O PAPEL DOS SACRAMENTOS E DO ASCETISMO NA ESPIRITUALIDADE ORTODOXA – PARTE 2

É característica a maneira pela qual novos membros eram recebidos, conforme determinado pelo Segundo Concílio Ecumênico.

De acordo com este decreto, no primeiro dia eles são chamados de cristãos, com uma oração lida, pertinente à ocasião. No segundo dia, são classificados como Catecúmenos; no terceiro, são feitas leituras de exorcismos, e os Catecúmenos são instruídos na fé. Depois disso, são aconselhados a permanecer na Igreja para ouvir as Sagradas Escrituras; e, por fim, são batizados.

O decreto acima, visto em comparação com os ensinamentos dos santos Padres e a prática da Igreja, afirma que a Catequese não é simplesmente uma iniciação teórica nos assuntos da fé, mas um ato litúrgico completo e um método de cura. Nos ensinamentos sobre a fé de São Cirilo de Jerusalém, os Catecúmenos são orientados a se confessar antes do Batismo. Ele então os exorta a participar dos exorcismos, que eram lidos continuamente. Finalmente, ele os admoesta a participar do ensino da fé. E, por meio de todos esses meios, eles devem ser capazes de purificar seus corações.

O período de Catequese durava de um a três anos. No entanto, poderia ser reduzido dependendo das circunstâncias particulares.

Após o Batismo, seguia-se a prática ascética, significando que os cristãos deveriam aplicar a vontade de Deus em suas vidas, como mencionado anteriormente. Além disso, se houvesse cristãos batizados que caíssem em pecados graves — demonstrando que não eram membros vivos da Igreja —, eles, de fato, retornariam à condição de Catecúmenos. Certamente, o mistério do Batismo não seria realizado novamente, mas a etapa do arrependimento teria que ser repetida. De modo geral, a Igreja definiu quatro estágios de penitência.

No primeiro estágio, estavam aqueles que ficavam fora do templo pedindo misericórdia. No segundo estágio, eles permaneciam na igreja, assistindo à Divina Liturgia até as leituras das Escrituras, e depois saíam juntamente com os Catecúmenos. O terceiro estágio incluía aqueles que acompanhavam toda a Divina Liturgia de joelhos. O penitente do quarto estágio ficava até o final da Divina Liturgia, junto com os fiéis, mas não tomava a Comunhão. Finalmente, após ter passado por todas essas etapas sucessivamente, o penitente podia participar dos Mistérios imaculados; do Corpo e Sangue de Cristo. Essa descrição passo a passo está registrada nos Cânones de São Basílio, o Grande.

Esse procedimento é enfatizado nos Cânones da Igreja, porque o pecado é considerado uma doença e uma queda da comunhão com Deus. É, antes de tudo, o escurecimento do nous, e, consequentemente, o arrependimento é a cura e a iluminação do nous. Quando São Basílio, o Grande, designa um determinado período de abstinência da santa Comunhão, ele o faz para a cura da pessoa “doente”. Por isso, ele enfatiza de maneira epigramática: “A cura não depende do tempo que passa, mas sim da maneira de se arrepender”. De qualquer forma, é evidente que a prática ascética é necessária tanto antes quanto depois do batismo.

O mesmo se aplica à santa Comunhão, à participação nos Santos Dons.

A luta espiritual e a ascese são necessárias antes da santa Comunhão. São Nicolau Cabasilas destaca o esforço que precede a santa Comunhão, quando comenta sobre as palavras de Cristo: “Não trabalheis pela comida que perece, mas pela comida que perdura para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará” (João 6, 27) e as palavras do apóstolo Paulo “se alguém não quiser trabalhar, também não coma” (1 Ts 3, 10)39. Se precisamos trabalhar arduamente para ganhar a “comida que perece”, quanto mais para a comunhão divina. Cristo, através dos sacramentos, torna-se nosso aliado. Um aliado não ajuda os preguiçosos e desanimados, mas os fortes e audaciosos, que enfrentam o oponente com bravura e habilidade. No entanto, mesmo após a santa Comunhão, precisamos da prática ascética para preservar a graça divina recebida através dos sacramentos. Ler cuidadosamente as orações após a santa Comunhão revela isso. O servo fiel ora a Deus por arrependimento, lágrimas e força, para que ele permaneça um verdadeiro membro de Cristo. Ele também implora à Mãe de Deus que interceda por seu Filho, pedindo contrição e compunção de coração.

Consequentemente, a vida ascética é necessária antes e depois da comunhão divina. A graça de Deus recebida através da participação no Corpo e Sangue de Cristo age de acordo com o estado espiritual de uma pessoa. Se a pessoa se encontra no estágio de purificação, a graça divina a purifica; se no estado de iluminação, ela a ilumina; e a deifica ainda mais, quando se aproxima da deificação (teose). Assim, a santa Comunhão torna-se purificação, iluminação e teose. No entanto, quando uma pessoa não está arrependida ou mesmo no processo de purificação, a santa Comunhão torna-se fogo e condenação; seus efeitos atormentam.

Em conclusão, a importância de combinar os Sacramentos e a prática ascética é manifesta em toda a tradição da Igreja. Sua separação cria equívocos e distorções da vida espiritual, o que é contrário à espiritualidade ortodoxa.

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1 Cf. acima São Nicolau Cabasilas, Vol. 22, p. 452-454.

Metropolita Hierotheos (Vlachos) de Nafpaktos
tradução do Sub-Diácono Gregório (Siqueira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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