Vivemos em uma época em que a vida monástica não só é considerada anormal, como também é ridicularizada e condenada. Até mesmo aqueles que professam ensinar a palavra de Deus, especialmente dentro do Cristianismo Protestante, condenam cinicamente a vida monástica como inútil, isolacionista, anormal e incompatível com os ensinamentos de Cristo. Ensinam que aqueles que entram em monastérios e conventos certamente não são os cristãos ideais.
A História Inicial
A história testemunha que a vida ascética, a vida monástica, existe na Igreja desde o princípio. Mesmo antes de a Igreja ser estabelecida na Terra, uma voz clamava do deserto para preparar o caminho do Senhor. Essa voz pertencia a São João Batista. Não é incorreto considerá-lo também o precursor do monasticismo na vida da Igreja. Pois São João preparou o caminho para um Rei cujo Reino não é deste mundo. Monastérios e conventos, mais do que qualquer outra coisa, são testemunhas vívidas desse Reino vindouro.
São João deixou sua casa e seu povo ainda jovem e foi viver no deserto (Isaías 40:3, Malaquias 4:5). Ele foi viver como um asceta. Permaneceu lá por vários anos, vivendo como eremita. Durante esse período, orou incessantemente, dedicando todo o seu ser a Deus. Quando chegou a hora de cumprir sua maior missão, ele retornou à sociedade para preparar o caminho para o Rei. Começou chamando as pessoas ao arrependimento e proclamando que o Reino estava próximo. Depois de batizar Jesus no Jordão, sua missão foi concluída e, a partir desse momento, Jesus assumiu a mensagem: “Arrependam-se, porque o Reino dos Céus está próximo”.
Nosso Senhor Jesus fala de pessoas que negam a si mesmas tudo na vida, inclusive a comunhão do matrimônio, para alcançar o Reino dos Céus. No Evangelho de São Mateus, onde os discípulos de nosso Senhor afirmam que não se deve casar, pois o casamento implica perder o Reino de Deus, o Senhor responde: “Nem todos podem aceitar este preceito, mas apenas aqueles a quem é dado. Há eunucos que nasceram assim, outros que foram feitos eunucos por homens e outros que se fizeram eunucos por causa do Reino dos Céus” (Mt 19,10-12).
Nesta conversa com nosso Senhor sobre eunucos, podemos ver facilmente que Ele Se refere a três tipos de pessoas: aquelas que nascem para o celibato, aquelas que são levadas ao celibato e aquelas que escolhem viver como celibatárias. Estamos interessados aqui em dois tipos: os que nascem para o celibato e os que escolhem o celibato. Ao refletirmos sobre as palavras de nosso Senhor, devemos concluir que a ideia, compartilhada por muitas pessoas, de que todos devem se casar ou viver com alguém do sexo oposto por ser natural, é uma afirmação artificial.
São Paulo, como sabemos, não era casado. Aliás, em sua primeira Epístola aos Coríntios (1 Coríntios 9:5), ele diz: “Não temos nós o direito de sermos acompanhados por uma esposa, como os outros apóstolos, os irmãos do Senhor e Cefas?” No entanto, na mesma carta, ele diz: “É bom para o homem não tocar em mulher… Eu gostaria que todos fossem como eu. Mas cada um tem o seu próprio dom especial da parte de Deus; um de um tipo e outro de outro… Aos solteiros e às viúvas digo que é bom para eles permanecerem solteiros, como eu” (1 Coríntios 7:1-40).
Com base nessas palavras do Novo Testamento, não deve haver dúvida de que o celibato e, consequentemente, a vida monástica são ordenados e abençoados por Deus. Os primeiros cristãos sabiam disso e consideravam aqueles que viviam a vida ascética no deserto como homens celestiais ou anjos terrenos. Santo Antão do Egito foi um desses homens. Na Igreja Ortodoxa, ele é reconhecido como o pai do monasticismo. Ele nasceu no ano de 251 d.C. e faleceu 105 anos depois. Durante sua vida, influenciou muitas pessoas a seguirem a Cristo através da vida ascética. Desde então, o monasticismo ortodoxo tem continuado ininterruptamente até os dias de hoje. O asceta que deu um sistema à vida monástica foi São Basílio, o Grande. Ele nasceu durante a vida de Santo Antão, em 329 d.C., e iniciou sua própria vida ascética após sua educação em Constantinopla e Atenas. Viveu como monge na região do Ponto, na Ásia Menor, onde sua mãe e sua irmã já viviam como monjas.
