a) Durante o período do Triodio, a Igreja auxilia gradualmente os cristãos a ascenderem a escada espiritual da Grande Quaresma e a se prepararem para a Páscoa da Cruz e da Ressurreição. Nesse período, há maior ênfase no ascetismo cristão, na oração, na humildade edificante, no arrependimento, na sobriedade e no luto piedoso.
No Domingo do Publicano e do Fariseu, a Igreja nos mostra o caminho da verdadeira oração, bem como o perigo do farisaísmo, da arrogância social e da hipocrisia. No Domingo do Filho Pródigo, ela nos revela o verdadeiro caminho do arrependimento e mostra a profundidade e a amplitude do amor divino.
b) Em sua interpretação desta parábola tão instrutiva, São Gregório Palamas enfatiza a bondade de Deus Pai que, não tendo necessidade de nada, nada reteve para Si. Ele nos concede bens terrenos e dons celestiais, mas nós os desperdiçamos. E a Igreja não deixa espaço para mal-entendidos ou ambiguidades quanto à natureza de Deus: “Deus é amor. Quem não ama, não conhece a Deus” (cf. 1 Jo 4, 8). Como sabemos, publicanos e pecadores, cheios do amor divino, iam ouvir Jesus. Isso fica claro no caso de Zaqueu, o chefe dos cobradores de impostos, a prostituta e outros.
c) Os escribas e fariseus, porém, queixavam-se disso, dizendo que o Senhor acolhia os pecadores e comia com eles. Por isso, Ele aproveitou a oportunidade para responder às suas zombarias com as parábolas da ovelha perdida, da moeda perdida e do filho pródigo. Nesta última, revela-se a magnitude do amor divino. Manifesta-se a infinita misericórdia de Deus, assim como o poder do arrependimento, que gera esperança.
d) Na nota para o Sinaxário do Domingo do Filho Pródigo, lê-se: “Os Santos Padres ordenaram que a parábola do Filho Pródigo fosse lida depois da do Publicano e do Fariseu, pela seguinte razão: porque muitos, desde tenra idade, entregaram-se à prodigalidade, à embriaguez e ao abuso sexual, e caíram nas profundezas do desespero. Chegaram a sentir desespero, que, segundo os Padres, gera arrogância. Por isso, não têm absolutamente nenhum desejo de praticar a virtude, supostamente por acreditarem que não há misericórdia para eles”.
e) “É por isso que os Padres, demonstrando-lhes amor e misericórdia paternos e desejando libertá-los do desespero, ordenaram que esta parábola fosse lida, como já dissemos, após a primeira. Eles queriam mostrar que a misericórdia e a bondade de Deus estão abertas a todos os pecadores e que não há pecado que possa vencer a infinita bondade de Deus.”
f) Com a linguagem específica da vida sob o domínio turco, a nota acima do Sinaxário concentra a atenção do leitor em dois pontos principais: i) o perigo do desespero (que aparece três vezes), ao qual estão propensos aqueles que se entregam às suas paixões instintivas desde tenra idade; e ii) a bondade, o amor e a imensurável misericórdia de nosso bom Deus. O desespero é uma tentação permanente no que diz respeito à salvação de cada pessoa. Ele pode, no entanto, operar de duas maneiras, uma negativa e outra positiva. No primeiro caso, as pessoas estão perdidas, presas sob o peso de suas iniquidades. No segundo caso, eles tomam consciência da extensão de seu fracasso e dos danos causados pelo pecado e, assim, recorrem, com esperança, ao médico dos corpos e das almas, Cristo Salvador.
g) O desespero, a falta de esperança, o estresse e a insegurança, que frequentemente levam a transtornos psicológicos e pânico entre indivíduos e sociedades, devem-se em grande parte à ruptura de nossa relação com Deus e com nossos semelhantes. Na maioria das vezes, porém, são consequência de uma ruptura interna, um afastamento e uma perda de nossa humanidade. Como aceitação e reconciliação de nosso eu ferido e como restauração de nossa comunhão com Deus e com outras pessoas, o arrependimento pode operar como redenção e cura, resgatando-nos do abismo do desespero.
Protopresbítero Vasileios Kalliakmanis
tradução de monja Rebeca (Pereira)








