— Padre Kiprian, sua bênção. O que devemos fazer se, no decorrer de nossa vida cristã, nos tornarmos mornos na oração e na frequência aos cultos, caindo em um estado de relaxamento?
— Quando o Senhor nos chama, Ele nos concede a graça de que devemos viver, e os violentos o conquistam à força (Mt 11,12). Nenhum dom espiritual é assimilado pela natureza humana sem sofrimento. Os Santos Padres ensinaram: “Dê sangue e receba o espírito”. Como queremos viver? Piedosamente, mas com serenidade, voando livremente com nossas asas, não é mesmo? Aonde chegaremos com as asas da presunção? E o que o Senhor poderá fazer conosco então?… O Senhor nos revelou tudo no Evangelho. Ele nos disse: “Quem não toma a sua cruz e não Me segue, não é digno de Mim” (Mateus 10:38); e também: “Estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos são os que a encontram” (Mateus 7:14). O caminho estreito é o da abnegação e da auto-reprovação, e o largo é o da auto-justificação e da auto-comiseração. O Senhor não nos escondeu nada — tudo nos foi revelado. Outra questão é que colhemos o que plantamos.
A graça não pode ser retida por si só — é impossível. É uma dádiva de Deus. E dons não são concedidos por trabalho árduo, mas por humildade. Se um cristão pensa: “Agora vou ler o Saltério constantemente, dormir quatro horas por dia, comer uma vez ao dia depois do pôr do sol, e isso me trará dons espirituais”, ele está enganado. Ele está construindo isso sobre si mesmo. E, a princípio, o inimigo pode até ajudá-lo. Ele trabalhará e lutará, esperando receber os dons de Deus. Mas chegará o momento em que ele se cansará e não receberá dons. E seu esforço será um completo fracasso. “Por quê? Trabalhei duro, mas não ganhei nada!” Mas para que ele estava fazendo isso?
—Como podemos adquirir humildade?
—Por meio da obediência.
—E a quem devemos obedecer no mundo?
— Se você não for obediente no trabalho, será que o manterão lá? A obediência está em toda parte. O Arquimandrita Nathanael (Pospelov; 1920–2002), Ancião do Monastério das Grutas de Pskov e famoso tesoureiro, disse que “a Divina Providência opera igualmente por meio das autoridades espirituais e civis”. A humildade é impossível sem obediência — obediência aos mandamentos de Deus. Humildade perante quem? Perante o quê? Não perante os pensamentos sugeridos pelos espíritos caídos, nem perante a sua implementação. Não há humildade nisso. Perante o quê, então? Perante a Divina Providência, por si mesmo. São João Clímaco disse que, se tentarmos descrever a humildade de espírito em palavras, não conseguiremos.
—Quais são os caminhos para adquirir humildade?
—Ela nos é revelada no Evangelho. E os Santos Padres nos falam muito sobre isso. Outra coisa é lermos suas instruções sobre como viver segundo o Evangelho, como viver a vida da Igreja, mas não fazermos nada. É como se nos dissessem que uma árvore com frutos medicinais cresce em algum lugar, mas perguntássemos como poderíamos provar seus frutos. Receberíamos a resposta: “Você precisa ir até essa árvore”. Mas perguntamos: “Quão longe ela fica?”. O caminho é conquistado por quem caminha, como diz o ditado. O que o Senhor diz sobre o caminho? No Evangelho, o caminho não é “o quê”, mas “Quem”: Eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14,6). O próprio Senhor disse que Ele é o caminho. Este é o caminho: seguir o Senhor e carregar a sua cruz.
Algumas pessoas seguem o Senhor de forma altruísta e com grande determinação. O filho de um príncipe entrou para um mosteiro quando ainda não tinha vinte anos e morreu aos vinte e cinco. Estou falando de São Josafá do Lago Kubenskoye. Como ele se tornou santo tão rapidamente? O filho de um príncipe, que antes levava uma vida de conforto, em cinco anos não só alcançou o Reino dos Céus, como também foi santificado e é venerado como santo. Levou apenas cinco anos! Qual é o motivo? Ele obedeceu! “A obediência é a vida”, disse o Ancião Ambrósio de Optina. Dizem-nos o que fazer, mas evitamos. Concordamos, conversamos sobre isso, mas não obedecemos.
—O que devemos fazer se o nosso desejo de receber a Comunhão se tornar insensível ou desaparecer?
