A espiritualidade ortodoxa é centrada em Cristo e na Igreja. Isso significa que o homem é santificado e salvo através do Homem-Deus Cristo, vivendo dentro da Igreja, que é o Corpo abençoado de Cristo. Cristo não existe fora da Santíssima Trindade e fora da Igreja. Por essa razão, vivendo dentro da Igreja, que é um hospital e uma enfermaria, podemos ser curados.
A participação da graça incriada de Deus e a experimentação da vida eclesial são realizadas por meio dos Sacramentos e da prática ascética. Através dos Sacramentos, a graça e a energia incriadas de Deus entram em nosso coração; através da prática ascética, por um lado, preparamos o caminho para que a graça de Deus atue terapeuticamente e “redentoramente” dentro do coração; por outro lado, salvaguardamos a graça divina que recebemos através dos sacramentos.
São Nicolau Cabasilas, em seu livro Sobre a vida em Cristo, analisa abundantemente que o renascimento de uma pessoa se realiza nos Santos Mistérios; no entanto, nossa cooperação (sinergia) também é necessária. A energia de Deus é oferecida através dos mistérios: o Batismo dá ao homem a sua identidade com e hipóstase em Cristo; a Crisma aperfeiçoa o recém-nascido, dando-lha direcionamento interno; a Santa Eucaristia mantém e conserva a nova existência que o homem recebeu 1.
Se a energia de Deus é oferecida através dos Sacramentos, a sinergia — a resposta a esse grande dom — depende de nossa própria disposição e indulgência. Assim, Deus opera e o homem coopera. Nosso próprio esforço ascético é, portanto, necessário para preservar a graça divina. Cabasilas também se refere a esse assunto em um dos capítulos, intitulado “Como a graça recebida através dos Sacramentos é preservada”.
A importância dos Sacramentos, por meio dos quais recebemos a graça divina, é, portanto, muito grande. Nicolau Cabasilas diz que o “Sol da justiça” entra em nosso mundo obscurecido, como se fosse através de uma pequena janela; Ele revigora este mundo e o mundo além. Todos os Santos de nossa Igreja se referem a essa colaboração entre os Sacramentos e a prática ascética. Gostaria, no entanto, de me referir mais extensivamente aos escritos de São Gregório Palamas 2.
Em primeiro lugar, São Gregório enfatiza que os Mistérios (mystiria em grego) são chamados assim porque são espirituais e ocultos, e não simplesmente algo a ser percebido externamente. Assim, quando alguém se aproxima dos Sacramentos, deve focar não apenas no que é visto exteriormente, mas também no que é visualizado internamente — no nível espiritual.
Para continuar, São Gregório afirma que o Batismo não é suficiente; é necessário observar os mandamentos de Deus, em outras palavras, praticar a vida ascética. A vida ascética, porém, não é exclusiva dos monges, mas é a observância dos mandamentos de Deus por todos os seguidores de Cristo. Nosso esforço para colocar em prática os mandamentos de Deus constitui o ascetismo em Cristo 3. Após Sua ressurreição, Cristo disse aos Seus discípulos: “Ide, portanto, e ensinai todas as nações, batizando-as em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ensinando-as a observar todas as coisas que vos tenho mandado” (Mateus 28, 19-20). É por isso que São Gregório enfatiza que o Batismo não é suficiente para tornar o homem um discípulo do Evangelho; é também necessário guardar os mandamentos de Cristo.
São Gregório Palamas é um teólogo e Pai universal (católico) da Igreja. Além disso, todos os Padres da Igreja são católicos, no sentido de que não adotam pontos de vista unilaterais ou posições autônomas. Eles não exageram uma parte da verdade em detrimento de outra, mas mantêm um equilíbrio espiritual, precisamente porque foram renovados pelo Espírito Santo. A catolicidade de São Gregório se manifesta em sua posição sobre duas afirmações heréticas de sua época, relativas aos sacramentos e ao ascetismo, que distorciam a vida espiritual.
A primeira afirmação foi expressa pelos Massalianos, hereges antigos cujas ideias foram revividas durante o tempo de São Gregório. De acordo com seu ensinamento, os sacramentos da Igreja — o santo Batismo e a divina Eucaristia — não têm tanta importância para a salvação do homem. Eles afirmavam que o que une a pessoa com Deus é a chamada oração noética. É a oração que purifica o homem e realiza sua deificação (teose) — não a vida sacramental.
