Ao longo dos Evangelhos, Jesus ensinou por meio de parábolas. A palavra que traduzimos como parábola em português é o termo grego parabolhn, que significa literalmente “colocar ao lado” e tem o propósito de transmitir a ideia de colocar algo ao lado de outro objeto para fins de comparação. E é exatamente isso que Jesus faz ao descrever certos aspectos do Reino de Deus. No caso da leitura do Evangelho de hoje, Jesus está tratando da oração e, mais especificamente, da oração humilde.
Um bom ponto de partida para refletirmos sobre a oração humilde e seu impacto em nossas vidas é simplesmente nos perguntarmos: “Como está minha vida de oração?”. Há uma bela citação do monge e bispo russo do século XIX, São Teófano, o Recluso, que nos ajuda a redirecionar nosso foco para nossa vida de oração:
Permitam-me recordar um sábio costume dos antigos Santos Padres: ao se cumprimentarem, não perguntavam sobre a saúde ou qualquer outra coisa, mas sim sobre a oração, dizendo: “Como está a sua oração?”. A prática da oração era considerada por eles um sinal da vida espiritual, e a chamavam de sopro do espírito. Se o corpo respira, vive; se a respiração cessa, a vida termina. Assim é com o espírito. Se há oração, a alma vive; sem oração, não há vida espiritual.
Reserve alguns minutos para refletir sobre o que São Teófano está dizendo aqui. Para os antigos Santos Padres, a oração era tão necessária quanto a respiração. Se a sua capacidade de respirar for de alguma forma prejudicada, você sofrerá uma morte lenta. Respirar é algo que devemos fazer por toda a nossa vida; desde o momento do nosso nascimento até, literalmente, o nosso último suspiro. Respirar é um sinal de vida e uma necessidade fundamental para a nossa existência.
Agora, considere isso à luz da nossa vida espiritual, e não da nossa vida física. Quando nossas orações são impedidas ou simplesmente desaparecem, nossa vida espiritual começa a sofrer e todos os aspectos da nossa fé morrem lentamente. Assim como respirar é uma função básica que demonstra a existência da vida, a oração também indica a existência da nossa vida espiritual. A maioria de nós concorda que ninguém pode ser considerado um cristão fiel se não orar. Não podemos afirmar estar em comunhão com Deus se não dedicarmos tempo ao diálogo com Ele.
A oração é a nossa comunicação com Deus; o elo que nos conecta com o nosso Pai Celestial. Quanto tempo você conseguiria ficar sem o seu celular? Mesmo que você não espere fazer ou receber uma ligação, você se sente perdido sem o aparelho. Por quê? Porque você tem medo de “perder uma ligação”, de ficar sem contato com seus entes queridos. Não deveria ser o mesmo caso com Deus? Sem a oração, perdemos essa peça vital da comunicação. Podemos nos perguntar por que Deus parece tão distante, ou por que Ele não nos fala quando precisamos de respostas para as questões urgentes da vida, mas será que alguma vez paramos para pensar por que Ele parece nos ignorar? Por que Deus parece tão distante, especialmente em momentos de necessidade? Uma das razões pode ser que tenhamos negligenciado a comunicação com Ele. Como um celular com a bateria quase descarregada, nossa vida espiritual está sendo drenada aos poucos, e a única maneira de recarregá-la é por meio da oração regular e sincera. Descobriremos que Deus não foi embora; somos nós que nos afastamos do centro da vida ao negligenciarmos nossa comunhão em oração.
Então, o que é oração sincera? Antes de tudo, é orar com humildade, algo que pode e deve ser praticado por todo cristão fiel; não é domínio exclusivo do teólogo. É algo acessível a todos que estejam dispostos a se humilhar diante de Deus. Nossa lição do Evangelho apresenta o contraste entre alguém que ora com orgulho e alguém que ora com humildade. O fariseu, um homem versado e experiente nos mínimos detalhes da sua fé, está tão absorto no seu próprio orgulho que não consegue oferecer uma oração sincera a Deus. Ele pensa que está justificado, perante si mesmo e perante Deus, ao comparar-se ao publicano. Mas o fariseu certamente estabeleceu um padrão de justiça bastante baixo. E essa também pode ser a nossa tendência: justificar as nossas próprias ações comparando-as às de outra pessoa, especialmente se essa “outra pessoa” for mais pecadora aos nossos olhos do que nós. O fariseu expressa o que realmente sente no íntimo: “‘Deus, eu Te agradeço porque não sou como os outros homens: ladrões, injustos, adúlteros, nem mesmo como este publicano'” (Lucas 18:11). Não podemos dizer que o fariseu era grato, mas veja pelo que ele era grato: pela bênção de não ser como o publicano! Isso pode parecer ridículo, mas quantas vezes nossas orações não passaram de auto-justificação, dando a Deus uma prestação de contas completa de quão bons cristãos somos, como se Deus já não conhecesse a força da nossa fé?
