O MUNDO COSTUMA CHAMAR ESSA LEALDADE DE LOUCURA

Hoje é o último dia do ano. Quase todos nós nos encontramos no mesmo ponto: olhando para trás, fazendo planos, resumindo e nos dando conta da estranha sensação de que o ano passou voando. E essa sensação não é uma falha de memória. O Ano Novo, sem metáforas, demonstra algo simples: o tempo não “passa”, ele “corre”. Ontem foi o começo, e hoje é a linha final de um novo capítulo. Isso não é motivo para temer. É motivo para despertar.

Há dias que se tornam uma lição em si mesmos. O dia 31 de dezembro é um deles. É como se estivéssemos no limiar de uma nova porta e víssemos dois cômodos ao mesmo tempo: em um, o passado permanece; no outro, a luz ainda incerta do futuro. E nesta data, a Igreja recorda o santo mártir Tadeu (Uspensky), Arcebispo de Tver, um homem que conheceu o valor do tempo não pela sabedoria livresca ou por aforismos filosóficos, mas pelas experiências vividas em colônias penais, pelo frio, pela fome, pelos interrogatórios e pela proximidade da morte. Quando a liberdade externa de uma pessoa é tirada, torna-se surpreendentemente claro que o que permanece mais importante é o que está dentro dela. Para ele, Cristo era o mais importante. Nem as trevas, nem o julgamento, nem a crueldade humana puderam separá-lo do amor de Deus. O mundo muitas vezes chama essa fidelidade de loucura. A Igreja sabe que este é o início da vitória.

E eis a pergunta que naturalmente nos fazemos ao final do ano: o que exatamente quero levar comigo deste ponto de virada? Não uma lista de conquistas — essa ficará no antigo cômodo. Nem uma coleção de preocupações — que, infelizmente, também é facilmente transferida para um novo lugar e tempo; carregamos tudo conosco. Mas o que realmente tem peso e significado?

Penso que em dias como este, é útil lembrar três palavras simples. Elas não se referem a humor ou pertencimento a uma tradição. São verbos. Ou seja, ação.

Agradeço. Arrependo-me. Confio em Deus.

Sou grato por toda a bondade que recebi neste último ano. Pelo ar que respiro, pelas pessoas ao meu redor, pela oportunidade de amar e sentir em geral. Pelas alegrias e pelas lágrimas que, às vezes, purificam mais do que qualquer discussão. Por cada dia em que tive um compromisso, alguém para ligar, alguém para abraçar, alguém por quem orar. Pelo dom da vida. Muitas vezes nos acostumamos a um dom como se fosse um direito nosso.

Confesso que desperdicei muito desse dom. Não necessariamente em grandes atrocidades, mas com mais frequência em coisas insignificantes e banais: palavras vazias, leitura e visualização intermináveis ​​de conteúdo desnecessário, alimentando meus medos, buscando auto-justificação, o hábito de dizer a Deus, aos meus vizinhos e à minha própria consciência: “Agora não, depois, amanhã”. No final do ano, fica especialmente claro quanto tempo escapou por entre meus dedos. E, ainda mais importante, quantas vezes a indiferença feriu aqueles ao meu redor? Arrependimento não é autoflagelação. É um retorno honesto à verdade.

Confio em Deus para o que virá a seguir. O futuro é assustador justamente por ser desconhecido. Queremos garantias, um cronograma claro, controle. Mas nos é dado um caminho. Se o Senhor vai à nossa frente, então nem mesmo os tempos sombrios anulam a luz. O futuro com Deus permanece brilhante não porque tudo ao nosso redor se torna confortável, mas porque um Guia aparece dentro de nós, que nos conduz com Seu amor.

E, no entanto, no final do ano, é útil se fazer uma pergunta simples, sem drama, mas com sobriedade. Se a última frase se revelasse não uma metáfora, mas a realidade de hoje, como eu a encararia? Com ​​planos, trabalho, economias, conquistas? Tudo isso ficará aqui. Existe algo em minhas mãos que não seja inútil perante o Juiz imparcial? Minha vida foi marcada por fé, misericórdia, fidelidade e bondade suficientes? Não em termos gerais, mas em ações concretas.

O fim do ano é um pequeno ensaio para o momento em que os relógios finalmente silenciarão. Então, não ouviremos os badaladas do relógio, mas a voz do Senhor. Bem-aventurado aquele para quem essa voz não é distante e estranha, mas a voz d´Aquele Que Está Perto, d´Aquele por Quem a pessoa sempre soube e, mesmo que às vezes imperceptivelmente, esperou.

Foi assim que o santo mártir Tadeu, arcebispo de Tver, ouviu a notícia há oitenta e oito anos, em 31 de dezembro — torturado e assassinado em uma prisão da NKVD perto do que hoje é a Praça Gagarin, na nevada cidade de Tver. O que é aterrador em seu destino não é apenas a violência em si, mas também a facilidade com que uma pequena parcela de poder pode transformar um homem endurecido em um agente do mal. A memória dos novos mártires não é uma incursão nas trevas do passado recente. É uma vacina contra as nossas próprias trevas interiores.

Que o nome do Senhor seja bendito neste dia que passa e no dia que ainda virá.

Metropolita Ambrósio (Ermakov)
tradução de monja Rebeca (Pereira)


* O NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos) foi a agência governamental central da URSS, que existiu de 1934 a 1946 e era responsável por manter a ordem pública, combater o crime e garantir a segurança do Estado, incluindo investigação política, inteligência e a gestão de campos de trabalhos forçados.


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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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