O CENTRO DA ESPIRITUALIDADE ORTODOXA

Na Santa Tradição da Igreja Ortodoxa, o coração e o nous estão no centro da espiritualidade ortodoxa. É esse centro que precisa ser tratado para que toda a constituição psicossomática do homem seja curada. Além disso, como disse o Senhor: “Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus” (Mt 5,8). Para compreender o que são o coração e o nous, é necessário começar examinando a alma.

Na narrativa do Gênesis no Antigo Testamento, sabemos que, inicialmente, Deus criou o corpo de Adão e depois soprou nele, criando sua alma. Ao dizer que “Ele criou a alma”, fica claro que a alma não é uma partícula de Deus ou o espírito de Deus, como algumas pessoas afirmam. Mas, como São João Crisóstomo explica, uma vez que o sopro de Deus é a energia do Espírito Santo, é essa energia do Espírito Santo que criou a alma, sem que ela própria seja a alma. É de vital importância afirmar isso, pois assim compreendemos bem que a alma não pode ser examinada de forma autônoma, mas somente em conexão com Deus.

A alma de todo homem é, ao mesmo tempo, una e múltipla, como ensina São Gregório Palamas. Em outro contexto, São Gregório Palamas ensina que, assim como Deus é Trindade — Nous, Logos e Espírito —, de maneira correspondente, a alma do homem tem uma natureza trinitária: há o nous — o núcleo da existência do homem —, o logos — gerado pelo nous — e o espírito — “o amor noético do homem”. A alma está intimamente ligada ao corpo do homem. Ela não está localizada apenas em uma parte do corpo.

De acordo com o ensinamento ortodoxo, Deus governa o mundo por meio de Suas energias incriadas. Assim como Deus age na natureza, a alma move e ativa cada membro do corpo para realizar sua função, segundo São Gregório do Sinai. Portanto, assim como Deus governa o mundo, a alma governa o corpo.

Como São Gregório Palamas expressa, a alma ocupa o corpo com o qual foi criada. Ela preenche todo o corpo, dando-lhe vida. Em outras palavras, a alma não é encerrada pelo corpo, mas ocupa o corpo ao qual está vinculada.

Há um vínculo forte entre a alma e o corpo, mas também uma clara distinção. Uma pessoa é composta de corpo e alma, ambos coexistindo simultaneamente sem nenhuma confusão. Assim, não é apenas a alma que é chamada de homem, nem é somente o corpo que é chamado de homem, mas ambos juntos constituem o homem. A alma dá vida a todo o corpo humano através de seus poderes providenciais. No entanto, se o corpo humano carecer de um de seus membros, por exemplo, se um homem não tiver olhos, isso não significa que os poderes providenciais da alma sejam diminuídos. Além disso, a alma não é, por si só, equivalente a seus poderes providenciais, mas ela contém de maneira única todos os poderes providenciais do corpo 1.

São Gregório de Nissa afirma de forma característica que a alma não é contida pelo corpo, mas é ela quem contém o corpo. Em outras palavras, o corpo não funciona como um recipiente ou um odre que contém a alma; pelo contrário, o corpo está dentro dela. A alma age em todo o corpo humano 2.

O que foi dito sobre a alma pode parecer altamente teórico, embora seja um ensinamento claro da Igreja e, como tal, indispensável para a compreensão do leitor sobre a questão do coração e do nous, que é o centro da espiritualidade ortodoxa. Sem isso, não somos capazes de compreender para onde a Igreja Ortodoxa se dirige e o que ela busca curar.

Assim como Deus tem essência e energia [isto é, ações ou operações distintas da essência], a alma — tendo sido criada à imagem de Deus — também possui essência e energia. A essência e a energia de Deus são, evidentemente, incriadas, enquanto a essência e a energia da alma são criadas. Nada existe sem uma energia. A essência do sol está além da atmosfera da terra, mas sua energia, que fornece luz, calor e que queima, entre outros efeitos, alcança a terra e a enche de luz e calor. O mesmo ocorre com todos os objetos. A essência da alma está localizada no coração, não como em um recipiente, mas como se fosse em um órgão; sua energia opera por meio dos pensamentos (logismoi).

Segundo São Gregório Palamas, a alma também é chamada de nous. Contudo, tanto o coração — a essência da alma — quanto sua energia — os pensamentos — também são chamados de nous 3.

