Vivemos cercados por um barulho incessante. Opiniões são exigidas antes da reflexão. Julgamentos são proferidos antes do encontro. O silêncio, que antes era sinal de prudência, hoje é visto como culpa ou covardia. Nossa vida pública nos empurra para a indignação rápida, para a fala apressada, para a condenação que antecede qualquer exame do coração.
Nesse cenário, a Igreja não compete com o ruído. Ela oferece outro caminho. Um caminho antigo, exigente e libertador. O temor a Deus.
A Escritura é clara: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Provérbios 9:10). Não se trata do medo servil do castigo, mas da reverência viva de quem sabe que está diante do Santo. Diante Daquele que tudo vê, tudo conhece e não pode ser manipulado por narrativas, performances morais ou discursos inflamados. O temor a Deus nos desloca do palco e nos coloca de joelhos.
Os Santos Padres insistem que onde há verdadeiro temor de Deus, há sobriedade. São João Clímaco ensina que o temor do Senhor é filho da fé e guardião do coração. Ele não paralisa, e sim desperta. Faz o homem parar de atuar e começar a arrepender-se.
Quem teme a Deus aprende a desconfiar de si mesmo antes de desconfiar do outro. Aprende que compreende muito pouco de Deus, ainda menos do próximo e quase nada de si. Por isso, não se precipita em julgar. Não se deleita na exposição da falta alheia. Não transforma o zelo pela verdade em instrumento de crueldade.
Santo Isaac, o Sírio, vai ainda mais longe ao dizer que o coração misericordioso é sinal da presença de Deus. E a misericórdia nasce precisamente do temor reverencial. Só quem sabe que está sob o olhar divino aprende a tratar o outro com cuidado. Só quem treme diante do Sagrado ousa ser paciente em uma cultura viciada em imediatismo, moderado em uma cultura de excessos e compassivo em uma cultura de suspeita.
A resposta da Igreja à indignação do mundo não é uma indignação mais alta. É um arrependimento mais profundo. A metanoia é a mudança de mente, de direção, de postura interior. Temer a Deus significa falar somente depois de orar. Corrigir somente depois de examinar a própria consciência. Agir somente com misericórdia. Sem isso, até a defesa da verdade se torna caricatura do Evangelho.
Cristo não nos chamou para vencer debates, mas para salvar pessoas. A salvação começa sempre por nós mesmos. “Por que vês o argueiro no olho do teu irmão e não reparas na trave que está no teu próprio olho?” (Mateus 7:3). O temor a Deus devolve essa pergunta ao centro da vida cristã.
O mundo não precisa de mais acusações religiosas. Precisa de um testemunho diferente. De uma Igreja enraizada não na indignação, mas no temor reverencial. Uma Igreja que sabe calar para ouvir a Deus e, ao ouvi-Lo, aprender novamente a amar.
Se perdermos o temor a Deus, perderemos também a capacidade de reconhecê-Lo. Recuperemo-lo enquanto ainda há tempo. No silêncio, na oração e no arrependimento. Esse é o princípio da sabedoria.
+ Bispo Theodore El Ghandour