Abençoados por Deus
Se a vida monástica é abençoada por Deus, ela deve ter um propósito e um objetivo definidos, tanto para o monge quanto para o mundo. Em relação ao monge e à monja, podemos usar como premissa básica ou fundamento as palavras de nosso Senhor quando Ele diz: “Se vocês fossem do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, porém, vocês não são do mundo, é por isso que o mundo os odeia” (João 15:19). Em relação ao mundo, somos lembrados pelo Senhor, tanto no capítulo doze quanto no dezesseis do Evangelho de São João, de que o príncipe deste mundo é Satanás. Portanto, monges, monjas e monastérios nos lembram que o povo de Deus não é deste mundo e que o mundo está sob a influência, senão o controle, de Satanás. Somos lembrados de que não podemos amar a Deus e a Mamom. Não podemos ter dois senhores ao mesmo tempo. A vida monástica é um forte lembrete de que nosso propósito nesta vida deve estar interligado com a vida que está por vir, o futuro, a vida eterna que Cristo promete.
Os homens e mulheres que ingressam na vida monástica são lembretes de Deus para nós de que não podemos nos preocupar apenas com esta vida e com as coisas que a ela se relacionam. Quantas vezes ouvimos homens ortodoxos idosos, extremamente bem-sucedidos no mundo dos negócios e que raramente encontravam tempo para qualquer outra coisa em suas vidas, dizerem: “Eu realmente não sei se existe vida após esta”? O tempo que lhes resta neste mundo é muito curto. No entanto, eles não têm sequer uma vaga ideia de vida após a morte. Sem dúvida, muitos de nós, de vez em quando, podemos colocar certos membros dos conselhos paroquiais na mesma categoria do empresário bem-sucedido que não fez provisões em sua vida para o desenvolvimento de sua fé. Pois vemos esses membros do conselho tão ocupados em pagar as hipotecas da paróquia, aumentar o dinheiro no tesouro ou até mesmo tentar investir o dinheiro da igreja, tudo isso e muito mais em busca de segurança e estabilidade material, que nunca parecem encontrar tempo para assistir a uma Divina Liturgia do início ao fim. Quase nos faz sentir que a igreja é mais uma corporação terrena do que a Arca da salvação colocada na Terra por Deus. Os monges e os monastérios, espera-se, sejam lembretes do propósito da Igreja na Terra.
Aquele que se torna monge ou monja acredita que deve dar as costas ao que o mundo representa. Ele pode então concentrar-se totalmente em Deus e no que Deus representa. Um monge e uma monja buscam encontrar a verdadeira vida, o mundo real que nosso Senhor descreve. Eles buscam unir-se ao seu verdadeiro Pai e vislumbrar sua verdadeira pátria. Buscam a verdadeira liberdade que somente Deus pode dar.
O monge sabe que, para descobrir quem ele é, seu verdadeiro eu, para experimentar a verdadeira liberdade, ele deve retornar ao Pai nessa união mística que transcende a compreensão humana. Ele percebe que a liberdade que o Filho Pródigo pensava ter quando deixou seu pai era, na verdade, escravidão, e que a verdadeira liberdade só existe com Deus. É por isso que o monge busca encontrar Deus dentro de si. Se ele foi feito à imagem de Deus, então ele deve reconhecer Deus dentro de si. Ele deve encontrar seu direito de primogenitura impresso em sua própria alma e saber que pertence a Cristo, que morreu por ele.
Século XX
Nós, da nossa geração, temos visto tantas manifestações ao nosso redor, grupos e indivíduos afirmando o que acreditam ser e exigindo a liberdade de viver dessa maneira. Eles acreditam que, se tivessem o direito à igualdade em todas as coisas, independentemente de suas qualificações ou se seu gênero o permitisse, se pudessem praticar seu modo de vida não natural sem impedimentos, se pudessem transformar privilégios em direitos, então teriam conquistado a verdadeira liberdade. Infelizmente, não há monges por perto para lhes dizer que tudo isso é um truque de Satanás, o mesmo truque que ele usou com Adão e Eva quando lhes disse: “Não, vocês não morrerão; pelo contrário, se comerem do fruto proibido, serão iguais a Deus”. Um monge consegue facilmente perceber a artimanha de Satanás quando se trata do desejo de igualdade e liberdade.
É por isso que o monasticismo é um enigma e uma ironia para a mentalidade do século XX. As pessoas o veem como submisso, altamente disciplinado e com total perda de liberdade. Um monge e uma monja o veem como iluminador, espiritualmente crescente e a conquista suprema da verdadeira liberdade, que somente a alma pode experimentar.