A segunda afirmação herética vem, principalmente, do Cristianismo ocidental, conforme expressou o filósofo Barlaão na época de Palamas. Barlaão, com quem São Gregório estava em diálogo, enfatizava muito a vida sacramental da Igreja em detrimento da vida hesicasta. Ele desprezava o hesicasmo e tudo o que tinha a ver com a oração noética. Para Barlaão, a participação nos santos Sacramentos da Igreja era o ato supremo. Barlaão também falava sobre oração, mas de forma abstrata e reflexiva. Além disso, ele enfatizava que a graça de Deus é criada e que a contemplação [theoria] de Deus é a visão da luz criada [isto é, de um objeto criado por Deus, e não do próprio Deus]. De modo geral, ele desdenhava e falava zombando da tradição hesicasta da Igreja, que é o próprio fundamento de todos os dogmas e a vida compartilhada de todos os Padres.
São Gregório Palamas empreendeu uma luta semelhante contra ambas as afirmações heréticas. Ele manteve, assim como a Igreja, que a ênfase excessiva sobre uma das afirmações e a desvalorização da outra, no que diz respeito à verdade, constitui uma divergência da vida ortodoxa e, consequentemente, afasta o homem da salvação. Ele ressaltou que, para que uma pessoa seja curada (e, consequentemente, para que seja salva), é necessário uma combinação tanto da vida sacramental quanto da vida ascética. O modo de vida hesicasta não pode ser pensado fora da vida sacramental da Igreja.
Assim, de acordo com o Santo Hagiorita, a terapia da alma é alcançada tanto pela vida sacramental quanto pela vida hesicasta. Fora dessa combinação, é impossível que a vida ortodoxa e a teologia ortodoxa existam. Em muitas de suas homilias, São Gregório se refere à grande importância dos Sacramentos da Igreja. Em uma dessas homilias, ele ensina que Cristo santifica a hipóstase do homem e concede o perdão dos pecados “através do divino Batismo, da observância de Seus mandamentos, do arrependimento que Ele concede aos pecadores; e através da transmissão de Sua carne e sangue”. São esses dois Sacramentos básicos da Igreja — o Batismo e a Santa Comunhão — juntamente com a observância dos mandamentos de Cristo, que proporcionam o perdão dos pecados e santificam o homem. Através do Santo Batismo, Cristo Se torna o Pai da humanidade, e através da Divina Comunhão, Ele Se torna sua Mãe. São Gregório utiliza uma analogia, dizendo que Cristo “nos alimenta como uma mãe amorosa amamenta seu filho”. Ele leva a analogia adiante, dizendo que os dois “seios nutridores” (da Igreja e de Cristo) são o Santo Batismo e a Santa Comunhão, os dois Sacramentos mais essenciais.
Em outra de suas homilias, São Gregório Palamas se refere novamente ao poder desses dois Sacramentos, explicando que Cristo assumiu uma natureza humana e, portanto, assim como nós, Ele tinha uma alma e um corpo. Ele sofreu pelas paixões, morte e sepultamento, e depois foi ressuscitado dos mortos; e dessa maneira, Ele tornou possível para nós participar do sacrifício incruento e desfrutar de nossa salvação. Através da descida da alma ao Hades e seu retorno, Cristo comunica luz e vida eternas; e, como um sinal disso, Ele nos deu o Santo Batismo 4.
A alma e o corpo são santificados por esses dois Sacramentos; nossa salvação depende deles. É óbvio, portanto, que São Gregório Palamas vê a salvação de uma pessoa como dependente da participação nos santos Sacramentos da Igreja. Ele não subestima sua importância, como faziam os Massalianos, mas os considera como o centro da vida espiritual. Ele analisa cada um dos sacramentos de forma extensa em muitas de suas homilias.
No entanto, São Gregório não para aqui, com ênfase apenas no valor dos sacramentos da Igreja. Como foi apontado anteriormente, a participação nos sacramentos deve ser combinada com a prática da vida ascética da Igreja. Caso contrário, a graça transmitida através dos sacramentos não contribui para a salvação ou cura de alguém, mas sim para seu castigo. Por essa razão, Palamas também se refere à vida hesicasta em conjunto com seu ensinamento sobre os sacramentos.
A graça é concedida gratuitamente através dos sacramentos àqueles que se prepararam adequadamente. Somos, em última instância, indignos desse presente, mas Ele nos tornou dignos “a partir da indignidade”. É necessário, porém, que cooperemos oferecendo nosso arrependimento 5.
São Gregório utiliza exemplos do Antigo Testamento para enfatizar esta verdade. Na sua jornada até a terra prometida, os hebreus foram tentados por maus desejos, e assim as “formas de sacramentos dadas a eles” não os beneficiaram. Deus os abandonou e eles não entraram na terra prometida. Exatamente o mesmo acontecerá com os cristãos. O Batismo e os outros Sacramentos não os livrarão da condenação eterna, se viverem sem se arrepender e não observarem os mandamentos divinos.
