Quando as pessoas brigam entre si, o problema vence. Quando se unem para enfrentá-lo, todos avançam. A experiência humana mostra algo que a espiritualidade da Igreja sempre soube: muitas vezes não perdemos a batalha por causa do problema em si, mas por causa das divisões que ele provoca entre nós.
Quando duas pessoas que deveriam caminhar juntas passam a lutar uma contra a outra, o verdadeiro inimigo observa em silêncio, e vence. A tradição espiritual da Igreja Ortodoxa insiste que o verdadeiro combate do cristão não é contra o seu irmão. O combate é contra o pecado, contra as paixões desordenadas e contra tudo aquilo que destrói a comunhão.
O apóstolo Paulo nos lembra: “Porque a nossa luta não é contra carne e sangue” (Efésios 6:12). Ou seja, o outro não é o inimigo. Mesmo assim, é muito fácil esquecer isso. Quando surgem dificuldades, críticas, tensões ou incompreensões, o coração humano rapidamente procura um culpado. E quase sempre escolhe o rosto mais próximo.
Assim nascem conflitos nas famílias, nas comunidades e até nas igrejas. Pessoas que deveriam estar unidas contra o mal acabam gastando suas forças lutando entre si. Enquanto isso, o verdadeiro problema continua ali, intacto.
Os Santos Padres da Igreja sempre advertiram sobre esse perigo. São João Crisóstomo dizia que o demônio não precisa destruir uma comunidade quando consegue apenas semear divisão entre seus membros. A divisão faz o trabalho por ele.
Quando dois irmãos se transformam em adversários, a verdade deixa de ser buscada, e cada um passa a defender o próprio orgulho. O problema deixa de ser resolvido, porque todos estão ocupados defendendo suas posições.
Mas quando acontece o contrário, algo extraordinário surge. Quando as pessoas deixam de lutar entre si e começam a lutar juntas contra o problema, nasce a verdadeira comunhão. A humildade abre espaço para a escuta. O perdão cura feridas antigas. A verdade deixa de ser uma arma e passa a ser um caminho.
É exatamente assim que a Igreja entende a vida cristã: não como uma arena de vencedores e vencidos, mas como um caminho de cura.
São Máximo, o Confessor, ensinava que o amor verdadeiro não ignora os problemas, mas também não transforma o irmão em inimigo. O amor procura a verdade sem destruir a comunhão.
Na prática, isso significa algo simples e ao mesmo tempo muito exigente: olhar para a pessoa ao nosso lado e lembrar que ela não é o problema.
O orgulho pode ser o problema. A incompreensão pode ser o problema. A falta de diálogo pode ser o problema. As paixões humanas podem ser o problema.
Mas o irmão nunca deveria ser o inimigo. Quando conseguimos fazer essa distinção, algo muda completamente. A luta deixa de ser um combate destrutivo e passa a ser um esforço comum para curar aquilo que está ferido.
É assim que as famílias permanecem unidas, que as comunidades crescem e que a Igreja atravessa os séculos. A verdadeira vitória não acontece quando alguém vence uma discussão, e sim quando a verdade é encontrada sem que o amor seja perdido.
Porque quando as pessoas brigam entre si, o problema vence. Mas quando as pessoas se unem para enfrentar o problema com humildade, verdade e amor, todos avançam.
+ Bispo Theodore El Ghandour
tradução de monja Rebeca (Pereira)