—Imagine que alguém, de repente, perde o apetite. Isso é normal? Não — essa pessoa está doente. A alma de quem não quer mais comungar está doente. Observe o que disse Santo Efrém, o Sírio: “Se você perceber que não quer mais ler as Sagradas Escrituras e os Santos Padres, então sua alma caiu em uma grave doença”. Ele escreveu apenas sobre a leitura, mas o que podemos dizer se alguém não quer comungar? Oração e esforço são necessários.
—Como podem os leigos amar a Deus de todo o coração e colocá-Lo em primeiro lugar em suas vidas? Talvez os monges já possuam esse amor a priori?
—Isso diz respeito a todos! Temos um Evangelho para os leigos e outro para os monges? Um monge não precisa mais de trabalhos? Ele acaba de ser tonsurado e está pronto para o Reino dos Céus? Não — ele obedece. Depende do seu esforço obedecer ou não. Ele tem liberdade, a mesma que todos os outros.
Pode haver amor sem fidelidade? Não. Pode haver fidelidade sem obediência? Não. Tudo se resume a a quem obedecemos e a quem colocamos em primeiro lugar. Todos têm a mesma tarefa (seja leigo, monge, homem ou mulher) — colocar o Senhor em primeiro lugar em nossas mentes e corações. Então é vida — quando todas as faculdades da alma estão voltadas para o Senhor. Esta é a vida do homem com Deus e em Deus. E esta é a tarefa dos seres humanos. Caso contrário, por que viver em um monastério se você já está pronto para o Reino dos Céus logo após a tonsura?
O monastério é um hospital. Em seu livro, “Uma Oferta ao Monasticismo Contemporâneo”, Santo Ignácio (Brianchaninov) instrui: “Por que você veio para o monastério? Para se livrar de seus maus hábitos e paixões e substituí-los por virtudes”. Aqui ele escreve sobre as tentações que os monges enfrentam. No livro Paterikon, vemos que os monges também têm liberdade para agir, como foram vencidos pelas tentações e por quê. E como, inversamente, com a ajuda de Deus, eles venceram essas tentações.
Quanto à verdadeira vida espiritual, Santo Efrém, o Sírio, afirma: “Ele [Deus] perdoa milhares de pecados e cura milhares de nossas feridas e, tendo-as curado, nos recompensa por nossas lágrimas. Pois isso é típico de Sua graça: depois de curar, Ele prodigaliza recompensas” (Homilias Ascéticas). Ou seja, mesmo que você caia e se machuque mil vezes por dia no caminho de Deus, não abandone esse caminho.
—Como podemos viver com a lembrança incessante de Deus? Especialmente neste mundo, quando nossas mentes estão constantemente distraídas por tarefas e problemas?
—Houve o seguinte caso. Um monge que caminhava por aí entrou em uma aldeia e viu uma coluna de luz acima de uma das casas. Ele se maravilhou: “Nunca vi isso em nosso monastério! Quem mora lá?” Ele bateu na porta e uma mulher abriu. Vendo um viajante, ela lhe ofereceu algo para comer e beber. O monge perguntou a ela: “Como você vive? Como você reza?” Ela respondeu: “Como eu vivo? Eu me levanto de manhã, mas só começo a recitar as orações da manhã quando minha vaca começa a mugir. Tenho que correr até a vaca. Além disso, tenho galinhas e uma horta para cuidar. Então, rezo as orações da manhã o dia todo. E o mesmo acontece com as orações da noite.” O monge disse: “Não, isso está errado. Você deve se levantar mais cedo para fazer suas orações matinais em frente aos ícones, com calma. E só então fazer todo o resto. O mesmo vale para a regra da noite. Entendeu?” Ela respondeu que sim.
Depois de um tempo, o monge estava voltando. Caminhava feliz: afinal, ele havia instruído uma asceta sobre como viver corretamente! Chegou à mesma aldeia, apenas para descobrir que não havia mais a coluna de luz sobre a casa. Bateu à porta, a mulher abriu, ficou encantada em vê-lo e começou a alimentá-lo. Ele perguntou: “Bem, como você vive?” Ela respondeu: “Ah, eu vivo exatamente como você me ensinou. Faço minhas orações matinais e vou fazer meus afazeres domésticos. E o mesmo com as orações da noite.” Antes disso, ela vivia com a lembrança de Deus o dia todo, caminhando continuamente na presença de Deus. Mas é um trabalho árduo.
