismo divino-humano da Igreja. A cada Liturgia, os cristãos, juntamente com os apóstolos, participam da Última Ceia do Salvador.

Jardim do Getsêmani

Após a Ceia, os apóstolos, juntamente com o Mestre, dirigiram-se aos arredores orientais de Jerusalém — através do Vale do Cedron até o Monte das Oliveiras. Ali, no Jardim do Getsêmani, na encosta ocidental do Monte das Oliveiras, cresciam oliveiras; os sons da agitação da cidade se escondiam ali, oferecendo solidão. Segundo a Tradição, o Senhor visitava este lugar sempre que visitava a movimentada capital. Cristo amava este lugar, e agora Ele vinha aqui para obter força espiritual em meio ao silêncio que antecedeu Seu sofrimento.

Mas nem todos estavam com Cristo — antes do fim da refeição, Judas abandonou os apóstolos. Somente o Senhor e João, o Teólogo, conheciam o verdadeiro propósito de Sua partida. Ele estava sentado perto de Jesus e o ouviu dizer: “O que tens de fazer, faze-o depressa” (João 13:27), enquanto lhe dava um pedaço de pão. Segundo os comentaristas, Cristo apelou à consciência de Judas até o fim, mas, tendo confirmado sua decisão, o traidor não ouviu mais esses apelos. Dirigiu-se aos sumos sacerdotes e, levando consigo um destacamento de guardas do templo, conduziu os soldados e servos ao Getsêmani, para onde os apóstolos haviam partido com Jesus.

Tendo pedido aos discípulos que o esperassem, Jesus afastou-Se deles, prostrou-Se com o rosto em terra e orou fervorosamente ao Pai. No Getsêmani, o Salvador suportou tormentos tão terríveis que só a agonia da cruz poderia ter sido maior. Como Deus, Ele não temia a morte, mas como um Homem sem pecado, não podia deixar de Se horrorizar com o peso do fardo que estava prestes a carregar. O estresse psicológico era tão intenso que suor com sangue começou a escorrer da testa de Jesus. Por Sua natureza humana, Cristo não queria a morte e pediu ao Pai que O livrasse dela.

“Contudo, não seja feita a Minha vontade, mas a Tua” (Lucas 22:42) — com estas palavras o Deus-Homem concluiu Seu discurso, indo para a morte pela humanidade. E quando o medo foi finalmente vencido, ao final da oração no Getsêmani, não foi o Mestre, em espírito perturbado, que apareceu diante dos apóstolos, mas o Messias forte e corajoso, iniciando Seu caminho de sofrimento, que o levaria, por fim, à vitória e à glória.


Portal Ortodoxo russo “Jornal Foma”
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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