Há passagens da Bíblia Sagrada que, à primeira vista, parecem desconcertantes. Uma delas é a da serpente de bronze no deserto. Como pode algo que simboliza morte tornar-se instrumento de vida? E por que o próprio Cristo recorre a essa imagem para revelar o mistério da Sua cruz?
A espiritualidade da Igreja Ortodoxa nos convida a não fugir desses paradoxos, mas a habitá-los. Porque é justamente neles que Deus revela a profundidade do Seu amor. No livro dos Números, vemos um povo cansado. Não apenas fisicamente, mas espiritualmente esgotado. A nova geração de israelitas já não tem memória viva do Egito, nem a mesma esperança da Terra Prometida. O que resta é a monotonia do caminho, a repetição dos dias, o peso da caminhada.
E então vem a murmuração. O desprezo pelo maná, o “pão do céu”, revela que quando o coração se fecha, até os dons de Deus perdem o sabor. É nesse contexto que surgem as serpentes. Elas não são apenas um castigo externo, mas um reflexo de um veneno interior já presente: a ingratidão, a rebeldia, o afastamento de Deus. O deserto não é apenas geográfico. Ele continua existindo hoje — nas rotinas vazias, nas crises silenciosas, na sensação de que tudo perdeu o sentido.
Quando o povo se arrepende, Deus não elimina imediatamente as serpentes. Isso já diz muito. A fé não é um atalho que remove todas as dores da vida. Em vez disso, Deus ordena algo inesperado: Moisés deve erguer uma serpente de bronze. Aqui está o escândalo e, ao mesmo tempo, a beleza do gesto divino. Deus usa a imagem do próprio mal para conduzir à cura. Aquilo que causava morte torna-se sinal de vida.
Mas o ponto central não está no objeto. Está no gesto: olhar para cima. Na tradição ortodoxa, esse movimento é profundamente espiritual. É o levantar dos olhos da alma. É sair do fechamento em si mesmo e voltar-se para Deus com confiança. A cura não vinha do bronze. Vinha da fé obediente.
Séculos depois, o próprio Senhor, ao conversar com Nicodemos, revela o sentido mais profundo desse episódio: “Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado”. Aqui, tudo se ilumina. A serpente de bronze era figura. A cruz é realidade.
Assim como o veneno das serpentes destruía o corpo, o pecado corrói a alma humana. E Cristo, sem pecado, assume a condição do pecador. Não se torna pecador, mas toma sobre Si as consequências do pecado. Ele é como a serpente de bronze: tem a forma, mas não o veneno. Na cruz, o instrumento de tortura se torna o trono da vitória. A morte é vencida por dentro. O que parecia derrota torna-se salvação.
Na espiritualidade ortodoxa, isso é uma experiência. Contemplar a cruz não é um exercício intelectual, mas um encontro que cura. A história da serpente de bronze não termina no deserto. Séculos depois, o povo começou a adorá-la. Aquilo que apontava para Deus tornou-se um substituto de Deus. O rei Ezequias precisou destruí-la, chamando-a de “Neustã” — um simples pedaço de metal.
Esse episódio é um alerta muito atual. Também hoje existe o risco de reduzir a fé a formas vazias: símbolos sem vida, práticas sem coração, tradições desconectadas de Deus. A Igreja Ortodoxa preserva os símbolos, os ícones, a beleza litúrgica — mas sempre com uma consciência clara: tudo deve conduzir ao encontro com Cristo. Quando isso se perde, até o sagrado pode se tornar obstáculo.
Um detalhe muitas vezes esquecido: as serpentes não desapareceram do acampamento. Isso muda completamente a compreensão do milagre. Deus não prometeu um mundo sem veneno, mas ofereceu um caminho de salvação dentro dele. Essa é uma mensagem urgente para a nossa geração, que frequentemente busca soluções imediatas, alívio rápido, ausência de sofrimento.
A fé cristã não elimina automaticamente as dores da existência. Mas oferece direção, sentido e cura no meio delas. Olhar para Cristo não significa escapar da realidade, mas atravessá-la com esperança. A serpente de bronze continua a falar. Em um mundo cheio de distrações, ruídos e crises, o convite permanece simples e exigente: levantar o olhar. Não para qualquer direção, mas para Aquele que foi levantado por amor.
A cruz é o lugar onde Deus entrou no sofrimento humano e o transformou desde dentro. Para a geração de hoje, tão marcada por feridas visíveis e invisíveis, essa mensagem não poderia ser mais atual: o veneno não tem a última palavra. Há cura. Há vida. Há salvação. Mas tudo começa com um gesto interior: olhar para Cristo.
+ Bispo Theodore El Ghandour







