O CRISTIANISMO NÃO DEVE MUDAR – PARTE 1

Por que o Cristianismo não deveria mudar com os tempos?

São Teófano escreveu o seguinte texto no domingo seguinte ao Natal  de 1863, e suas palavras são tão pertinentes hoje quanto eram naquela época.

Os tempos mudaram!

Como fiquei feliz em ouvir isso. Significa que você está ouvindo atentamente o que eu digo, e não apenas que está ouvindo, mas também que está determinado a seguir o que eu digo. O que mais poderíamos desejar, nós que pregamos como e da maneira que nos foi ordenado?

Além disso, não posso concordar de forma alguma com sua opinião e considero meu dever comentá-la e corrigi-la, porque (apesar de talvez ir contra sua vontade e convicção) ela se origina de uma fonte pecaminosa. Como se o Cristianismo pudesse descartar suas doutrinas, seus cânones, suas cerimônias de santificação para responder ao espírito de cada época e, alterando-se aos gostos mutáveis ​​dos filhos desta era, pudesse acrescentar ou subtrair algo.

Mas não é assim. O Cristianismo precisa permanecer eternamente imutável, sem depender ou ser guiado pelo espírito de cada época. Pelo contrário, ao Cristianismo foi dada a tarefa de governar e guiar o espírito da época para aqueles que obedecem às suas admoestações. Para convencê-los disso, permitam-me compartilhar algumas reflexões para sua consideração.

Alguns disseram que meu ensinamento é rigoroso. Em primeiro lugar, meu ensinamento não é meu, nem deveria ser. Desta posição sagrada, ninguém deve ou pode pregar seu próprio ensinamento. Se, então, eu ou qualquer outra pessoa ousarmos fazer isso, vocês podem nos expulsar da igreja.

Pregamos o ensinamento de nosso Senhor, Deus e Salvador Jesus Cristo, Seus santos Apóstolos e da Santa Igreja, que é guiada pelo Espírito Santo. Ao mesmo tempo, zelamos de todas as maneiras possíveis para manter este ensinamento completamente intacto e inviolável em sua mente e coração.

Apresentamos cada pensamento e usamos cada palavra com muito cuidado, para que não ofusquemos de forma alguma este ensinamento brilhante e divino. Ninguém pode agir de outra forma.

Tal lei, que declara que um sermão pregado na igreja é enviado por Deus, foi estabelecida desde a criação do mundo e, portanto, deve permanecer em vigor até o fim dos tempos. Após transmitir os mandamentos do próprio Deus ao povo de Israel, o profeta Moisés concluiu da seguinte forma: “Não acrescentareis nada às palavras que vos ordeno, nem delas tirareis, para que guardeis os mandamentos do Senhor vosso Deus, tudo o que hoje vos ordeno” (Deuteronômio 4:2).

Essa lei de constância é tão imutável que até mesmo o nosso Senhor e Salvador, ao ensinar as multidões no monte, disse: “Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da Lei, sem que tudo se cumpra” (Mateus 5:17-18).

Então, Ele conferiu a mesma autoridade ao Seu próprio ensinamento, antes de interpretar os mandamentos no espírito do Evangelho, acrescentando: “Portanto, qualquer que violar um destes mandamentos, ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será chamado o menor no Reino dos Céus” (Mateus 5:19).

Isso significa que toda pessoa que interpreta incorretamente os mandamentos de Deus e diminui sua importância será rejeitada na vida futura. Foi isso que Ele disse no início de Sua pregação. Ele confirmou o mesmo a São João Evangelista, o detentor das revelações inefáveis, a quem descreveu o juízo final do mundo e da Igreja, indicando no Apocalipse [Livro da Revelação]: “Porque eu testifico a todos os que ouvem as palavras da profecia deste livro: Se alguém acrescentar algo a estas coisas, Deus lhe acrescentará as pragas que estão escritas neste livro; e se alguém tirar alguma coisa das palavras do livro desta profecia, Deus lhe tirará a sua parte da árvore da vida, da cidade santa e das coisas que estão escritas neste livro” (Apocalipse 22:18-19).

Durante todo o período em que Ele intercedeu, desde a Sua primeira vinda ao mundo até a Sua segunda vinda, Cristo deu aos Seus santos Apóstolos e aos seus sucessores a seguinte lei: “Ide, portanto, e fazei discípulos de todas as nações… ensinando-os a guardar todas as coisas que Eu vos tenho ordenado” (Mateus 28:19).

Isso significa: “Ensinem, não o que outros possam imaginar, mas o que Eu ordenei, e isto até o fim dos tempos”. E Ele acrescenta: “E eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém” (Mateus 28:20).

Os Apóstolos receberam este mandamento e sacrificaram suas vidas para cumpri-lo. E àqueles que queriam impedi-los de pregar tudo o que pregavam e que os ameaçavam com castigos e morte, eles responderam: “Julguem vocês mesmos se é justo aos olhos de Deus obedecer a vocês antes de a Deus. Pois não podemos deixar de falar do que vimos e ouvimos” (Atos 4:19-20).

Este mandamento claro foi transmitido pelos Apóstolos aos seus sucessores, foi aceito por estes e resistiu ao teste do tempo dentro da Igreja de Deus. É por causa deste mandamento que a Igreja é a coluna e o fundamento da verdade. Portanto, você vê que estabilidade inviolável ela possui? Depois disso, quem ousaria questionar ou insistir em mexer em qualquer coisa na doutrina e na lei cristãs?

Então ouçam o que é apresentado no Livro do Profeta Ezequiel, que por sete dias se encontrou em êxtase de oração e, após sete dias, ouviu a palavra do Senhor: “Filho do homem, eu o constituí por atalaia sobre a casa de Israel, e você ouvirá uma palavra da minha boca” (Ezequiel 3:17). E ele falou ao povo: “Esta é a lei para vocês: Se virem um ímpio cometendo iniquidade e não o advertirem para que abandone a sua iniquidade e mude de caminho, esse ímpio morrerá na sua injustiça, mas o seu sangue eu o requererei da sua mão” (Ezequiel 3:18). Contudo, “se advertirem o ímpio, e ele não se converter da sua iniquidade nem do seu caminho, esse ímpio morrerá na sua injustiça, mas vocês livrarão a sua alma”. Novamente, quando um justo se desviar da sua justiça e cometer uma transgressão, e eu o puser à prova, ele morrerá, porque você não o advertiu explicitamente. Ele morrerá em seus pecados, e as suas obras justas que praticou não serão lembradas; mas o seu sangue eu o requererei da sua mão. Mas, se você advertir explicitamente o justo para que não peque, e ele não pecar, o justo viverá, porque você o advertiu explicitamente; e você livrará a sua própria alma’ (Ezequiel 3:19-21).

Que lei rigorosa! E, no entanto, ela ressoa na consciência de todos os pastores no momento de sua eleição e ordenação, quando um jugo pesado lhes é imposto: o de pastorear o rebanho de Cristo que Ele lhes confiou, seja ele grande ou pequeno. E não devem apenas pastoreá-lo, mas também sustentá-lo. Como alguém pode ser tão arrogante a ponto de distorcer qualquer coisa na lei de Cristo, quando isso resultaria na destruição tanto dos pastores quanto do rebanho?


São Teófano, o Recluso
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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