Em nossa tradição litúrgica, existem diferenças: jejum sem óleo, jejum com óleo, jejum com peixe, ordens monásticas, ordens paroquiais, Typikons de vários Santos Padres e, além disso, constituições russas, gregas, sérvias, palestinas e muitas outras. Mas todas essas diferenças, por mais visíveis que sejam, não são essencialmente dadas a pessoas diferentes, mas sim para servir ao crescimento do homem em Deus. O Typikon é uma placa indicativa, não um chicote. É como um lembrete curativo que nos orienta a viver de forma diferente, mais profunda e mais sóbria.
Contudo, o homem é fraco. Podemos transformar em condenação aquilo que foi dado para a salvação. Um não come azeite e ameaça o próximo que comeu uma azeitona. Outro pesa o peixe ao grama mais próximo e esquece que o irmão está estressado, doente ou com muita dor. Um terceiro segue uma constituição rigorosa, mas carrega raiva e intolerância no coração.
Mas de que adianta jejuar se o coração não se abrandou? Nossos Santos Padres nos ensinam:
- “Quando vires teu irmão fraco, presta atenção a ti mesmo.” Abba Doroteu
- “É melhor comer carne e beber vinho do que comer teu irmão com julgamento.” Santo Isaac, o Sírio
- “O jejum é serviço com amor.” São Justin de Tchélie
Portanto, a Igreja diz: nem todas as pessoas têm a mesma idade, a mesma força, nem o mesmo grau espiritual. Quem sustenta uma família, quem cuida dos filhos, quem está doente, quem realiza trabalhos fisicamente árduos – não pode jejuar como um monge no Monte Athos. E quem se dedica à oração e ao silêncio tem uma responsabilidade ainda maior pela sua vida e pela purificação do seu coração.
Isso não é injustiça. Essa é a sabedoria da Igreja.
O jejum é um remédio – e o remédio é administrado de acordo com a condição do paciente. Quando um médico examina duas pessoas, ele não prescreve a mesma terapia duas vezes. Se isso é verdade na medicina do corpo, quão importante é na medicina da alma.
Portanto, o debate sobre o jejum mostra que nos esquecemos da essência. O objetivo do jejum não é apenas comer menos, mas amar mais.
Acalmar-se.
Perdoar.
Não julgar.
Silenciar o homem interior que busca estar certo.
Abrir-se à graça.
O jejum é um movimento: da dureza ao calor, do egoísmo à misericórdia, da raiva à paz. Se criarmos discórdia com diferentes jejuns, teremos mudado o alimento, mas não o coração. A Igreja não é um exército de ascetas, mas uma comunidade de amor. E Deus não perguntará: “Você comeu azeite naquele dia ou não?” Mas certamente perguntará: “Você amou? Você perdoou? Você carregou o fardo do seu irmão?” E, portanto, jejuar sem azeite, com azeite, com peixe – tudo isso é bom, abençoado e salvador quando feito com humildade. Mas quando se transforma em uma medida da retidão alheia ou em motivo de discórdia, então já erramos o alvo. O jejum nos chama a sermos pacificadores, não controladores das mesas alheias. A sermos remédio, não ferida. A sermos gentileza, não pedra.
Que o Senhor nos faça assim – jejuar por amor, não por orgulho; pela paz, não por desafio; pela salvação, não para provar nada.
por monja Rebeca (Pereira)