Embora todos esses termos sejam intercambiáveis na tradição bíblico-patrística, para evitar confusões, aqui a alma deve ser entendida como o elemento espiritual da existência humana; o coração, como a essência da alma; e o nous, como a energia da alma. Assim, quando o nous entra no coração e age dentro dele, existe uma unidade entre o coração (essência) e a alma 4.

Toda a ascese na Igreja tem como objetivo a deificação do homem, ou seja, sua comunhão com o Deus da Trindade. Isso é realizado quando a energia da alma (nous) retorna à sua essência (coração) e ascende a Deus. Para que a união com Deus seja alcançada, a unidade da alma, pela graça de Deus, deve precedê-la. O pecado, na verdade, é a dispersão dessas potências; é, principalmente, a dispersão da energia da alma, isto é, do nous, para as coisas e sua separação do coração.

Feitas essas clarificações, é importante examinar mais analiticamente o que são o coração e o nous na Tradição Ortodoxa.

O coração é o centro da constituição psicossomática do homem, uma vez que, como observamos anteriormente, há uma união “sem confusão” entre alma e corpo. O centro dessa união é chamado de coração.

O coração é o lugar descoberto por meio da prática ascética em um estado de graça; é o lugar onde Deus é revelado e manifestado. Essa definição pode parecer abstrata, mas é uma questão de experiência espiritual. Ninguém pode demonstrar plenamente o lugar do coração por definições racionais e especulativas. Em qualquer caso, o coração é o centro e a soma das três faculdades da alma: a racional, a irascível e a apetitiva. O fato é que, quando uma pessoa vive a vida interior — quando seu nous retorna ao seu mundo interior após a dispersão anterior; quando ela experimenta o luto e, em um sentido mais profundo, o arrependimento — ela então se torna consciente da existência desse centro, ou seja, da existência do coração. Nesse lugar, ela sente dor e tristeza espiritual; experimenta a graça de Deus; e ali também ouve a voz de Deus.

De acordo com a tradição patrística, a essência da alma, que é chamada de coração, encontra-se como que dentro de um órgão, mas não em um recipiente onde se encontra o órgão físico do coração. Isso deve ser interpretado em referência ao que foi dito antes, que a alma sustenta o corpo e lhe dá vida; ela não é contida pelo corpo, mas contém o corpo da pessoa. É dentro dessa perspectiva que São Nicodemos, o Hagiorita 5, fala do coração como um centro biofísico (natural), uma vez que o sangue circula para todas as partes do corpo a partir daí; como um centro afetado (contrário à natureza), uma vez que as paixões prevalecem nele, e como um centro sobrenatural, uma vez que a graça de Deus opera ali, como muitos trechos das Sagradas Escrituras afirmam:

“Mas eu vos digo que qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, já cometeu adultério com ela em seu coração.” (Mateus 5, 28)

“Mas, pela dureza do teu coração e pela tua impenitência, estás armazenando ira para ti mesmo no dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus.” (Romanos 2, 5)

“Para que Cristo habite pela fé em vossos corações.” (Efésios 3, 17)

“E a esperança não envergonha, porque o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado.” (Romanos 5, 5)

O nous, por outro lado, é a energia da alma. De acordo com os Padres, o nous também é chamado de olho da alma. Seu lugar natural é dentro do coração; ele deve estar unido à essência da alma e experimentar a incessante memória de Deus. Seu movimento é contrário à natureza quando está escravizado pelas criaturas de Deus e pelas paixões. A Tradição Ortodoxa faz uma distinção entre nous e razão.

A razão é uma função do cérebro, enquanto o nous opera fora dele e está unido ao coração em seu estado natural. Na pessoa santa, que é a manifestação e portadora da espiritualidade ortodoxa, a razão funciona e está consciente do mundo ao seu redor, enquanto o nous está dentro do coração, orando incessantemente. A separação do nous e da razão constitui o estado de uma pessoa espiritualmente saudável, e esse é o objetivo da espiritualidade ortodoxa.

