Gosto da forma como um grande asceta do nosso tempo, o Metropolita Anthony de Sourozh, definiu o perdão. Ele escreveu: “Perdoar significa dizer com compaixão, com dor na alma: quando chegar o Juízo Final, eu me levantarei e direi: Não o condenes, Senhor; Ele não poderia ter feito nada melhor, mas me ensinou a palavra do Evangelho, a oração, talvez a vida e, o mais importante, me ensinou compaixão, me ensinou a ter pena dele em seus pecados, a ter pena de todas as pessoas que estão ao meu lado.”
Na noite de ontem, durante o Ofício do Perdão, praticaremos o perdão mútuo. Não são as pessoas que perdoamos que precisam de perdão; elas não precisam da nossa misericórdia e, na maioria das vezes, nem sequer se lembram de nos terem ofendido. Nós mesmos precisamos de perdão porque, dia após dia, carregamos o fardo de nossas mágoas, o que nos impede de nos movermos livremente, de vivermos livremente, de sentirmos e acreditarmos com toda a plenitude de nossos corações. Nem sequer percebemos que esse fardo está ali. É como a parte invisível submersa de um navio, que se torna incrustada de cracas, algas e depósitos minerais. Esses crescimentos são invisíveis a olho nu, mas o navio perde velocidade, consome mais combustível e fica mais suscetível à corrosão. E, no momento oportuno, esse navio é enviado para um dique seco para que esses crescimentos sejam removidos. Que a primavera espiritual que se aproxima seja um tempo assim para nós.
A Quaresma é marcada pelo perdão mútuo. Antes de começar, aprendemos a perdoar o nosso próximo. Depois que termina, a Páscoa nos aguarda — a celebração do perdão de Deus para conosco, seres humanos. A festa da expiação pelos nossos pecados, para a qual todo o período da Quaresma nos prepara. Ao entrarmos nela agora, lembremo-nos repetidamente das palavras do Senhor de hoje sobre o jejum, e que elas nos guiem nas próximas semanas da vida quaresmal:
“Quando jejuardes, não sejais como os hipócritas, com semblante triste. Porque eles desfiguram o rosto para que os homens vejam que estão jejuando. Em verdade vos digo que eles já receberam a sua recompensa. Mas tu, quando jejuares, unge a tua cabeça e lava o teu rosto, para que não pareça aos homens que estás jejuando, mas sim a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará publicamente” (Mateus 6:16-18).
Metropolita Ambrósio (Ermakov)
tradução de monja Rebeca (Pereira)