Existem três regras básicas no monasticismo ortodoxo. A primeira é a obediência, a segunda é a castidade ou virgindade e a terceira é a não aquisição ou pobreza. Embora um monge deva praticar essas três regras básicas em todos os momentos, cada uma pode ser vista como um símbolo dos três sistemas de vida monástica: o cenobítico, o idiorrítmico e o eremítico. Antes de abordarmos as três regras básicas, vamos examinar brevemente os três sistemas de vida monástica.
A maioria das pessoas compreende o monasticismo através deste primeiro sistema, chamado vida cenobítica. Os monastérios cenobíticos são aqueles administrados por um abade. Sob sua orientação, o mosteiro opera com regras específicas e horários diários. Cada monge tem suas tarefas ou obrigações a cumprir, além de participar dos serviços e ofícios prescritos. Um mosteiro idiorrítmico é aquele constituído por um conjunto de casas onde os monges vivem em pequenos grupos, cada grupo em sua própria casa, em vez de individualmente em celas como no cenobítico. Nos mosteiros idiorrítmicos não existe um abade propriamente dito; cada casa tem um monge sênior que é visto como a força guia do grupo. O terceiro sistema, o eremítico, é o estilo de vida que o monge impõe a si mesmo. Ele vive sozinho em uma cabana ou caverna e desce ao mosteiro sempre que participa da Divina Liturgia para receber a Sagrada Comunhão ou para obter provisões básicas de alimentos. Em todos os três sistemas, a obediência voluntária, a castidade e a pobreza são praticadas em todos os momentos.
No monasticismo ortodoxo, a obediência é a primeira e mais importante regra. No entanto, ela deve ser voluntária. Se um monge ou uma monja vive em obediência voluntária, ele ou ela experimenta mais e maior liberdade do que uma pessoa na sociedade que deve viver de acordo com as regras da sociedade, quer queira ou não. O monge nunca deve acreditar que sua obediência lhe foi imposta; pois foi ele quem tomou a decisão de viver a vida monástica. Ele deve desejar isso; deve acreditar que está fazendo isso voluntariamente. Caso contrário, não tem o direito de se tornar monge. Um monge deve ter em mente a mesma obediência voluntária que Jesus demonstrou à Sua Mãe, a Sempre Virgem Maria, e a José, como São Lucas registra em seu evangelho (Lucas 2:51). Nesse aspecto, um monge nega a si mesmo; nega os caprichos e os desejos do seu ego e torna-se servo de Cristo. Pois ele sabe que somente assim encontrará seu verdadeiro eu, sua verdadeira identidade e sua verdadeira liberdade.
Um monge ortodoxo não pode ser casado, pois ingressou na vida angélica na Terra. Sabemos que a vida angélica está em um plano superior ao da vida conjugal. Portanto, é preciso abandonar a vida conjugal se desejar a vida monástica. Isso significa que qualquer pessoa, homem ou mulher, pode ingressar na vida monástica. Além das pessoas que nunca se casaram, homens e mulheres que ficaram viúvos ou que, por mútuo acordo, decidem ingressar na vida enclausurada de um monastério, podem fazê-lo.
Se uma pessoa é virgem, melhor ainda. Mas se não for, então, como monge, segue a segunda regra do monasticismo, que é a castidade. O virgem também aceita essa segunda regra, que para ele é chamada de virgindade. Contudo, se um virgem pecou mentalmente ao imaginar-se envolvido em relações conjugais, então deixa de ser virgem e, a partir de então, deve continuar a praticar a regra da castidade, e não da virgindade.
O Monasticismo como Casamento
A razão para essas interpretações e tecnicismos em relação à virgindade e às relações sexuais reside no fato de que o casamento e o exercício das paixões se enquadram em categorias diferentes desde o alvorecer da história humana até os dias atuais. Em outras palavras, desde o início da existência do homem neste planeta até o estabelecimento do Cristianismo, houve uma evolução na instituição do casamento, com o judaísmo e o Cristianismo. Começando com Adão, lemos em Gênesis que de seu próprio ventre nasceu a primeira mulher. Deus abençoou essa primeira união, que, por assim dizer, foi entre o homem e Ele mesmo. Em essência, tratava-se da união das contrapartes masculina e feminina na pessoa humana, que se tornaram duas entidades. A próxima forma de casamento foi entre os filhos e as filhas de Adão e Eva (Gênesis 5:4). Depois veio a poligamia; e então, com o Cristianismo, veio a monogamia.
