Vi essa citação de Santo Sofrônio de Essex publicada ontem no Facebook. Ela fala ao âmago da nossa vida e ao mistério do pecado e do perdão. É um tema comum entre os Padres da Igreja:
“Muitos de nós não conseguimos, ou não queremos, aceitar e sofrer por nossa própria vontade as consequências do pecado original de Adão. ‘Adão e Eva comeram do fruto proibido, mas o que isso tem a ver comigo?’, protestamos. ‘Estou pronto para responder pelos meus próprios pecados, mas certamente não pelos pecados dos outros.’
E não percebemos que, ao reagirmos assim, estamos repetindo em nós mesmos o pecado de nosso ancestral Adão, tornando-o nosso pecado pessoal, o que nos leva à nossa própria queda. Adão negou a responsabilidade, atribuindo toda a culpa a Eva e a Deus, que lhe dera essa esposa; e, ao fazer isso, destruiu a unidade do Homem e sua comunhão com Deus. Portanto, cada vez que nos recusamos a assumir a culpa pelo nosso mal comum, pelas ações do nosso próximo, estamos repetindo o mesmo pecado e, da mesma forma, destruindo a unidade do Homem.
O Senhor questionou Adão antes de Eva, e devemos supor que se Adão, em vez de se justificar, tivesse assumido a responsabilidade pelo pecado conjunto deles, Se não fosse pelo pecado, os destinos do mundo poderiam ter sido diferentes, assim como mudarão agora se, em nossos dias, assumirmos o fardo das transgressões de nossos semelhantes.”
O pecado de Adão não é um problema legal. Adão está legalmente correto: “Eva fez isso primeiro e depois me deu para comer”. O sórdido pesadelo do pecado humano pode ser decomposto em seus componentes discretos e individuais. Mas isso nos leva às profundezas do problema: não amamos uns aos outros. Adão não viu Eva como uma dádiva legal quando Deus a apresentou a ele. “Esta é agora osso dos meus ossos e carne da minha carne!”, exclamou ele ao vê-la pela primeira vez. Essa é a essência do amor. Mas onde está o amor quando Adão se encontra diante de Deus contemplando seu próprio pecado?
O tempo da Grande Quaresma é um chamado ao verdadeiro arrependimento. Não se trata de um emaranhamento em nossos erros e fracassos particulares – é um movimento em direção à verdade de nossa existência, à plenitude do “Adão inteiro” (como São Siluan costumava chamá-lo). Nossa fragmentação e desintegração em nossos mundos particulares contradizem a intenção de Deus para o bem-estar da humanidade. Assim como a Trindade é um só Deus em três Pessoas, também nós somos uma só humanidade em multiplicidade de pessoas. A plenitude da nossa existência nunca se encontra em nós mesmos, mas na mútua presença de cada um em todos e de todos em cada. São Siluan disse: “Meu irmão é a minha vida”.
Cristo não Se separou de nós quando Se tornou o que somos. E assim, São Paulo nos diz: “…nós vos suplicamos em Nome de Cristo, reconciliai-vos com Deus. Porque Deus tornou pecado por nós Aquele que não tinha pecado, para que n´Ele nos tornássemos justiça de Deus.” (2 Coríntios 5:20-21)
Em Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, o Ancião Zósima serve como representante da tradição espiritual ortodoxa. Ele conta a história de seu irmão mais velho, Markel, que morreu jovem. Ao aceitar a morte, ele se reconciliou com Deus e adquiriu uma profunda compreensão da vida em comum com todos. Temos esta maravilhosa passagem:
As janelas do seu quarto davam para o jardim, e o nosso jardim era muito sombreado, com árvores antigas, os rebentos da primavera já desabrochavam nos ramos, os primeiros pássaros chegavam, tagarelando, cantando através das suas janelas. E de repente, olhando para eles e admirando-os, ele começou a pedir-lhes também perdão: “Pássaros de Deus, pássaros alegres, vocês também devem me perdoar, porque eu também pequei diante de vocês”. Nenhum de nós conseguia entender na altura, mas ele chorava de alegria: “Sim”, disse ele, “havia tanta glória de Deus à minha volta: pássaros, árvores, prados, céu, e só eu vivia em vergonha, só eu desonrava tudo e não percebia a beleza e a glória de tudo isso”. “Você assume pecados demais”, minha mãe costumava chorar. “Querida mãe, minha alegria, estou chorando de felicidade, não de tristeza; quero ser culpado diante deles, só que não consigo explicar isso a você, pois nem sei como amá-los. Deixe-me pecar diante de todos, contanto que todos me perdoem, e isso é o paraíso. Não estou no paraíso agora?”
Perdoe a todos por tudo e compartilhe o fardo dos pecados de todos. Se chegarmos a saber que somos verdadeiramente perdoados, estaremos no paraíso.
Por que estar em qualquer outro lugar?
Sacerdote Stephen Freeman
tradução de monja Rebeca (Pereira)








