Durante a Semana Santa, enquanto revivemos os eventos de dois mil anos atrás, os corações dos fiéis se apertam de dor. Ouvimos os Evangelhos da Paixão durante a celebração; com os apóstolos na Última Ceia, perguntamos: “Senhor, sou eu?” (Mateus 26:22); vemos a multidão gritando freneticamente: “Crucifica-O! Crucifica-O!” (João 19:6), embora recentemente essas mesmas pessoas tenham clamado: “Hosana ao Filho de David! Bendito o que vem em Nome do Senhor! Hosana nas alturas!” (Mateus 21:9); permanecemos horrorizados diante do Crucificado, ouvindo Suas últimas palavras.
Os inimigos de Cristo — os sumos sacerdotes, os fariseus e os escribas — agem de maneira lógica e coerente. Inicialmente, rejeitaram Sua mensagem de amor sincero e humilde por todos; não conseguiram compreender seus ensinamentos sobre o Reino dos Céus, em oposição ao reino terreno; rejeitaram Sua revelação de que Ele é o Filho de Deus. Eles foram ao extremo na rejeição de Jesus de Nazaré, chegando ao ponto de condená-lo e matá-lo. Afinal, ele não correspondia em nada à imagem que tinham do Messias. A lógica deles é a do orgulho e da inveja humanos, a lógica da luta por riqueza, influência e poder.
Enquanto tudo é claro em relação aos inimigos do Senhor, o comportamento de Seus discípulos mais próximos é completamente obscuro. “Então todos os discípulos O abandonaram e fugiram” (Mateus 26:56).
Se o ódio de Seus inimigos é compreensível, então a fuga de Seus discípulos é um mistério que diz respeito não apenas a eles, mas a cada um de nós. Afinal, nós também somos discípulos de Cristo.
Por que fugiram aqueles que foram inseparáveis d´Ele por três anos e meio? Aqueles que viram com seus próprios olhos como a água se transformou em vinho, como os pães e os peixes se multiplicaram para alimentar milhares, como Lázaro ressuscitou dos mortos? Eles mesmos saíram para pregar, eles mesmos realizaram milagres em Seu Nome e, por fim, confessaram: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mateus 16:16).
Se o ódio de Seus inimigos é compreensível, então a fuga de Seus discípulos e amigos é um mistério que diz respeito não apenas a eles, mas a cada um de nós. Afinal, nós, cristãos, somos discípulos de Cristo.
A fé em busca de si mesma
Poderíamos supor que os apóstolos fugiram por medo da morte. O instinto de autopreservação, dizem eles, os dominou. Mas creio que a raiz de sua traição (e abandonar o Mestre em um momento de perigo mortal é traição) reside em algo mais profundo. Não se tratava apenas de medo animalesco e físico.
Vamos relembrar sobre o que discutiram durante a jornada com o Mestre. O evangelista Lucas preservou este detalhe desagradável para nós: “Surgiu entre eles uma discussão sobre qual deles seria considerado o maior” (Lucas 22:24). A mãe dos filhos de Zebedeu pediu lugares de honra para eles — à direita e à esquerda — no Reino (Mateus 20:21).
Por muito tempo, a fé deles esteve impregnada pelo “espírito do interesse próprio”. Seguiram a Cristo esperando receber algo em troca. Viam-No como um Messias-Rei terreno que derrubaria o jugo romano e estabeleceria um novo reino político onde ocupariam posições elevadas. Acreditavam n´Ele não por Si mesmo, mas pelo que Ele poderia lhes dar: segurança, poder, status, ajuda milagrosa, proteção e força.
E quando suas expectativas ruíram da noite para o dia — quando Cristo não ascendeu ao trono, mas permitiu ser preso, quando, em vez de triunfo, foi para uma execução vergonhosa — então a fé deles, construída sobre a areia movediça de suas próprias expectativas, desmoronou em pó. Não tinham nada em que se apoiar, nada a que se agarrar. Todas as suas esperanças se provaram vãs, um vazio autoengano.
A fé ruiu — e o amor também. Tudo o que restou foi um medo solitário por suas vidas insignificantes.
