A graça de Deus nunca nos abandona completamente. Mas Deus quer que nos afastemos do pecado e recuperemos a plenitude da Sua graça através do arrependimento. O apóstolo Paulo chegou a dizer: “Onde o pecado abundou, superabundou a graça” (Romanos 5:20). Se uma pessoa luta contra o pecado, a graça a ajuda a vencê-lo. Mas se ela está em um estado de pecado que pode levar à rebelião contra Deus, a graça de Deus inspira em seu coração uma aversão ao pecado e um sentimento de arrependimento. Quando algumas pessoas se endurecem em seus pecados até a morte, isso não significa que a graça não tenha operado em suas vidas. Pois a graça é, em si mesma, um dom de Deus.
O orgulho, esse desejo demoníaco de ser como Deus, mas sem Ele, herdado de Adão, é uma grande tentação para as pessoas. Uma pessoa quer se libertar de qualquer poder que a domine, quer ser senhora de si mesma e do mundo ao seu redor. Mas a liberdade de Deus também cria nela uma falta de liberdade em relação aos desejos carnais e às bênçãos deste mundo, que a escravizam. “Tornei-me meu próprio ídolo e feri minha alma com paixões, ó Senhor misericordioso, mas aceita-me no arrependimento e reconduz-me à consciência de Ti. Que eu jamais seja possessão ou alimento do inimigo. Ó Salvador, tem compaixão de mim”, diz a Ode 4 do Grande Cânone de Santo André de Creta, na quinta-feira da Primeira Semana da Quaresma.
Aquele que comete pecado torna-se escravo do pecado. A verdadeira liberdade só pode vir de Deus. Somente a humildade e a obediência nos libertam de verdade. Todas as provações, doenças e sofrimentos da nossa vida são permitidos por Deus para que possamos adquirir humildade através deles. “E para que eu não me exaltasse demais com a grandeza das revelações, foi-me dado um espinho na carne, um mensageiro de Satanás para me atormentar, para que eu não me exaltasse demais” (2 Coríntios 12:7), escreve o apóstolo Paulo. É somente através do sofrimento suportado com fé e esperança que o nosso velho homem, corrompido por paixões e desejos ilusórios, se deteriora, e o novo ressuscita dos mortos como alguém criado à imagem e semelhança de Deus. “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo” (Gálatas 6:14), escreve novamente o apóstolo. A Cruz é uma teóloga singular!
Mas há também o mistério do sofrimento dos inocentes, que examinaremos em conexão com o grande mistério da Igreja. O Corpo de Cristo é a Igreja. Todas as pessoas são potencialmente membros de um enorme corpo da Igreja. Se um membro sofre, todo o corpo sofre também. Da mesma forma, os membros saudáveis da Igreja ajudam a suportar os sofrimentos dos doentes: “Nós, pois, que somos fortes, devemos suportar as fraquezas dos fracos, e não agradar a nós mesmos” (Rm 15,1). Se o sofrimento é resultado do pecado, então os inocentes às vezes sofrem por causa do pecado de seus semelhantes. É assim que o Senhor é glorificado. Revela também o mistério do homem que carrega tudo dentro de si e não está separado de ninguém nem de nada. Se não houvesse sofrimento, não entenderíamos o que é compaixão.
Adquirir um coração compassivo e misericordioso que ora e se compadece dos que sofrem é, em última análise, uma das principais tarefas da vida espiritual. Mas é precisamente a compaixão transformada pela graça de Deus, não algo doloroso ou destruidor da alma. “Pois eis que, por meio da Cruz, a alegria chegou a todo o mundo”, como cantamos na Vigília de domingo. A alegria chegou ao mundo inteiro por meio da Cruz.
A personalidade humana torna-se sábia e desenvolve-se graças às provações e sofrimentos que assume voluntariamente ou mesmo escolhe. Os santos da Igreja viveram de tal maneira que puderam fazer a transição de uma existência puramente individual para uma existência hipostática à imagem e semelhança da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. A hipóstase e a Cruz distinguem a Mãe de Deus e todos os santos, monges, mártires e fiéis revestidos de profunda fé e plena confiança em Cristo. Eles O seguiram em toda a sua liberdade. O exemplo dos justos, santos, leigos piedosos e bons pastores de Deus demonstra que seus sofrimentos terrenos foram transformados pela Cruz. Mas, segundo as Sagradas Escrituras, o sofrimento dos pecadores impenitentes é eterno. E a justiça vive da esperança de um encontro bendito com o Cristo Ressuscitado. Ele é a verdadeira Luz, que ilumina todo homem que vem ao mundo (Jo 1,9).
A oração litúrgica e sacramental da Igreja e as reflexões sobre o sofrimento sob a perspectiva da Cruz são essenciais para o amparo aos que sofrem em nosso tempo. Hoje, o mundo enfrenta um sofrimento particularmente intenso, mas os cristãos creem na Segunda Vinda Radiante do Verbo — o Filho de Deus. Invoco a graça do Espírito Santo sobre todos vocês, para que possam servir ao Senhor e aos seus semelhantes que sofrem com ainda maior amor. Amém.
Metropolita Serafim (Jonata) da Alemanha e Europa Central
tradução de monja Rebeca (Pereira)