Agora, vamos comparar esse exemplo com o da outra pessoa em nossa parábola, o publicano. A maioria de nós sabe o quanto o cobrador de impostos era desprezado na Palestina do primeiro século. O cobrador de impostos representava tudo o que havia de errado em viver sob a ocupação romana. Os publicanos eram judeus, mas cobravam impostos e extorquiam seu próprio povo. Eles nem sequer eram cidadãos romanos, mas colaboravam com o inimigo, arrecadando dinheiro para sustentar o Império. E como se isso não bastasse, eles pegavam mais do que deviam aos romanos e embolsavam a diferença, roubando de seu próprio povo impunemente, sob a proteção dos oficiais romanos. Como vimos na semana passada com a história de Zaqueu, os cobradores de impostos eram colocados no mesmo grupo desprezado que os vários outros pecadores, e nenhum judeu que se prezasse gostaria de ser visto com um publicano. O fariseu em nossa parábola não poderia ter estabelecido seu padrão de justiça muito mais baixo do que o do publicano. Assim, parece-nos, bem como ao público de Cristo no primeiro século, que o desfecho desta parábola deveria ter sido obviamente a favor do fariseu.
Mas, como em todos os Seus ensinamentos sobre o Reino de Deus, Jesus reserva um final surpreendente para os Seus ouvintes. Observem primeiro o que o fariseu está fazendo: ele se compara aos piores pecadores que consegue imaginar e, em seguida, conclui sua “oração” informando a Deus sobre suas próprias ações piedosas de jejuar duas vezes por semana e dizimar tudo o que possui. Poderia parecer que o fariseu deveria ser justo e justificado aos olhos de Deus, pois, segundo alguns, ele estava fazendo tudo certo. No entanto, esses atos piedosos deveriam ser apenas um meio para alcançar a maior das virtudes, e não um fim em si mesmos. E Jesus confirma isso quando nos diz que foi o publicano, e não o fariseu, quem voltou para casa justificado (v. 14). Foi a oração simples e sincera do publicano, “Deus, sê misericordioso para comingo, pecador!”, que demonstrou uma profundidade de fé muito maior do que todo o jejum e a esmola jamais poderiam. A humildade demonstrada pelo publicano, permanecendo sozinho com a cabeça baixa, foi prova de seu amor por Deus e de sua compreensão da necessidade de arrependimento. A oração pura é um ato humilde de contrição, reconhecendo nossos pecados e implorando o perdão de Deus.
A humildade do publicano se demonstra não apenas pelo que ele ora, mas também pela maneira como ora. Fazer alarde de quão humilde e justo você é pode impressionar os outros neste mundo, mas não impressionará a Deus. Jesus nos ensinou que nossas orações, assim como nossa caridade, devem ser feitas em segredo, onde somente nosso Pai Celestial pode ver. “Mas tu, quando orares, entra em teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai, Que está em secreto; e teu Pai, Que vê em secreto, te recompensará publicamente” (Mateus 6:6). É mais importante para nós e para a nossa salvação que o nosso Pai Celestial ouça as nossas orações, pois é a Ele que devemos nos dirigir.
Infelizmente, a humildade é uma qualidade que parece estar em falta nos dias de hoje. Para ser humilde, é preciso ter uma consciência que nos diga quando estamos fazendo algo errado. Deveria ser, então, a nossa humildade, e não a nossa necessidade de auto-justificação, que nos leva a Deus, buscando o Seu perdão.
Ao prosseguirmos nossa jornada quaresmal nas próximas semanas, teremos muitas oportunidades, por meio dos Serviços da Igreja, para refletir sobre nossas próprias ações e atitudes para com Deus e nossos semelhantes. Devemos também refletir sobre a força de nossa vida de oração e trabalhar para aprimorar nossa comunicação com Deus. Quando buscamos humildemente a vontade de Deus por meio da oração, nos veremos transformados, e é disso que se trata a experiência quaresmal: a transformação de nossa vida em uma vida agradável a Deus. Devemos manter em nossos corações as palavras do Salmista enquanto nos preparamos para o nosso encontro com Deus por meio da oração: “Os sacrifícios para Deus são um espírito quebrantado; um coração quebrantado e contrito, ó Deus, Tu não desprezarás” (Salmo 50 ou 51). Que nossos corações quebrantados e contritos sejam, portanto, nosso sacrifício diário, refletido em nossas orações humildes e puras ao nosso Pai Celestial.
Diácono Michael Schlaack
tradução de monja Rebeca (Pereira)








