Ao final de Seu ministério público, no dia seguinte à Festa dos Tabernáculos, o Senhor Jesus Cristo disse, enquanto conversava com os judeus: “Quando levantardes o Filho do Homem, então sabereis que Eu Sou” (João 8:28). Aqueles judeus incrédulos então compreenderiam o poder e a autoridade divinos do Deus-homem Jesus; veriam que Ele é verdadeiramente um Mensageiro extraordinário do céu, o verdadeiro Filho de Deus (João 8:16, 18, 23, 25), quando, por causa de sua malícia e incredulidade, o Filho do Homem fosse pregado na vergonhosa Cruz como se fosse o pior dos criminosos.
E, de fato, a maravilhosa mão de Deus — além da extraordinária escuridão sobre toda a terra da sexta à nona hora (Mateus 27:45; Marcos 15:33), desde o momento da crucificação até a própria morte de Jesus Cristo — por meio de uma série de sinais miraculosos em Sua morte no Gólgota, revelou a grandeza e o poder d`Aquele que foi crucificado e, ao mesmo tempo, a grandeza e o poder das bênçãos concedidas à humanidade por meio de Sua morte na cruz.
Quando Jesus Cristo, o Príncipe da vida (Atos 3:15), entregou o Seu espírito na cruz, os seguintes sinais surpreendentes ocorreram, conforme narra o evangelista Mateus (Mateus 27:51-53):
Primeiramente, o véu interior do Templo em Jerusalém, que separava o Lugar Santo do Santo dos Santos (Êxodo 26:31-33) — a morada de Deus na terra, na qual somente o sumo sacerdote podia entrar uma vez por ano, no Dia da Expiação, para aspergi-lo com sangue sacrificial (Levítico 16:11-17) — rasgou-se em dois, de cima a baixo. Com o rasgar deste véu, foi misticamente revelado que, por meio da morte do Filho de Deus — que com o seu próprio sangue… entrou uma vez no lugar santo… para agora comparecer perante Deus por nós (Hb 9,12-24) — o céu foi novamente aberto à humanidade, e o acesso a Deus, antes fechado pelo pecado, foi restaurado (Hb 7,19).
Então, no momento da morte de Cristo, a terra tremeu tão violentamente que as rochas se partiram. Este fenômeno terrível teve um efeito tão poderoso até mesmo nos corações endurecidos do centurião romano e dos soldados que guardavam o Crucificado, que eles involuntariamente exclamaram: Verdadeiramente este era o Filho de Deus! (Mt 27,54). Este terremoto extraordinário foi um sinal de que, após a morte de Jesus Cristo, uma grande transformação ocorreria na humanidade (cf. Age 2,6-7) — uma profunda transformação moral e renovação da humanidade por meio da propagação e estabelecimento do Evangelho.
Além disso, como resultado desse violento tremor nas montanhas rochosas — particularmente naquelas onde haviam sido escavados túmulos (cf. Isaías 22:16) — as cavernas funerárias se abriram por meio de fissuras em suas paredes e abóbadas, e as pesadas pedras que selavam suas entradas foram deslocadas. A abertura dos túmulos deu início a um milagre ainda mais surpreendente: muitos corpos de santos que dormiam ressuscitaram e saíram dos túmulos, depois da ressurreição de Jesus, e entraram na cidade santa, e apareceram a muitos (Mateus 27:52-53).
Assim, no próprio momento de Sua morte, a glória do Deus-Homem é revelada! Dentre esses sinais, o extraordinário evento da ressurreição e subsequente aparição de muitos santos — mencionado tão brevemente pelo Evangelista — surge como um fenômeno verdadeiramente misterioso e, naturalmente, suscita muitas questões intrigantes na mente curiosa, cuja resolução certamente interessa a todo cristão.
Em primeiro lugar: de que maneira a ressurreição de muitos corpos de santos falecidos se relaciona com a morte e ressurreição de Jesus Cristo?
Como se evidencia na narrativa do Evangelho, a ressurreição de uma multidão de santos ocorreu no exato momento em que Jesus Cristo entregou Seu espírito na cruz a Deus Pai; portanto, esse evento maravilhoso tem uma conexão direta e intrínseca com a morte do Santíssimo Deus-homem. Segundo a pertinente comparação feita pelo Arcebispo Inocêncio de Kherson, “A morte do Senhor se manifesta como um grande trovão que ressoou por todo o mundo, abalou toda a terra, despedaçou as fortalezas do inferno e despertou os corpos dos santos que repousavam no coração da terra”. E assim, pelo sopro onipotente do Espírito Vivificante, esses mortos foram libertados dos grilhões da morte.
