O CLAMOR DE UMA ALMA QUE LUTA PARA GUARDAR A FÉ

Há momentos em que viver a eEspiritualidade Ortodoxa parece caminhar por um deserto. Entramos na igreja, respiramos o incenso, ouvimos os tropários, vemos os ícones, e o coração reconhece imediatamente aquele “ambiente de casa”, onde a alma sabe que Deus habita. Mas basta cruzar as portas para fora e somos atingidos por um mundo que já não fala a língua da fé. A sensação é de carregar um tesouro enquanto a multidão corre atrás de sombras.

O contraste fere. Dentro dos Ofícios, experimentamos um toque de eternidade. Lá fora, o paganismo moderno se impõe com naturalidade, seja através do culto ao ego, da obsessão pela aparência, do relativismo que dilui tudo, ou de uma espiritualidade que não passa de emoção passageira. Vivemos cercados por uma fé superficial que fala de Deus sem se dobrar diante d’Ele, que usa Seu Nome sem O buscar, que recita palavras sem conversão. E o coração dói ao perceber que aquilo que é santo para nós se tornou, para muitos, apenas mais um elemento no meio do barulho.

Há ainda obstáculos muito concretos. Segurança, violência, distâncias longas, cansaço, pressões profissionais, agressividade nas ruas. Tudo isso pesa sobre quem deseja ser fiel. Mas existe um obstáculo ainda maior e mais doloroso: o caráter. Não o dos outros, mas o nosso. O coração frágil, distraído, dividido. A luta para permanecer orando enquanto tudo ao redor clama para nos dispersar. A batalha para não permitir que o mundo de fora entre para dentro do templo interior.

Talvez o ponto mais amargo desse caminho seja ver a falta de vocações verdadeiras. A Igreja sempre viveu das almas inflamadas que disseram “eis-me aqui”. Hoje, porém, muitos querem o conforto, não o sacrifício. Querem falar de Deus, mas não querem carregar a cruz. Querem ser admirados, mas não querem obedecer. A vocação autêntica nasce de joelhos, da renúncia, do sofrimento. E é justamente isso que parece desaparecer. E quando vemos poucos dispostos a entregar a vida, a alma se pergunta: “Quem continuará acendendo as lâmpadas diante dos ícones? Quem ensinará a próxima geração a amar a Divina Liturgia? Quem guardará os caminhos do Senhor?”

Tudo isso se transforma num clamor escondido, quase um grito contido na garganta. Um grito que não é de desespero, mas de saudade. Saudade de uma fidelidade que já não é comum, de uma fé que moldava a vida inteira, dos monges e padres que nos ensinaram a amar a oração com lágrimas. É uma saudade de ver as igrejas cheias não apenas de pessoas, só fisicamente presentes, mas de corações verdadeiramente oferecidos a Deus.

No entanto, mesmo cercados por tudo isso, a Igreja Ortodoxa continua nos oferecendo um caminho seguro. Não um caminho fácil, mas firme. A espiritualidade dos Santos Padres nos lembra que a chama não se mantém acesa sem luta. A oração precisa de perseverança, como diz São Siluan: “Mantenha tua mente no Hades e não desesperes.” Ou seja, reconheça a escuridão ao redor, mas não permita que ela te roube a luz.

O mundo pode estar cheio de paganismo, distrações e superficialidade, mas o templo continua de pé. A Liturgia continua sendo celebrada. Cristo continua sendo oferecido no altar. O Espírito Santo continua soprando. As portas do inferno continuam sem poder vencê-la.

Por isso, mesmo quando o coração sente o peso do abandono da fé, mesmo quando parece que caminhamos sozinhos, existe um chamado que não cessa. Um chamado para manter o fogo aceso, para ser fiel quando tantos escolhem o caminho largo, para permanecer de pé, ainda que com lágrimas nos olhos.

Esse é o sinal de uma vocação verdadeira: continuar caminhando mesmo quando os outros desistem. Seguir rezando mesmo quando a alma se sente seca. Permanecer adorando mesmo quando o mundo zomba. Prostrar-se diante de Deus com o coração ferido, mas entregue.

Isso porque a Espiritualidade Ortodoxa não depende do ambiente externo. Ela nasce do encontro com o Cristo vivo. E quem já provou esse encontro nunca mais consegue desistir. Mesmo no meio do paganismo moderno. Mesmo no meio das lutas. Mesmo no meio do abandono espiritual. A alma fiel grita, mas porque ainda ama. Enquanto houver amor, há esperança. E onde há esperança, Deus sempre renova o pequeno remanescente que sustenta Sua Igreja.

09.12.2025
+ Bispo Theodore El Ghandour

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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