O tempo do Triodio é toda a nossa vida espiritual em miniatura. Se você acompanhar as mensagens dos hinos diariamente, isso basta para mostrar a jornada que você precisa fazer na luta que o aguarda. Começa com o fundamento da vida espiritual e termina com nossa santificação e glorificação. O Triodio é um período espiritual muito rico; porém, devido às condições particulares em que vivemos hoje e com todas as diversas obrigações que todos nós temos, não é fácil aproveitar todas as oportunidades espirituais que nos são oferecidas.
O Triodio se desenrola em três etapas. A primeira, antes do início do jejum; a segunda, o próprio jejum; e a terceira, a Grande Semana com a Paixão e Ressurreição do Senhor.
A primeira etapa é preparatória e nos mostra como devemos nos esforçar e qual a melhor maneira de entrarmos nessa luta espiritual. O fundamento de toda a vida cristã nada mais é do que a consciência do arrependimento. O arrependimento nasce da humildade.
O primeiro domingo do Triodio é o do Fariseu e do Publicano. Aqui, o Senhor nos mostra claramente uma pessoa cheia de pecado, totalmente imoral, que é absolvida diante de Deus. Ao mesmo tempo, também nos mostra uma pessoa moral, devota e “piedosa”, que observa todas as disposições da lei, mas, em vez de ser absolvida diante de Deus, é considerada culpada, porque não encontrou a chave que abre a porta para a vida espiritual. Essa chave é o arrependimento e a humildade. Eles andam juntos. Portanto, quem não é humilde não pode conhecer o arrependimento; os orgulhosos não podem se arrepender. Somente os humildes se arrependem de verdade, porque arrependimento significa contrição sincera, estado no qual as pessoas precisam invocar o Nome de Deus, que é o único que pode salvá-las.
O arrependimento dói, é doloroso. Mas por meio dele você pode ser reformado. O arrependimento é a chave que abre a porta para a misericórdia de Deus. Porque a natureza humana é tal que jamais poderá alcançar a ausência de pecado. Somente Cristo, como pessoa humana, foi sem pecado, assim como, por graça, a Santíssima Mãe de Deus, Que recebeu esse dom de Deus. Não podemos nos imaginar como seres sem pecado, porque isso não é possível. Portanto, visto que o pecado é, na prática, inevitável para nós, o que pode servir de prova a nosso favor diante de Deus não são nossas obras e virtudes, mas sim nosso arrependimento genuíno. Dessa forma, destruímos o mito de que podemos nos tornar puramente morais e virtuosos, porque, por mais morais que sejamos, certamente ainda pecaremos. Assim, não podemos construir nosso relacionamento com Deus com base no fato de que escaparemos do pecado; mas podemos fazê-lo com base no arrependimento. Aprendemos a nos arrepender e a nos apresentar corretamente diante de Deus por meio de um espírito de humildade.
O arrependimento, portanto, nasce da humildade. Pessoas humildes se arrependem e não buscam desculpas. Uma vez que você começa a buscar desculpas para si mesmo, não consegue se arrepender. Uma vez que você se concede circunstâncias atenuantes, imediatamente diminui a chama do arrependimento. É por isso que os padres não aceitam justificativas, não porque não haja desculpa quando as pessoas pecam: quando pecamos, é porque fomos afetados por algum acontecimento. Se, porém, sentirmos a dor do pecado e se, como os santos fizeram, comparecermos perante Deus sem qualquer desculpa e aprendermos o princípio do Publicano, então essa é a base do sucesso. Tudo o mais nos leva a essa situação.
O segundo domingo, o do Filho Pródigo, mostra quão grande é o amor de Deus por nós; Deus nos recebe quando retornamos a Ele. Não há chance de os penitentes serem rejeitados. Não há chance de você retornar e Deus o rejeitar.
O terceiro domingo, com a narrativa sobre a Segunda Vinda, mostra-nos que a fé não é algo abstrato, mas concreto, envolvendo obras de amor e a luta espiritual.
No quarto domingo, o Senhor nos mostra o verdadeiro caminho do jejum e nos ensina que devemos direcionar nosso coração para onde está o nosso tesouro.
Em seguida, vem a primeira semana de jejum, com o Domingo da Ortodoxia. Historicamente, havia uma razão específica para isso, relacionada à questão da iconoclastia que assolou a Igreja por um século. Desde então, uma vez que ela foi historicamente e teologicamente superada, a Igreja celebra este dia. Mas, como dizem os Padres, não são os eventos históricos que importam. A iconoclastia está sempre presente, porque afeta a própria salvação da humanidade. Foi a heresia inicial, que se repete constantemente de uma forma diferente. Segundo essa heresia, Deus não Se tornou pessoa humana. Portanto, já que Deus não Se tornou humano, não podemos nos tornar deuses pela graça. Quando aquelas pessoas se recusavam a venerar ou olhar para os ícones, enquanto os Padres da Igreja insistiam, não era porque as primeiras eram devotas e temiam que os ícones fossem ídolos e que as outras pessoas não se importassem e subestimassem a situação. Certamente não era assim.