Este sinal milagroso, portanto, serviu como expressão do poder e da majestade da morte de Jesus Cristo. Mostrou que, por Sua morte, o Deus-Homem Jesus venceu a morte, privando “aquele que tinha o poder da morte, isto é, o diabo” (Hebreus 2:14) de poder, que “Aquele que foi pregado na Cruz é Senhor das coisas na terra e no mundo dos mortos” (Santo Isidoro de Pelúsio), e que o poder de Sua morte redentora se estende até o reino além da sepultura, onde Ele libertou aqueles que estavam sob o domínio do diabo. Contudo, a plenitude da vida renovada foi concedida aos corpos de muitos santos falecidos não antes, mas depois da Ressurreição de Jesus Cristo; e Ele próprio apareceu como o primeiro entre os ressuscitados, ou, nas palavras do Apóstolo, o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tivesse a preeminência (Colossenses 1:18). Aqueles santos que foram despertados do sono da morte pela morte do Crucificado “receberam tanto poder vivificante do Senhor ressuscitado que não apenas saíram em alma do Hades, mas também retiraram seus próprios corpos dos túmulos”.
Segundo o evangelista Mateus, tendo ressuscitado dos seus túmulos após a gloriosa Ressurreição de Cristo, muitos santos falecidos entraram na cidade santa e apareceram a muitos. Mas quem eram esses santos que ressuscitaram com o Senhor Jesus, e a quem apareceram? O evangelista, cujo principal objetivo era mostrar o grande poder e significado da morte e ressurreição de Cristo, não os nomeia, e seus nomes são desconhecidos na Tradição da Igreja. Seria mais natural que aqueles que há muito aguardavam a vinda do Messias prometido fossem os primeiros a ressuscitar com Cristo — como o patriarca Abraão e o rei David, seus parentes segundo a carne, ou os santos profetas que mais claramente predisseram a Sua Ressurreição, como David, Isaías, Oséias, Ezequiel e Daniel.
Contudo, os santos que ressuscitaram com Jesus Cristo foram designados a aparecer a muitos habitantes de Jerusalém, que os reconheceriam com mais facilidade. Diante disso, é mais provável que nem todos os justos que aguardavam a salvação no Messias tenham ressuscitado, mas apenas aqueles que podiam ser reconhecidos em Jerusalém — seja por serem figuras conhecidas em vida, seja por terem falecido recentemente. Portanto, é mais provável que, entre os muitos santos ressuscitados, estivessem Simeão, que recebeu Deus em seus braços, que havia falecido recentemente, e, segundo a tTadição, seus dois filhos; Ana, a profetisa; o sacerdote Zacarias e sua esposa Isabel; José, o noivo do Senhor; João Batista; e outros justos de sua época.
Esses muitos santos que ressuscitaram com a morte de Jesus Cristo permaneceram ocultos até a Sua Ressurreição; mas, posteriormente, apareceram a muitos em Jerusalém, de modo que, como observa São João Crisóstomo, “essa realidade não podia ser tomada como mera imaginação”. As aparições dos santos que ressuscitaram com o Senhor Jesus foram, para os Seus seguidores, o testemunho mais forte da Sua Ressurreição e dignidade divina. Quando alguém que ressuscitou pudesse dizer: “Eu ressuscitei pelo poder de Jesus, que foi crucificado e ressuscitou; creiam nele tão firmemente quanto me veem”, então todas as dúvidas se dissipariam e todas as objeções desapareceriam por si mesmas.
Se supusermos que esses santos ressuscitados, por suas aparições em Jerusalém, deveriam de alguma forma substituir as aparições do Salvador ressuscitado, então devemos concluir que eles não apareceram aos apóstolos, que tiveram a graça de ver o próprio Senhor Jesus diversas vezes após a Sua Ressurreição. Para outros crentes — entre os quais o próprio Ressuscitado apareceu, de uma só vez, a mais de quinhentos irmãos (1 Coríntios 15:6) — a aparição dos santos ressuscitados poderia servir não apenas como uma confirmação adicional da verdade e do poder da Ressurreição de Jesus Cristo crucificado, mas também como uma espécie de testemunho de gratidão Àquele que os ressuscitou, para a Sua glorificação.
Além disso, a aparição dos santos ressuscitados àqueles que testemunharam o sofrimento e a morte do Deus-Homem, além de expor a incredulidade dos saduceus, que diziam “que não há ressurreição” (Atos 23:8), tinha o propósito de trazer consolo e encorajamento ao pequeno rebanho de crentes (Lucas 12:32), que permanecia em um mundo hostil ao Evangelho (João 15:19-20; 16:20). E para aqueles que não creram no Senhor Jesus — que não reconheceram o tempo de sua visitação (Lucas 19:44) e rejeitaram o Messias enviado por Deus — a aparição dos santos que ressuscitaram com Ele serviu como uma misericórdia especial vinda do além-túmulo e como a pregação mais convincente do arrependimento, para despertar em suas almas uma disposição para a fé no Messias glorificado, Jesus.