Em outra passagem, ele diz que o Espírito Santo, sendo de igual poder com o Pai e o Filho, livremente “voa para e para longe” (ou seja, em um ato de livre vontade). Em outras palavras, Ele permanece com os pecadores arrependidos, mas foge dos impenitentes, como aconteceu precisamente com Saul, que perdeu a graça de Deus. Por isso, aquele que participa dos sacramentos deve viver em estado de arrependimento 6.
Como descrito por São Gregório, a ascese consiste em viver a vida hesicasta, que é o caminho para a terapia da pessoa. Apresentando a Mãe de Deus como o modelo de hesicasta, o Santo analisa extensivamente que o objetivo do homem é alcançar a deificação (theosis), ou seja, a comunhão e união com Deus. Isso é realizado através do esforço para mortificar sua razão, seus sentidos, sua imaginação e sua vanglória, concentrando seu nous dentro do coração, e, por meio do coração, elevando seu nous em direção a Deus. Assim, o Santo Batismo torna a pessoa semelhante a “um recém-nascido”, agraciado com uma sabedoria latente, que deve posteriormente ser atualizada. O homem regenerado pelo Santo Batismo recebeu o poder de se tornar “participante” da glória de Deus, mas somente se viver verdadeiramente essa nova vida e cumprir o Evangelho de Cristo.
O que foi discutido até agora demonstrou claramente que a prática simultânea dos sacramentos e da ascese é indispensável. Essa não é apenas a doutrina de São Nicolau Cabasilas e de São Gregório Palamas, mas também a Tradição da Igreja Ortodoxa. Uma espiritualidade que não se baseia nesse fundamento não é ortodoxa. Além disso, através dos Sacramentos, a graça divina é concedida de acordo com a disposição de nossas almas. Assim, uma pessoa pode ser purificada pela graça divina, outra pode ser iluminada, enquanto outra pode ser deificada. Por causa desses ensinamentos, um cristão ortodoxo tem plena consciência do vínculo entre os sacramentos e os estágios da vida espiritual; essa união demonstra a estreita relação entre os Sacramentos e a prática ascética.
A Tradição da Igreja é muito explícita nesse ponto. Seguem dois exemplos: o primeiro, “o Batismo e a ascese”, e o segundo, “a Divina Eucaristia e ascese”.
Na Igreja antiga, um período preparatório inteiro precedia a cerimônia do Batismo, para que os catecúmenos pudessem se aproximar deste “primeiro dos Mistérios” da maneira mais digna possível. Como pode ser observado na tradição litúrgica e nos escritos dos santos Padres, havia duas classes de catecúmenos. A primeira era a classe dos “avançados”. Nela pertenciam aqueles que já haviam recebido a fé, mas ainda não tinham sido batizados. Eles participavam parcialmente das orações da Igreja, após receberem a bênção do sacerdote. A segunda classe era composta por aqueles que ainda não estavam plenamente preparados — os observadores. Estes permaneciam no nártex da Igreja até a leitura das Escrituras e, então, precisavam sair do templo. Em alguns casos, a primeira categoria de catecúmenos poderia ser rebaixada para a segunda, caso alguma ação fosse considerada transgressora. Assim, o cuidado pastoral para com os Catecúmenos era bastante minucioso. A Igreja era muito zelosa nesse ponto.
__________________________
1 Cf. São Nicolau Cabasilas, A Filocalia dos Padres Népticos e Ascéticos (em grego), ed. Gregório Palamas, Tessalônica 17, Vol. 22, p. 278-288.
2 Cf. São Gregório Palamas, Padres Gregos da Igreja (em grego, E.P.E.), Tessalônica, 1986, Vol. 11, p. 406.
3 Cf. São Gregório Palamas, Padres Gregos da Igreja (em grego, E.P.E.), Tessalônica, 1986, Vol. 10, p. 476.
4 Cf. São Gregório Palamas, Padres Gregos da Igreja (em grego, E.P.E.), Tessalônica, 1986, Vol. 11, p. 444.
5 Cf. São Gregório Palamas, Padres Gregos da Igreja (em grego, E.P.E.), Tessalônica, 1986, Vol. 11, p. 406.
6 Cf. São Gregório Palamas, Padres Gregos da Igreja (em grego, E.P.E.), Tessalônica, 1986, Vol. 10, p. 482.
Metropolita Hierothoes (Vlachos) de Nafpaktos
tradução do Sub-Diácono Gregório Siqueira