Amor que não busca seus próprios interesses
Mas o Evangelho nos mostra um exemplo de uma fé diferente e de um amor diferente. Quem permaneceu junto à Cruz? O apóstolo João, o Teólogo — aquele que mais profundamente absorveu o mistério do amor sacrificial, aquele destinado a compreender toda a profundidade das palavras: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito” (João 3:16).
Ao seu lado estavam a Santíssima Mãe de Deus e as mulheres que em breve se tornariam as Miróforas. Elas permaneceram não por serem mais fortes ou mais corajosas do que os apóstolos. Sua fé era simplesmente pura e sem mácula. Não continha nada de supérfluo. Elas buscavam e esperavam nada além da comunhão com Cristo. Para elas, estar com o Senhor, vê-Lo, ouvi-Lo, servi-Lo — era o seu maior e único ganho. Não precisavam de cargos no governo ou de outros bens terrenos. Precisavam apenas d’Ele, Jesus Cristo. Em seu amor por Cristo, esqueceram-se completamente de si mesmas. Portanto, não temiam nada nem ninguém.
O apóstolo Paulo formularia mais tarde essa qualidade da vida espiritual em seu famoso hino ao amor: “O amor não busca os seus próprios interesses” (1 Coríntios 13:5). O verdadeiro amor é a única força que não conhece a traição. É fiel até a morte porque não barganha, não calcula, não raciocina: “Eu te dou; tu me dás”. Simplesmente se entrega por completo.
O momento da Verdade
Os cristãos modernos frequentemente repetem o erro dos primeiros discípulos. Muitas vezes vamos à igreja, nos voltamos para Deus, somos batizados e recorremos a outros Sacramentos para que Ele nos conceda saúde, organize nossos assuntos familiares ou nos ajude no trabalho. Dessa forma, tratamos Deus, a fé e a Igreja como um meio para o bem-estar terreno. O Senhor diz: “Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mateus 6:33). As bênçãos terrenas em si mesmas não são ruins. O problema surge quando elas se tornam mais importantes para nós do que Aquele que as concede.
Se nossa fé se baseia em sensações agradáveis, em problemas resolvidos, em confortos terrenos, então, eventualmente, chega o momento da verdade — o momento da escolha: “Estou con´Tigo porque Te amo” ou “Estou contigo enquanto me beneficiares”. O Senhor nos oferece o cálice do sofrimento, esperando ouvir: “Meu Pai, se possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como Tu queres” (Mateus 26:39). Ele ouvirá? — essa é a questão.
Pedro, que jurou fidelidade até a morte, mas a negou três vezes na fogueira, fala de cada um de nós. Renunciamos a Cristo toda vez que escolhemos a conveniência em vez da consciência, quando permanecemos em silêncio quando devemos confessar a verdade, quando nos recusamos a carregar nossa cruz, quando nos recusamos a perdoar e condenar.
O caminho da verdadeira fé e do amor é o caminho mostrado por Cristo. “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a sua vida pelos seus amigos” (João 15:13). A Santíssima Mãe de Deus, João, o Teólogo, as mulheres miróforas e todos os santos seguiram este caminho.
Será que vamos traí-Lo?
A Semana Santa nos oferece uma oportunidade única de examinarmos nossos próprios corações. Estamos barganhando com Deus? Estamos esperando bênçãos terrenas d´Ele, esquecendo que Ele mesmo é nossa maior recompensa e tesouro?
O apóstolo Tiago denuncia diretamente essa atitude: “Vocês não sabem que a amizade com o mundo é inimizade com Deus? Portanto, quem quiser ser amigo do mundo torna-se inimigo de Deus” (Tiago 4:4). Não percebemos com que facilidade nos tornamos “amigos do mundo” – um mundo que exige de nós concessões, interesses próprios e um silêncio cauteloso.
Lembremo-nos de que Deus não deseja de nós a observância formal de rituais ou a cooperação pragmática e mutuamente benéfica. Ele espera de nós o amor que não busca ninguém mais. Somente esse amor pode penetrar as trevas do Getsêmani, permanecer firme aos pés da Cruz e entrar na alegria da Ressurreição.
Sacerdote Tarasiy Borozenets
tradução de monja Rebeca (Pereira)