Qual foi o destino dos santos que ressuscitaram com o Senhor?
Exemplos de ressurreição de pessoas mortas ocorreram ocasionalmente no Antigo Testamento (a ressurreição, pelo profeta Elias, do filho da viúva de Sarepta; pelo profeta Eliseu, do filho da sunamita; e a ressurreição de um morto ao tocar os ossos do profeta Eliseu), bem como durante a vida terrena do Salvador (a ressurreição da filha de Jairo, do filho da viúva de Naim e de Lázaro). Mas esses foram casos de um retorno temporário à vida. Aqueles ressuscitados pelos profetas e pelo próprio Cristo morreram novamente depois de algum tempo, visto que foram restaurados aos seus corpos anteriores, comuns, adequados às condições presentes da existência terrena.
Em contraste, de acordo com a antiga compreensão patrística, os justos que ressuscitaram com o Senhor Jesus ressuscitaram em um corpo transfigurado e renovado, livre de todo tipo de peso e enfermidade — em corpos incorruptos, semelhantes ao que todos os santos possuirão após a ressurreição geral. Um corpo assim não é adequado para permanecer na Terra ou para sofrer a morte novamente, com a corrupção na sepultura; sua morada própria é em outro mundo — o reino celestial.
Portanto, os antigos Padres da Igreja sustentavam que os santos que ressuscitaram com Cristo, depois de servi-Lo aparecendo a muitos habitantes de Jerusalém, não morreram novamente. Em vez disso, na Ascensão do Senhor Ressuscitado, eles O acompanharam — invisíveis aos apóstolos — na companhia dos anjos de Deus; e, tendo sido levados com Ele para o céu, habitam em bem-aventurança nas mansões do Pai Celestial.
A ressurreição dessa companhia de santos serve como penhor seguro e consolador da futura ressurreição universal daqueles que morreram em Cristo — ou, mais precisamente, da glorificação dos justos. As pessoas continuam a morrer mesmo depois de Jesus Cristo, que derrotou o reino da morte por meio de Sua morte. Observando como, uma vez que a alma parte, o corpo se entrega à corrupção e retorna ao pó, aqueles que se baseiam apenas no raciocínio humano muitas vezes tendem a duvidar da possibilidade da ressurreição, ou de serem revestidos novamente de carne para a vida, conforme proclamado pela Revelação Divina.
Mas, ao contemplar a glória de nossa Cabeça, o Senhor Jesus Cristo, em Sua Ressurreição, os fiéis já possuem uma firme esperança em sua própria ressurreição. Segundo o ensinamento de Gregório o Grande, para que ninguém duvide minimamente em seus pensamentos ou suponha que Cristo ressuscitou apenas porque era Deus e homem (como Deus, Ele venceu a morte, que assumiu como homem), enquanto nós, sendo homens comuns, não podemos ser libertados da condenação da morte — por essa razão, no momento de Sua Ressurreição, Ele ressuscitou os corpos de muitos santos. Assim, em Sua própria Ressurreição, Ele mostrou o modelo, e pela ressurreição de outros como nós, confirmou a esperança de nossa própria ressurreição. Portanto, se alguém não espera receber o que o Deus-homem revelou em Si mesmo, deve ao menos estar convencido de que o mesmo certamente lhe acontecerá como aconteceu com outros que eram, sem dúvida, humanos como nós.
Disso decorre que a companhia dos muitos santos ressuscitados nos instrui por meio de sua ressurreição: primeiro, que a única Fonte de vida para os mortais sujeitos à corrupção é o nosso Senhor Jesus Cristo; e segundo, que se os fiéis são verdadeiros membros do nosso Redentor, podem esperar para si mesmos o que foi realizado na Cabeça (1 Tessalonicenses 4:14), o que Ele revelou em Sua carne por meio de Sua Ressurreição; e têm motivos para esperar o mesmo que foi realizado em outros que foram membros antes de nós.
Cremos firmemente que um dia o próprio Senhor, com a voz do arcanjo e com a trombeta de Deus (1 Tessalonicenses 4:16), chamará todas as pessoas de seus túmulos, para que, no dia do terrível Juízo de Deus, cada um receba o que lhe foi devido por meio do corpo, segundo o que tiver feito, seja bom ou mau (2 Coríntios 5:10).
Tendo vencido a morte, Jesus Cristo, por Seu poder, ressuscitou muitos corpos de santos falecidos. Ele também ressuscitará todos os fiéis: pois, assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados (1 Coríntios 15:22). E aqueles que guardaram os Seus mandamentos, unidos a Ele em espírito e corpo no mistério da Sagrada Eucaristia, um dia entrarão na Jerusalém Celestial e serão considerados dignos da bem-aventurada vida eterna.
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tradução de monja Rebeca (Pereira)







