De acordo com o Patriarca Germanos de Constantinopla, a Igreja Cristã Ortodoxa é um paraíso na terra, onde Deus reside e caminha. O edifício da igreja como um todo é, para Germanos, uma representação da Crucificação e Ressurreição de Cristo.[1] Germanos enfatiza que a Igreja precisa expressar a presença de Deus no mundo e, portanto, expressar a eclesiologia ortodoxa — isto é, a maneira como os fiéis se relacionam com Deus e uns com os outros. Compreensivelmente, a pintura de ícones cristãos ortodoxos tem o mesmo objetivo e é exatamente isso que a pintura de ícones pode oferecer ao mundo contemporâneo.
Em uma sociedade fragmentada e egocêntrica, a arte da pintura de ícones sugere uma forma de ser que projeta amor e unidade e define a vida como uma comunhão de amor e paz. Vamos explorar como isso é alcançado e como o pintor de ícones trabalha para atingir esse objetivo, produzindo simultaneamente obras de arte originais.
Nicolau Messaritis, em um de seus textos, descreve o Pantocrator da Igreja dos Santos Apóstolos em Constantinopla e explica como a imagem funciona no espaço da igreja. Ele destaca que Cristo parece estar inclinado do Céu para a Terra, olhando para cada pessoa individualmente ao mesmo tempo.[2] Nessa descrição, podemos traçar os fundamentos da pintura de ícones e o objetivo funcional dos ícones. Cristo vem até nós e se relaciona com cada um de nós separadamente e com todos nós ao mesmo tempo, unindo todos e tudo em Si mesmo. Esse senso de unidade é o principal objetivo de qualquer igreja cristã ortodoxa, o sentido máximo que pode ser projetado no observador. Os fiéis sentem que entram num espaço-tempo onde Deus está presente, visível e acessível, e trabalha para unir tudo e todos em Si mesmo. Essa sensação precisa ser vivenciada pelos sentidos e não apenas concebida na mente. Para que isso aconteça, o pintor de ícones precisa trabalhar de acordo com a tradição e sua própria experiência do espaço da igreja.
Os pintores de ícones, cujo objetivo é projetar uma sensação de presença divina e unidade inspirada por Deus dentro do espaço da igreja, devem buscar soluções artísticas que os ajudem a alcançar esse objetivo. O sistema pictórico bizantino deve ser usado para representar o presente, o aqui e agora, daquilo que é representado. Como explicado anteriormente, os pintores de ícones devem imbuir suas imagens de ritmo, a essência do sistema pictórico bizantino, a fim de dar vida aos seus ícones.
O ritmo é uma forma de gerir o movimento e as energias na superfície pictórica. O movimento e as energias, criados através de formas e cores, precisam de se reconciliar e unir, adquirindo um propósito comum. Isto pode ser alcançado através do uso do ritmo, e quando isso acontece, tanto no ícone como no espaço da igreja como um todo, existe apenas harmonia, unidade e equilíbrio de movimentos, energias e forças. Tudo e todos existem em paz e num equilíbrio dinâmico e amoroso. O espaço da igreja adquire um aroma celestial.
Para que isto aconteça, contudo, não basta ao pintor de ícones simplesmente copiar ícones antigos. Decorar uma igreja com cópias de ícones antigos privará esse espaço da vivacidade e da imediaticidade da obra de arte original. Será uma cópia de um testemunho pessoal, social e cultural diferente, e não uma expressão das necessidades de uma comunidade contemporânea. O pintor de ícones contemporâneo, como qualquer fiel em qualquer época, funciona como um Apóstolo de Cristo e O ama profundamente, e, como pessoa única, tem uma experiência única da Igreja e do seu espaço. Essa experiência precisa ser incorporada ao ícone para que ele se torne um verdadeiro testemunho de fé, expressando a alma e a vida espiritual do pintor. É claro que, como já mencionei, o trabalho de um pintor de ícones sempre precisará se basear nas técnicas tradicionais da pintura bizantina, embora trabalhadas de maneira pessoal para produzir uma obra de arte autêntica.
Nessas condições, um ícone se torna um ícone contemporâneo. É um ícone autêntico que atesta a verdade do Evangelho e, ao mesmo tempo, destaca como o mundo pós-moderno pode ser percebido dentro da tradição da Igreja, revelando o caminho para o Céu. Os iconógrafos registram sua experiência da vida da Igreja e, com base na tradição da Igreja, transmitem a cultura contemporânea por meio dos ícones de uma maneira mística. No entanto, dentro do ícone, a cultura contemporânea e as circunstâncias espirituais do mundo pós-moderno são transformadas e adquirem um significado diferente. As cores das grandes cidades e as formas dos edifícios contemporâneos são refletidas nos ícones, mas, ao mesmo tempo, são transformadas pelo uso do ritmo em conjuntos harmoniosos. Os elementos pictóricos dos ícones são unidos em harmonia e não visam a se sobrepor ou dominar uns aos outros. Todos os elementos existem para servir a um propósito na vida e se alegram na realidade da vida comunitária cristã, revelando, sem descrever, qualidades do Céu.
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[1] Ἐκκλησία ἐστιν ἐπίγειος οὐρανός, ἐν ᾗ ὁ ἐπουράνιος θεός ἐνοικεῖ καὶ ἐμπεριπατεῖ, ἀντιτυπούσα τὴν σταύρωσιν καὶ τὴν ταφὴν καὶ τὴν ἀνάστασιν Χριστοῦ, PG 98, 381 B-385A.
[2] Πρᾶόν τε τὸ βλέμμα καὶ τὸ ὅλον προσήνεια, οὐκ ἐπαρίστερα βλέπον οὐδ’ ὑπερδέξια, ὁλικῶς δε ἅμα πρὸς ἄπαντας καὶ πρὸς τὸν καθέκαστον μερικῶς (Nikolaos Mesarites: Descrição da Igreja dos Santos Apóstolos em Constantinopla, ed. G. Downey, The American Philosophical Society, 1957,) p. 901.
George Kordis
tradução de monja Rebeca (Pereira)