O Arquimandrita Ioann (Maslov; 1932–1991), um Ancião de Glinsk, escreveu a Santo Andronik (Lukash), um Ancião do Monastério de Glinsk, em Tbilisi: “É difícil caminhar na presença de Deus o tempo todo”. Se era uma tarefa árdua para um asceta como ele, o que se pode dizer de nós? O Ancião Ioann (Krestiankin) aconselhava as pessoas a se voltarem para Deus o máximo possível com breves orações. Se você ama alguém e essa pessoa está no mesmo cômodo que você, consegue esquecer a presença dela? Não. E precisamos nos esforçar para isso. Não há um único momento em que o Senhor não nos veja. Mas nós esquecemos… Vamos nos esforçar ou não?
Idealmente, toda a nossa vida deveria ser direcionada para isso: caminhar na presença de Deus. Precisamos nos esforçar para cumprir os mandamentos do Evangelho em relação ao nosso próximo. Antes de tudo, é necessário um retorno pessoal a Deus. Se tentarmos apenas “ler” nossa regra de oração de manhã e à noite, não teremos sucesso. Porque se estivermos preocupados apenas com as coisas mundanas durante o dia, nossas mentes, acostumadas a isso, se voltarão para essas coisas durante a oração. Em outras palavras, não conseguiremos orar nem de manhã nem à noite. Estaremos com um livro de orações, mas a que nossas mentes estão acostumadas?
—A mente de alguém que está na igreja durante a Divina Liturgia divaga pelo mesmo motivo?
—É disso que estou falando. A que a mente está acostumada? Só os anjos conseguem orar sem nunca se distraírem. O Padre Ioann (Krestiankin) disse que a mente “errante” é uma doença comum. O que é necessário? Se sua mente se perdeu, traga-a de volta. Este é o trabalho de se voltar para Deus, de se colocar diante d´Ele.
—Como podemos aprender a confiar em Deus como um Pai amoroso e acreditar em Sua boa Providência? Talvez as pessoas não tenham fé suficiente nisso.
—“Fé é humildade”, disse São Barsanúfio, o Grande. Ele disse isso sem rodeios. Não é só para monges — é para todos. “Eu estava abatido, e Ele me ajudou” (Sl 114,6). Esse é o ponto: toda a luta é pela humildade. Humildade diante de quem? Diante do Senhor e Salvador. O amor é impossível sem humildade. Vejam o que o Senhor nos diz no Evangelho: “Tomem sobre vós o Meu jugo e aprendei de Mim, pois sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mt 11,29). O Senhor não disse isso apenas a monges ou sacerdotes. Não, Ele disse isso a todos. Além disso, Ele disse: “Aprendei de Mim” — literalmente “da Minha presença em vós”.
São João Clímaco escreve exatamente sobre isso. É claro que “A Escada” foi escrita para monges, mas as leis espirituais pelas quais a alma vive e só pode viver são as mesmas para todos. Não estou falando de circunstâncias externas, mas a vida da alma é a mesma para todos, assim como a temperatura corporal saudável é de 36,6 graus Celsius para todos (independentemente da idade ou profissão). É o mesmo aqui — todas essas leis espirituais são para todos. Elas andam juntas — mansidão e humildade.
— Mas são coisas diferentes, não são?
— Se fosse uma coisa só, o Senhor teria dito em duas palavras? Uma moeda tem dois lados; qual é o mais valioso? Mas Ele diz: “Mansidão e humildade”. O fato é que existe uma lei espiritual assim: aquele que bebe o leite da obediência eventualmente se transforma de obstinado em manso. Mas o Senhor guia os mansos no discernimento — isto é, no discernimento de como agir. O Saltério diz: “Aos mansos guiará na justiça, e aos mansos ensinará o seu caminho” (Sl 24,9). Eles andam juntos, são inseparáveis. Não se pode separar um do outro. Mas não é coincidência que o Senhor tenha mencionado a mansidão pela primeira vez no Evangelho. O próprio Senhor nos disse isso. São João Clímaco dá esta receita: “O princípio da mansidão é a quietude da boca quando o coração está perturbado”. A mansidão se dirige contra a ira. E a ira é uma loucura passageira. Como se pode fazer algo criativo e bom com uma mente perturbada?
—A mansidão também se adquire?