Com a monogamia, vieram regras estritas que proibiam o casamento entre parentes próximos, primeiro os parentes físicos e, ainda mais importante, os parentes espirituais. Pois os relacionamentos espirituais estabelecidos pela Igreja são de natureza superior aos físicos. O estado mais elevado do casamento monogâmico entre marido e mulher ocorre quando ambos consideram sua união espiritual como estando em um nível superior ao da união física.
Partindo do princípio de que o casamento é uma união entre duas entidades, masculina e feminina, podemos dizer que a castidade estabelece uma união entre um monge ou uma monja e Deus, sendo o homem ou a mulher representando a Igreja (Noiva) e Cristo sendo o Cabeça da Igreja (Noivo). A disciplina bem-sucedida da castidade conduz à forma mais elevada de união ou casamento entre Deus e o homem, e é isso que o monasticismo chama de virgindade espiritual. Esse estado pode ser descrito como o estado equivalente de graça e inocência que nossos primeiros pais, Adão e Eva, experimentaram antes de caírem da graça de Deus e se encontrarem nus. Por meio dessa breve descrição do casamento, podemos ver como a humanidade, em conjunto com o processo de procriação, pode retornar, individualmente, ao estado original de união com Deus e à preservação desse estado para sempre. A busca por esse estado pelos monges é apoiada pelas palavras de nosso Senhor ao falar da ressurreição, quando Ele diz que “na ressurreição, as pessoas não se casam nem são dadas em casamento, mas são como os anjos de Deus no céu” (Mt 22,30). É bem possível que o monasticismo seja chamado de vida angélica por causa dessas palavras de nosso Senhor.
A partir desse esboço da evolução do casamento em seu sentido físico e espiritual, fica evidente que a instituição do casamento não é de forma alguma depreciada. Deus a utiliza para trazer o homem de volta ao seu estado original de graça e além. O próprio Deus abençoou a instituição do casamento e nosso Senhor, com a vinda da plenitude do Seu Reino, chama a Si mesmo de Noivo e o povo, a Igreja, de Noiva. Toda a ideia da evolução do casamento, segundo os ensinamentos da Igreja, é indicar o controle cada vez maior que se deve ter sobre as paixões físicas (é por isso que o homem não tem época de acasalamento, como outras criaturas). Castidade, portanto, significa abstinência da carne, abstinência das paixões até que estas percam o controle e a influência totais sobre a pessoa humana.
É evidente que, para alguém se tornar cada vez mais espiritual, seus desejos e apetites físicos devem diminuir progressivamente. Se alguém deseja ascender ao reino do espírito e vivenciar experiências espirituais, deve separar-se daquilo que é mundano, carnal e remete a este mundo. Deve morrer para a carne a fim de viver em espírito. Quando isso for alcançado, poderá então entrar na experiência espiritual mais elevada da oração pura.
Pobreza: A Terceira Regra
A terceira regra do monasticismo é a não aquisição, ou pobreza, como é chamada no cristianismo ocidental. É certamente óbvio que, se um monge adquire bens materiais, sua mente e seu coração ainda estão voltados para as coisas do mundo. Para que alguém possa praticar a oração pura, sua atenção total deve estar voltada para Deus. Portanto, esta regra da não aquisição é tão importante quanto as outras duas. O jovem rico (Mateus 19:22) que fez tudo o que a lei exigia, mas não conseguiu se desfazer de seus bens para seguir o Senhor, é um exemplo vívido da regra da não aquisição.
Isso também nos remete às palavras de nosso Senhor: onde estiver o seu tesouro, aí estará também o seu coração. Um monge que não ambiciona bens terrenos está pronto para ter sucesso na prática da oração pura, oração essa que se baseia no cumprimento bem-sucedido da obediência, da castidade e da pobreza.
Por meio da prática da oração pura, o monge une sua vontade humana à Vontade Divina. Se Deus é Espírito, como ensina nosso Senhor, e aqueles que O adoram devem fazê-lo em espírito e em verdade (João 4:24), então o monge deve ter desenvolvido uma pureza de espírito inatingível sem a disciplina esperada. O monge sabe que foi feito à imagem de Deus, mas que deve trabalhar para se tornar semelhante a Deus, como todo cristão deve fazer. O monge sabe que, para experimentar a verdadeira liberdade, deve unir-se a Deus. Essa união ocorre quando há total concordância entre as duas vontades, a humana e a divina. Quando isso acontece, o monge entra na esfera do Divino e, assim, pode participar da vida divina. Esse estado final de desenvolvimento espiritual é chamado de theois e ou deificação.
