Há cerca de dois mil anos, um evento ocorreu na Terra Santa que abalou o mundo e o transformou para sempre. A principal festividade ortodoxa, a Páscoa, é dedicada à sua memória. Na véspera da Santa Ressurreição de Cristo, procuramos recriar a cena do que aconteceu há vinte séculos sob o céu de Jerusalém.
O sofrimento, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo sempre foram reconhecidos como os eventos centrais de todo o Novo Testamento. Isso é afirmado pelo próprio Salvador, por seus discípulos mais próximos e pelas gerações subsequentes de fiéis, independentemente de sua nacionalidade, nível de instrução ou condição social. Se Cristo não ressuscitou, então nossa fé é sem sentido — essa afirmação do apóstolo Paulo é talvez o fundamento mais essencial sobre o qual se constrói todo o legado dos Santos Padres da Igreja.
Mas a Páscoa em si, sendo um evento de significado universal, que se relaciona igualmente ao passado, ao presente e ao futuro, ocorreu em um momento específico da história mundial e em um ponto específico do planeta. “Creio… em Jesus Cristo, Filho de Deus… crucificado por nós sob Pôncio Pilatos…” — essas são as palavras do Credo que todo cristão repete durante a oração.
Decidimos embarcar numa jornada única através do tempo e, junto com os habitantes da antiga Jerusalém, encontrar Cristo no Portão dos Leões, testemunhar a Última Ceia e a oração no Getsêmani, estar diante da Cruz no Gólgota, lamentá-Lo em Seu sepultamento e receber a alegre notícia de Sua Ressurreição de um anjo. Decidimos mergulhar na essência desses eventos e compreender sua lógica intrínseca, que por vezes se esconde por trás de uma história aparentemente familiar do Evangelho…
Aquele que vem em Nome do Senhor
—Hosana! Viva o nosso Rei! Hosana ao Filho de David! Bendito aquele que vem em Nome do Altíssimo para Se assentar no trono de Israel! Hosana!
Assim, no nono dia do mês de Nisã, uma multidão jubilosa saudou Jesus — o Homem que entrou na antiga capital da Judeia montado em um jumentinho. As pessoas reagiram a Ele de maneiras muito diferentes, mas todos reconheceram Sua incrível força de espírito enquanto curava os enfermos e proferia Seus sermões — sempre vibrantes, poderosos e sinceros.
Ainda ontem, esse profeta enigmático — como muitos O chamavam — havia ressuscitado Lázaro de Betânia, que jazia morto havia quatro dias e já começava a se decompor. A notícia desse milagre surpreendente se espalhou como fogo em palha seca, e ao primeiro rumor de que o Taumaturgo estava a caminho da cidade, os moradores locais começaram a cortar ramos de palmeira e a se reunir no Portão dos Leões. Eles O saudaram com alegria e esperança — como seu líder, como um governante triunfante e legítimo que viria libertá-los do vergonhoso jugo romano. E então — talvez até mesmo — restaurar o trono de David à sua antiga glória.
Mas o Salvador tinha um objetivo completamente diferente. Desde o início de Sua pregação, Cristo rejeitou qualquer pretensão de poder terreno e insistiu que viera ao mundo como Libertador e Conquistador. Não da injustiça social, mas de coisas muito mais terríveis: o pecado e a morte. Jesus jamais negou Sua dignidade real, contudo sempre enfatizou que Seu Reino não era deste mundo, que o caminho para o triunfo deste Reino passava pelo sofrimento, pela humilhação e pela morte. E agora Ele cavalgava um jumento em direção à antiga cidade de Sião para ascender ao trono — a Cruz, o Gólgota.
Jesus e os Anciãos de Israel
Em meio à multidão ruidosa, estavam aqueles que observavam o processo com desprezo e ódio mal disfarçados. Eram os fariseus e saduceus — os líderes espirituais do povo de Israel. Desde o início, sua atitude em relação à pregação de Cristo foi cautelosa: tanto na forma quanto no conteúdo, ela diferia radicalmente dos ensinamentos dos anciãos e escribas. O Salvador falava com autoridade, denunciando com ousadia e sem piedade os vícios de sua sociedade contemporânea.
Os saduceus ficaram imediatamente descontentes com essa situação — eles eram aquele segmento da elite da sociedade que apenas observava formalmente a Lei de Moisés, mas na realidade professava o princípio hedonista de “aproveitar ao máximo a vida”. Os fariseus, porém, hesitaram por um longo tempo.
Por um lado, eles pressentiam que Jesus possuía um poder imenso e, no fundo, muitos deles nutriam a tênue esperança de que Ele fosse o Redentor há muito esperado, predito pelos antigos profetas. Contudo, ao longo de vários séculos, o meio fariseu havia desenvolvido seu próprio sistema de normas, valores, prescrições e proibições, no qual não havia lugar para os ensinamentos do Salvador. Além disso, o Pregador da Galileia minou seriamente a autoridade deles perante o povo ao oferecer aos seus seguidores uma compreensão mais profunda e moralmente elevada de toda a Lei Mosaica. Os fariseus simplesmente temiam o Salvador. Portanto, enquanto a multidão se alegrava no Portão dos Leões, os anciãos finalmente decidiram matar Jesus de Nazaré. Tudo o que restava era encontrar o momento oportuno. E ele logo se apresentou…
O Fim do Antigo Testamento
O Senhor conhecia perfeitamente os planos de Seus inimigos, assim como conhecia tudo o que havia sido, era e estava destinado a acontecer. Ao chegar em Jerusalém, o Salvador foi ao Templo, o centro da vida espiritual de todo o Israel. Essa pérola da arquitetura oriental era impressionante em sua extensão e grandeza, e seus gigantescos pátios podiam acomodar milhares e milhares de pessoas. Mas agora o Senhor não voltou Sua atenção para a beleza do antigo santuário. Ele viu como animais para sacrifício eram vendidos e cambistas se sentavam naquele lugar sagrado. Inflamado por justa ira, Jesus fez um chicote de cordas e expulsou o gado e aqueles que cometiam ultraje na casa de Deus.
Na capital, o Senhor ensinou o povo durante três dias e repreendeu seus oponentes legalistas. Os diálogos mais impactantes do Evangelho acontecem durante a Semana Santa. Jesus fala com grande emoção, e cada um de seus sermões é como um trovão vindo de um céu claro. As parábolas são particularmente marcantes; elas abordam não apenas questões morais, mas tocam na questão mais fundamental: o destino final de toda a humanidade. O Senhor fala do fim do Antigo Testamento; ele cumpriu seu propósito e deve ser substituído pelo Novo Testamento. Cristo fala da criação de um Novo Israel, no qual a salvação é alcançada não pelo cumprimento de preceitos externos, mas unicamente pela fé no Filho de Deus.
Nos últimos três dias de pregação, os fariseus finalmente romperam com Jesus, apesar de todas as evidências apontarem para o Seu valor messiânico. Os líderes judeus simplesmente não precisavam de um Messias como aquele. O povo comum também começou gradualmente a se afastar do Pregador da Galileia. Aquele a quem haviam clamado “Hosana” apenas no dia anterior não tomou nenhuma atitude política, mas continuou a ensinar. Isso decepcionou e afastou muitos. E essa situação se tornou o pano de fundo para outra tragédia daqueles grandes dias: a traição de Judas.
Portal Ortodoxo russo “Jornal Foma”
tradução de monja Rebeca (Pereira)







