A leitura do Evangelho da Paixão de Mateus coloca a mente diante de um paradoxo que, ao mesmo tempo, nos surpreende e assusta. Vemos um quadro onde tudo parece invertido sob a perspectiva da lógica humana.
Não foram pagãos hostis, pseudo-crentes indiferentes, ateus convictos, ou mesmo aqueles que nunca ouviram falar de Deus, que rejeitaram Cristo. Ele foi morto por aqueles que deveriam tê-Lo reconhecido primeiro como o Messias prometido. Os escribas e fariseus eram teólogos profissionais — pessoas que dedicavam suas vidas ao estudo da Lei e dos profetas. Toda a sua vida e trabalho eram preparativos para o encontro com o Messias. Mas, em vez da alegria do reconhecimento, nasceram a inveja e o ódio, e em vez da gratidão, o grito: Crucifica-O! (Lc 23,21). Estavam completamente convencidos de que estavam expondo e punindo um blasfemo e impostor.
Isso nos faz lembrar da severa advertência do apóstolo Paulo: O conhecimento envaidece, mas o amor edifica (1 Cor 8,1). Até mesmo o conhecimento das verdades divinas pode cegar você, se se tornar um fardo pesado e sem vida para o intelecto, um objeto de orgulho e não a vida do coração. Cria a ilusão de “possuir Deus”, bloqueando o caminho para o Deus Vivo e Verdadeiro. Somente uma coisa pode nos proteger dessa terrível cegueira espiritual: um coração humilde e contrito, do qual o santo profeta e salmista Rei David diz: “Um coração quebrantado e contrito, ó Deus, Tu não desprezarás” (Sl 50,19). Era precisamente esse tipo de coração que tinham os simples pescadores, publicanos e prostitutas que, sem sofisticação, foram atraídos para a Verdadeira Fonte da Vida, sentindo o Seu Amor.
Mas a ironia do Evangelho não termina aqui. A profundidade da queda humana é completamente revelada quando até mesmo esses discípulos ingênuos, testemunhas de todos os grandes milagres, de todos os sermões e promessas de Cristo, O abandonaram e fugiram (Mt 26,56) na hora do perigo. “Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho se dispersarão” (Mt 26:31) — estas são palavras proféticas do profeta Zacarias, repetidas por Cristo. Nem mesmo a comunicação pessoal com Deus garante fidelidade quando este Deus Se torna Prisioneiro e Vítima, e não Vitorioso.
E aqui, nesta escuridão profunda de cegueira espiritual, traição e apostasia, acontece algo incrível. Um milagre ocorre, maior que a cura de um paralítico ou a ressurreição de Lázaro. No momento de Sua extrema humilhação (kenosis) na Cruz, quando o Filho de Deus entrega Seu espírito em meio a intenso escárnio e ridículo da multidão ao redor, quando Ele morre e é aparentemente derrotado para sempre, é então que os olhos daqueles que estavam muito distantes d´Ele se abrem. Um centurião romano, um pagão que se certificava de que a execução fosse feita segundo a lei, confessa subitamente: “Verdadeiramente este era o Filho de Deus” (Mt 27:54). E um dos ladrões, que também morria em agonia, consegue ver o Rei no homem miserável ao seu lado, que estava todo ferido e desfigurado.
Por que eles, que não conheciam as Escrituras e não tinham visto milagres, puderam saber o que estava oculto aos sábios mestres e até mesmo aos discípulos mais próximos? Porque não viram Cristo pela força da lógica humana ou pela impressão externa. O Salvador estava pendurado na Cruz, e os sinais terríveis — trevas e um terremoto — eram mais assustadores do que convincentes. Somente aqueles que foram iluminados pelo próprio Espírito Santo puderam ver Deus em um homem humilhado e mutilado.
É fácil crer em Cristo como um Taumaturgo, Curador, Mestre, Profeta, Rei e Vitorioso que é Transformado e Ressuscitado. Nossa lógica “euclidiana”,¹ como Fiódor Dostoiévski a chamou, compreende a linguagem do poder e do sucesso. Mas crer em Cristo que é Crucificado, humilhado e fraco é contrário às ideias humanas.
Pois os judeus pedem sinais, e os gregos buscam sabedoria; nós, porém, pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gregos (1 Coríntios 1:22-23).
Este é o maior paradoxo do Evangelho e o milagre mais importante na vida de cada pessoa: reconhecer a Deus em Sua humildade, amá-Lo em Sua humilhação e confessá-Lo em Seu sofrimento e morte. Todos os milagres realizados pelo Senhor em Sua vida terrena nos conduziam a um único propósito: que, tendo visto Seu poder, pudéssemos um dia contemplar Seu amor estendido na cruz. Afinal, o poder de Cristo se aperfeiçoa na fraqueza (2 Coríntios 12:9).
Até mesmo o glorioso milagre da Ressurreição permanecerá para nós apenas um fato histórico distante, uma mensagem infrutífera, a menos que, na quietude de nossos corações, nos voltemos para Ele, Crucificado, com a súplica ousada, penitente e simples do bom ladrão: Senhor, lembra-Te de mim quando entrares no Teu Reino (Lc 23:42).
Sacerdote Tarasiy Borozenets
tradução de monja Rebeca (Pereira)