Nesse estado supremo de desenvolvimento espiritual, o homem se torna semelhante a Deus. Nosso Senhor fala desse estágio mais elevado do desenvolvimento e progresso do homem quando cita o Evangelho de São João e diz: “Está escrito na vossa lei: ‘Eu disse que sois deuses’?” (João 10:34).
Patriarca Elias IV
Com tudo isso, deve ficar claro para nós que o monasticismo ortodoxo é o meio vital no mundo que relembra à humanidade seu nascimento e destino espiritual. Em sua última carta ao Metropolita Filipe da Arquidiocese Ortodoxa Antioquina, em junho de 1979, o santo Patriarca Elias IV, que adormeceu no Senhor poucos dias depois, escreveu: “Tenho apenas uma esperança para a vossa Arquidiocese: que encorajeis os vossos jovens a abraçarem o monasticismo. Nossa Igreja precisa desesperadamente de monges para enfrentar o desafio do materialismo assassino, para estabelecer firmemente a Vontade de Deus em nossa revolução contra este mundo cobiçoso”. Esta declaração é igualmente válida para todas as jurisdições ortodoxas na América do Norte.
As palavras do bem-aventurado Patriarca são claras. Monges e mosteiros são lembretes para o mundo de que existe outra vida, uma vida melhor, uma vida de verdadeira liberdade, a vida real. Os mosteiros são os satélites que Deus enviou ao mundo para nos dizer que, enquanto buscamos a vida física em outras partes do universo, Ele busca encontrar a vida espiritual entre Seus filhos na Terra. Ele procura encontrar no homem o estado de graça que Ele concedeu desde o princípio e que Seu Filho restabeleceu ao Se tornar um de nós.
Em uma entrevista mais extensa, concedida em 1977, quando estava aqui na América do Norte, o Patriarca Elias IV disse:
Creio que a sua maior fraqueza reside na falta de comunidades monásticas vibrantes. A criação de comunidades monásticas é um indicador da maturidade espiritual dos fiéis. Vocês têm um excelente clero paroquial. Contudo, este é necessariamente limitado no seu testemunho do Reino visível de Deus. Quero dizer que, para revelar a plenitude do Reino, a Igreja necessita tanto do clero paroquial como dos monges. Uma Igreja sem o efeito complementar destes é incompleta. O monasticismo é aquele belo jardim que irradia a elevada vocação da vida moral e ascética, onde tudo é sacrificado à vontade de Deus. É uma expressão concreta do Reino dos Céus. Uma vez que não têm comunidades monásticas, a vossa direção espiritual e ascética depende unicamente dos bispos. Até agora, Deus abençoou esta Arquidiocese (Antioquena) com hierarcas bons e sinceros. Mas, assim como um bom bispo conduz os seus filhos espirituais para o bem, também um mau bispo, sem controle, os conduzirá para o mal. É aqui que reside a importância dos monastérios. Historicamente, eles têm servido como salvaguarda e critério para a Ortodoxia. Vocês, até o momento, não possuem esse importante testemunho e salvaguarda.
Nos últimos anos, tem havido uma crescente conscientização entre os membros da nossa Igreja Ortodoxa de que é hora de todos nós dedicarmos a atenção necessária ao crescimento espiritual do nosso povo neste país. Um número cada vez maior de fiéis percebeu que já dedicamos atenção mais do que suficiente à construção de igrejas e catedrais, ginásios e centros sociais para os nossos membros. Se não começarmos a dar a devida atenção às suas necessidades espirituais, todos os programas de construção do século passado terão sido em vão.
Poderíamos até dizer que a onda de grupos de oração carismáticos que atingiu a Igreja Ortodoxa na América do Norte pode ser atribuída, pelo menos em parte, à ausência de monastérios como centros espirituais da nossa vida eclesial. Isso não significa desmerecer a renovação carismática. Pelo contrário, é a melhor coisa que aconteceu à tradição protestante, que tradicionalmente negou e até condenou a existência de mosteiros e da vida monástica. Mas o que isso revela sobre a nossa tradição? Pois até mesmo os nossos carismáticos ortodoxos, de modo geral, têm dificuldade em se desapegar dos seus bens materiais. Na verdade, justificam a sua riqueza dizendo que o Senhor os recompensa pela sua fidelidade e dedicação. Em contraste, o Senhor diz: “Vendam tudo o que têm, deem aos pobres e sigam-me”. Só um monge pode fazer isso na nossa sociedade atual. Consequentemente, apenas os verdadeiros monges e os mosteiros prósperos podem ser os verdadeiros carismáticos dos nossos dias.
1983
Metropolita Isaiah de Denver
tradução de monja Rebeca (Pereira)







