“E, entrando numa certa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez homens leprosos, os quais pararam de longe. E levantaram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós! E ele, vendo-os, disse-lhes: Ide e mostrai-vos aos sacerdotes. E aconteceu que, indo eles, ficaram limpos. E um deles, vendo que estava são, voltou glorificando a Deus em alta voz. E caiu aos seus pés, com o rosto em terra, dando-lhe graças; e este era samaritano. E, respondendo Jesus, disse: Não foram dez os limpos? E onde estão os nove? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro? E disse-lhe: Levanta-te e vai; a tua fé te salvou.”
Lc. 17:12-19

A lepra era uma doença horrível e dolorosa. As feridas da lepra eram terríveis de se ver e causavam muita dor aos que eram afetados por ela. A lepra também era altamente contagiosa. Os leprosos viviam em leprosários, longe da população em geral. Acreditava-se que aqueles com lepra (ou qualquer outra doença grave) haviam caído em desgraça perante Deus. Seu sofrimento era associado à ira divina.

Portanto, quando Jesus foi encontrado por dez leprosos, foi um encontro incomum, pois os leprosos eram proibidos de entrar em contato com pessoas “normais”. Os leprosos imediatamente reconheceram Jesus como “Mestre” (Lucas 17:13) e se dirigiram a Ele como tal. Pediram misericórdia, embora não especificassem o que isso significava — poderia significar cura, talvez uma forma menos severa de lepra, ou até mesmo alguma “misericórdia” dos moradores da cidade, para que não se sentissem tão isolados.

Jesus disse-lhes: “Ide e mostrai-vos aos sacerdotes” (17:14). Este pedido deve ter soado estranho aos leprosos por dois motivos. Primeiro, os sacerdotes não queriam ter nada a ver com aqueles homens altamente contagiosos. Provavelmente os ridicularizariam e os mandariam embora rapidamente. Segundo, se os leprosos eram “afligidos por Deus”, por que os sacerdotes de Deus lhes mostrariam misericórdia? É claro que, nos casos em que alguém era afligido por Deus ou havia caído em desgraça perante Ele, cabia aos sacerdotes decidir se alguém estava livre de uma maldição e poderia voltar a viver em sociedade.

Os leprosos, na verdade, demonstraram muita fé ao caminharem em direção aos sacerdotes. A passagem nos diz que “enquanto caminhavam, foram purificados” (17:14). Eles não foram purificados num único momento dramático, como outras curas haviam ocorrido. Essa cura é, na verdade, mais análoga ao funcionamento da vida cristã. Nossa cura espiritual geralmente não ocorre num único momento dramático. Isso acontece ao longo de um período de tempo. E assim foi com os leprosos. Eles foram curados durante a jornada.

Muitas vezes na vida, somos abençoados por Deus com alguma cura ou graça, mas não reconhecemos que nossa bênção vem de Deus. O mesmo aconteceu com os leprosos. Ao irem, foram purificados. Talvez pensassem que tinham direito à cura, pois já haviam sofrido o suficiente. É difícil imaginar que não tenham relacionado a cura ao encontro com Jesus. Certamente, um deles o fez. Não sabemos se o leproso agradecido implorou aos outros que fossem até Jesus ou não.

Um dos dez voltou para agradecer a Jesus, e esse era um samaritano. Os samaritanos eram inimigos declarados dos judeus, e por isso esse homem não teria sido amigável com Jesus, um judeu. Não sabemos a origem étnica dos outros nove leprosos. Talvez todos fossem judeus, exceto o samaritano. E talvez o tenham aceitado, reconhecendo que estavam todos no mesmo barco. Uma vez curados da lepra, a misericórdia que demonstraram uns pelos outros talvez tenha se dissipado, e antigas barreiras culturais e preconceitos retornaram.

Independentemente disso, apenas um dos dez voltou a Jesus para agradecer. Jesus não pediu nada ao homem. Ele não esperava nada dele. Em vez disso, disse-lhe: “Levanta-te e vai; a tua fé te curou” (17:19).

Há três lições que podemos extrair desse milagre dos dez leprosos. Primeiro, nossa cura acontece gradualmente, não geralmente em um momento dramático. Segundo, precisamos confiar em Deus, que pode nos curar de nossas enfermidades espirituais à Sua maneira, no Seu tempo, e precisamos ser pacientes e confiantes enquanto esperamos que o Seu plano se revele. E terceiro, precisamos conhecer a frase “toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto” (Tiago 1:17), para que, quando algo bom acontecer, recebamos essa boa dádiva com gratidão, em vez de com a sensação de merecimento, e demos glória e ações de graças a Deus por Suas bênçãos sobre nós.

Sejamos pacientes, confiantes e gratos hoje!


Sacerdote Stavros Akrotirianakis
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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