Os Padres insistiam no fato de que, a partir do momento em que Cristo, o Verbo de Deus, se fez homem e se tornou perfeitamente humano e perfeito Deus, podemos descrevê-lo e representá-lo. Porque toda a fé depende da Encarnação real de Deus, o Verbo, do que diz São João Evangelista: “O Verbo Se fez carne e habitou entre nós, e vimos a Sua glória”, vimos a Encarnação de Deus. Em outras palavras, essa heresia atacava essencialmente o próprio fundamento da fé. No âmbito da Igreja, não lidamos com ideias, teorias ou filosofia, mas com uma Pessoa chamada Jesus Cristo. Isso não tem nada a ver com quaisquer ideias contidas no Evangelho, por mais belas que as consideremos. Na Igreja, não adoramos o amor ou a liberdade como ideias; o que temos que fazer é desenvolver um relacionamento com a pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo, este Cristo Que Se fez homem e permanece na Igreja como a Pessoa Que vimos. Nunca vimos o Pai. Porque Cristo é a imagem do Pai e nós somos a imagem de Cristo. Porque Cristo Se fez homem, somos imagens d´Aquele Que criou todas as coisas. Portanto, no âmbito da Igreja, temos este fato da presença de Cristo. A partir do momento em que interagimos com alguém, nossa atitude em relação a essa pessoa deixa de ser de fé. Não basta dizer a Cristo que você crê n´Ele. Você pode acreditar em ideologias e sistemas de ideias, em teorias mundiais e política partidária. Mas isso não pode acontecer na Igreja. O que acontece é que, sim, você sobe o primeiro degrau da escada, a fé, mas não permanece ali; você continua a ascender ao amor. Dentro da Igreja, você é chamado a desenvolver um relacionamento de amor com Cristo. Isso requer a aceitação da Verdade de Cristo e do Evangelho, que é o primeiro degrau. Mas você não pode ficar ali. Você tem que ir até o fim. São Paulo diz que, no fim, a fé e a esperança serão abolidas e o amor permanecerá. Se os jovens buscam e procuram encontrar onde reside a Verdade, eles precisam entender que, se compararem a Igreja com outras verdades e a considerarem uma verdade, então, com a melhor das intenções, não poderão compreender que a Igreja não fala de uma verdade; ela fala de Cristo, que é a Verdade do mundo. Cristo é a verdade, a liberdade, a justiça, a paz, o tudo e o fim de tudo, e é tudo dentro da Igreja. Portanto, tudo o que fazemos no âmbito da Igreja, todas as batalhas que travamos, são empreendidas para que possamos amar a Cristo de todo o coração. Para que possamos desenvolver nosso próprio relacionamento de amor com Cristo. Mas como isso funciona?
O primeiro passo é investigar; aprender Quem é essa Pessoa. É por isso que a leitura ajuda tanto no início da vida espiritual. É por isso que os Padres dizem que, para os iniciantes, a leitura ajuda mais do que a oração, ou tanto quanto. É muito importante lermos livros espirituais, biografias de santos, para vermos como essas pessoas, que amaram a Deus intensamente e lutaram em suas vidas, onde quer que estivessem, mergulharam suas vidas nessa corrente de seu relacionamento com Deus. Então, o processo da vida espiritual começa. Começamos a guardar os mandamentos de Deus. E permanecemos no amor de Deus por meio dessa observância de Seus mandamentos. Esses mandamentos não são instruções peculiares, mas sim um remédio. São o curso da terapia prescrita pela Igreja, que traz resultados àqueles que a seguem. À medida que as pessoas observam os mandamentos de Deus, isso produz zelo, que é força, e isso nos torna mais atraentes para nos esforçarmos ainda mais. Quando há uma redução na aplicação dos mandamentos de Deus, a energia diminui até desaparecer, ou seja, há uma cessação da luta espiritual. No início, Deus concede Sua graça como um dom gratuito. Assim que entramos na Igreja, tudo é fácil: ler a vida dos santos, participar de vários serviços, observar os jejuns, tudo é tão fácil. Mas depois temos que nos esforçar para receber essa graça.
Assim, Deus, que é um verdadeiro ser humano e também o Deus Encarnado, o Verbo, é o Protótipo para todos nós e também o foco do nosso amor. Somos convidados a ter um relacionamento pessoal com Ele e, ao longo dessa jornada, a reconstruir nosso eu despedaçado, o que certamente restaurará a imagem de Deus que o diabo destruiu com a queda. Através da Igreja, com todo esse processo terapêutico, devemos perceber a realidade da nossa cura, que é específica e produz frutos particulares.
Metropolita Atanasios de Limassol
tradução de monja Rebeca (Pereira)








