Pense no retorno do filho pródigo à casa de seu pai e nas razões por trás disso, que foram três. A primeira foi que ele refletiu sinceramente sobre a miséria de sua situação; a segunda foi que ele comparou sua miséria com a felicidade daqueles que viviam na casa de seu pai; e a terceira foi que ele alimentou a esperança de que seu pai o perdoaria, como já havia feito tantas vezes antes. E assim, em seu retorno, ele recebeu o perdão que desejava. Mas, quando ainda estava longe, seu pai o viu e se compadeceu dele; correu ao seu encontro, o abraçou e o cobriu de beijos* (Lucas 15, 20). É isto que você também deve fazer: cair em si com grande sinceridade, como diz o profeta: “Arrependam-se, apóstatas, e voltem para o Senhor de todo o coração” (Isaías 15:20). Considerem a grande infelicidade da alma quando ela está distante da graça de Deus. Não sejam como aqueles servos que, quando sua pele se torna insensível, não sentem a vara do seu senhor. E não cheguem ao ponto de chamar de paz o ápice dos males que vocês experimentaram. Como está escrito: “Além disso, não lhes bastou errar no conhecimento de Deus; mas, por viverem na grande contenda da ignorância, deram nome de paz a esses tão grandes males” (Sabedoria 14:22).
Você não conhece as provações sofridas pelos miseráveis pecadores que estão longe de Deus? Você não conhece as dificuldades que eles enfrentam? As preocupações? Quanta tristeza e dor há em seus corações? Por que foram privados da graça divina? Por que não participam dos santos Sacramentos? E por que não desfrutam da ajuda invisível de Deus? E por que você é indiferente a todas essas aflições? Você não sabe que mesmo uma delas, particularmente a não participação nos Sacramentos, é uma aflição insuportável e uma verdadeira morte da alma? É por isso que São Basílio o Grande, em sua nova Regra, chama a exclusão da Comunhão e a excomunhão de “morte” e “espada”. É evidente, então, que você ainda não caiu em si e que ainda não é você mesmo. É por isso que o filho disse: “Quantos servos de meu pai têm pão de sobra, e eu aqui, morrendo de fome?” (Lucas 15, 17). Como disse Gregório, o grande Arcebispo de Tessalônica [Palamas]: “Ele estava privado, estando distante de nosso Pai comum, Provedor e Senhor, mas, uma vez submetido à fome intensa e sentindo sua falta, arrependeu-se e retornou. Buscou e recebeu provisões divinas e puras” (Discurso sobre esta parábola). Mas você está com fome e não sente a fome que está sofrendo. É por isso que você está sofrendo o dobro da aflição e, ao mesmo tempo, o dobro do dano. Você corre o risco de morrer de fome, não de pão e água, mas de ser privado da palavra de Deus. Como está escrito: “Dias virão”, declara o Soberano Senhor, “em que enviarei fome sobre a terra, não fome de pão ou sede de água, mas fome de ouvir as palavras do Senhor” (Amós 8, 11).
Mas que desejo você demonstra de ir ouvir as palavras dos mestres que pregam a palavra de Deus, para saciar sua fome? Segundo Gregório, o Teólogo, “A palavra de Deus é o pão dos anjos, com o qual as almas daqueles que têm fome de Deus são alimentadas”. Você deveria ouvir a palavra do Senhor, que lhe ordena estudar as Escrituras para encontrar nelas a vida eterna. “Vocês estudam as Escrituras diligentemente porque pensam que nelas encontram a vida eterna” (João 5:39). No entanto, quando você pega um livro para ler? Quando você estuda a lei de Deus para ser levado à salvação? Como Paulo lhe diz: “Desde a infância você conhece a Escritura, que é capaz de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus” (2 Timóteo 3:15). Você sabe que o verdadeiro pão e alimento para a alma e o corpo é o corpo e o sangue vivificantes do Senhor, como ele mesmo diz: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá para sempre”. Este pão é a Minha carne, que Eu darei pela vida do mundo (João 6,51). Mas que desejo ou que amor você tem para se preparar constantemente e receber este pão divino (contanto que não haja impedimento) para que você seja saciado e viva eternamente? Se alguém que está doente não come há muito tempo e não tem apetite, mostra sinais de estar morrendo. Assim como você está mostrando sinais de estar em risco de morte espiritual completa e total por causa da sua falta de apetite pelo pão metafísico e espiritual, isto é, tanto a palavra de Deus quanto o corpo do Senhor.
Portanto, caia em si, recupere o juízo. Como e de que maneira? Deixe-me dizer. Se você sempre se esforçar para concentrar toda a sua mente no seu coração e não permitir que ela se distraia com seus sentimentos sobre as coisas do mundo, então você se recuperará. Então, no espírito, você verá todas as paixões que o possuíam e o possuem, e das quais você nem sequer tinha conhecimento antes. Então você verá seus inimigos espirituais, que o atacam constantemente. Em outras palavras, você verá o que ganhou e o mal que lhe foi feito. Portanto, sempre suplique a Deus em espírito e em seu coração que tenha misericórdia de ti, como o teve do filho pródigo, dizendo: ‘Senhor Jesus Cristo, tem misericórdia de mim’. Como disse o Senhor, o coração é o centro e o repositório de todas as nossas paixões e pensamentos: ‘Mas o que sai da boca vem do coração, e é isso que contamina o homem’ (Mateus 15,18). E o grande Macário diz: ‘o coração domina todo o corpo. E quando a graça ocupa as partes do coração, ela reina sobre todo o pensamento e todos os membros. Porque é aí que reside o nous e todos os pensamentos da alma’ (Discurso 15).
Por isso, Basílio o Grande afirma que, quando o nous não se distrai com as coisas deste mundo, ele retorna a si mesmo e, por meio de si mesoa, ascende à compreensão de Deus: “Quando o nous não se dispersa para as coisas exteriores e não é arrastado para o mundo pelos sentidos, ele retorna a si mesmo e, por meio de si mesmo, ascende à compreensão de Deus. Então, iluminado e esclarecido pela beleza de Deus, ele esquece até mesmo sua própria natureza” (Carta a Gregório, o Teólogo). Dionísio, o Areopagita, chama esse movimento da alma em direção a si mesma de cíclico e infalível: “Além disso, há um movimento da alma, de fato circular, a entrada em si mesma a partir de coisas externas e a convolução unificada de suas faculdades intelectuais. Isso lhe confere, por assim dizer, uma inerrância. Numa espécie de círculo, ela se volta e se reúne, a partir das muitas coisas externas, primeiro em si mesma, depois, tornando-se única, unindo-se às faculdades uniformemente unificadas.” Assim, conduz-se ao ser belo e bom, que está acima de todas as coisas, é o único e o mesmo, sem princípio e sem fim’, isto é, Deus.
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* Esta pode parecer uma tradução um tanto ousada, mas é exatamente o que diz o grego; ‘Φιλώ’ significa ‘beijar’; ‘καταφιλώ’, como no Evangelho, significa ‘beijar repetidamente, com entusiasmo’. [WJL]
São Nicodemos, o Athonita
tradução de monja Rebeca (Pereira)