—De que outra forma? Aprenda de Mim. Imagine que alguém nunca fez pão. Se você lhe contar toda a teoria e lhe der todos os ingredientes necessários, ele fará um pão maravilhoso de imediato? Você já lhe disse tudo e lhe deu tudo — o que está faltando? Experiência. São Pedro Damasceno disse: “A humildade é fruto da razão, e a razão é fruto das tentações e das tristezas”. Ou seja, sem experimentar tentações, você não adquirirá uma mente ativa e virtuosa — é impossível. Somente através das tentações. Inexperiente significa inábil. E a paciência leva à experiência; e a experiência, à esperança (Romanos 5:4). O apóstolo Paulo nos fala sobre isso. Quando sofremos uma tentação, o que ganhamos com ela? Experiência, e com ela, esperança.
—Como podemos adquirir paz de espírito?
—Tomem sobre vós o Meuu jugo e aprendei de Mim, pois sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas (Mateus 11:29). Aqui estamos falando da presença de Deus no homem. Como podemos aprender com o Senhor se não O vemos com nossos olhos físicos? São João Clímaco fala da visitação de Deus. Onde? No coração. Purifique seu coração — e então você entenderá. Ou seja, aprendemos com a presença de Deus em nós. Quando o Senhor renova os sentimentos de nossos corações com a Sua graça, aprendemos que isso é vida.
São João Clímaco explicou isso muito bem: “O Senhor disse: Aprendei de Mim; isto é, não de um anjo, não de um homem, não de um livro, mas de Mim — da iluminação e da obra de Deus que habita em nós” (A Escada, capítulo 25). Percebe o que ele diz sobre como podemos aprender? O que é o temor de Deus? Santo Ignácio (Brianchaninov) escreve que esta é a obra do Espírito de Deus na alma humana. Ou seja, nós conhecemos e aprendemos com isso. Se obedecermos ao Senhor, permaneceremos neste estado de vida. Quando temos vida? Quando o Senhor vem em primeiro lugar. Não em palavras, mas na realidade. Então é vida.
— Precisamos de vigilância para manter a paz de espírito?
— Isso é vital. Vigiai e orai, para que não entreis em tentação (Mt 26,41). O Senhor revelou-nos todas essas leis espirituais no Evangelho. Arquimandrita Kirill (Pavlov) insistia, aconselhava e convencia os fiéis a lerem o Evangelho o máximo possível. Ele dizia que isso fortaleceria a vontade de praticar o bem.
—As leis espirituais escritas no Evangelho são para todos. Mas será verdade que mais será exigido dos monges?
—O Senhor nos diz: “A quem muito foi dado, muito lhe será exigido” (Lc 12,48). Certo? Mas por que deveríamos comparar uns aos outros? Que cada um permaneça onde está sua vocação. Mas o ideal é o mesmo tanto para leigos quanto para monges: é o próprio Senhor Jesus Cristo. O hieromártir Hilarion (Troitsky) escreveu uma carta sobre este assunto. Vi o hierodiácono Andronik (Sharuda; 1933–2010) no Monastério das Grutas de Pskov e a avó Shura perto de Shatsk. Eles eram como uma só pessoa. O primeiro tinha o Schema, e a segunda era viúva de um soldado. De qual deles será mais exigido?
Pelo que serei responsabilizado? Isso é o que importa. E serei cobrado por aquilo que o Senhor me confiou e aquilo que Ele me revelou. Por que devo olhar para os outros? Lembrem-se do que o Senhor disse ao apóstolo Pedro em resposta à sua pergunta: “Senhor, e o que fará este homem?” Jesus respondeu: “Se eu quiser que ele fique até que Eu venha, o que te importa? Segue-Me” (João 21:21-22). O Senhor disse isso a todos, não apenas ao apóstolo Pedro. Quando começamos a prestar atenção aos outros: “O que eles farão?”, esperem, o Senhor já nos deu a resposta sobre como devemos nos comportar aqui. O que te importa? Segue-Me. Isso se dirige a todos, sem exceção. E as palavras da Mãe de Deus, que Ela proferiu em Caná da Galileia: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (João 2:5), também se dirigem a cada um de nós. Quando as pessoas vinham ao Arquimandrita Pavel (Gruzdev; 1911–1996), ele ficava sinceramente surpreso. “Por que vocês vêm até mim? Está tudo escrito no Evangelho. Façam isso.”
—Obrigado, Padre Kiprian!
Igumeno Kiprian (Parts)
tradução de monja Rebeca (Pereira)