Bastante ilustrativa do tema acima, são duas passagens dos escritos de São Basílio, o Grande. Em um texto, ele diz que no homem espiritual — que se tornou templo de Deus e do Espírito Santo — a razão e o nous existem e operam simultaneamente. A razão se ocupa das preocupações terrenas e o nous se ocupa da incessante lembrança de Deus. Além disso, como seu nous está em comunhão com Deus e unido ao coração, o homem não se deixa perturbar por tentações inesperadas, ou seja, pelas tentações causadas pela decadência e transitoriedade de sua natureza6.

Na outra passagem, São Basílio se refere ao retorno do nous ao coração e sua ascensão a Deus. A segunda passagem deve ser interpretada dentro do contexto da anterior e em relação ao ensino de São Basílio como um todo. O nous, que está disperso nas coisas exteriores e difuso pelos sentidos no mundo, está doente, caído e é pródigo. Ele deve retornar de seu estado disperso para sua união com o coração, seu estado natural, e então se unir a Deus. Iluminado pela Luz incriada (o estado da deificação), o nous negligencia até mesmo sua natureza, e a alma não se ocupa com vestimentas e abrigo. Isso não significa que o homem não se preocupe com comida, etc. Mas, porque o homem alcançou o estado da teoria (visão de Deus) e a deificação, suas forças corporais — não as da alma — estão em um estado de suspensão; em outras palavras, a alma e o nous não são subjugados pelas influências do mundo e das coisas materiais. O homem está, claro, preocupado com elas, mas não está escravizado por elas. Além disso, São Basílio o Grande  afirma claramente que, por meio desse movimento do retorno do nous dentro do coração, a virtude como um todo é adquirida: prudência, coragem, justiça, sabedoria, juntamente com todas as outras virtudes 7.

O Padre Ioannis Romanides 8 diz que todos os seres vivos possuem dois sistemas de memória conhecidos. Primeiramente, “há a memória celular, que determina o desenvolvimento e o crescimento do indivíduo em relação a si mesmo”. Esta é a estrutura conhecida do D.N.A., que é o código genético que define literalmente tudo na constituição humana. Em segundo lugar, “há a memória das células do cérebro, que determina as funções e relações do indivíduo consigo mesmo e com o seu ambiente”. Esta é a operação do cérebro, que, sendo impressa por todas as memórias do passado, bem como pelo conhecimento humano adquirido por meio de estudo e investigação, define as relações do homem com seus semelhantes. Além disso, segundo Romanides, “existe dentro de cada pessoa uma memória com mau funcionamento ou subfuncionamento no coração; e quando ela é ativada através da oração noética, ela se torna a memória perpétua de Deus, o que contribui para a normalização de todas as outras relações de uma pessoa”.

Consequentemente, o Santo — o portador da espiritualidade ortodoxa — possui as três memórias, que atuam e funcionam simultaneamente sem influenciar uma à outra. Um Santo é o “mais natural dos homens”. Ele está consciente do mundo, envolvido em várias preocupações, mas — porque seu nous alcançou sua função natural — “vive na terra, mas é um cidadão do céu”.

Portanto, o centro da espiritualidade ortodoxa é o coração, dentro do qual o nous do homem deve operar intrinsecamente. A energia da alma — o nous — deve retornar à essência da alma — no coração; e assim, ao unir esses poderes pela graça de Deus, adquirir unidade e comunhão com o Deus da Trindade. Uma espiritualidade fora dessa perspectiva não é ortodoxa, mas moralista, pietista, abstrata e racionalista.

_____________

1 Cf. A Filocalia, ed. Astir vol. 4, Atenas 1976, p. 156.

2 Cf. PG 45, 217 B.

3  Cf. A Filocalia, ed. Astir vol. 4, Atenas 1976, p. 133.

4  Cf. A Filocalia, ed. Astir vol. 4, Atenas 1976, p. 132.

5 Hagiorita significa “da Santa Montanha”, ou seja, do Monte Athos. [N.T.]

6 Cf. São Basílio, o Grande, Padres Gregos da Igreja (em grego, E.P.E.), Tessalônica, 1972, Vol. 1, p. 68.

7  Cf. São Basílio, o Grande, Padres Gregos da Igreja (em grego, E.P.E.), Tessalônica, 1972, Vol. 1, p. 64-66.

8 Cf. Ioannis Romanides, “Franks, Romans Feudalism and Doctrine”, Holy Cross Orthodox Press, 1981.


Metropolita Hierotheos (Vlachos) de Nafpaktos
tradução do Sub-Diácono Gregório Siqueira

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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