Ela fugiu de pensamentos rígidos,
Ela amou a alegria pecaminosa,
Ela amou o brilho e o barulho da vida,
As ressacas depravadas das festas…
Sua vida é bastante conhecida. Sua vida é lida nas Matinas na quinta-feira da quinta semana da Quaresma, durante a “Permanência de Maria”.
Preciso recontar tudo de novo?
Prefiro continuar citando os poetas inspirados por sua história fascinante.
Aqui está ela, jovem, embarcando no caminho fácil e doce da fornicação.
Ela se deixou levar
por uma atração incompreensível
e trilhou o caminho pecaminoso
de prazer em prazer…
Assim Ivan Aksakov escreveu sobre ela (“Maria do Egito”, 1845).
Aqui ela vê um navio navegando rumo à Terra Santa. O tema da Cruz surge aqui, como se nos remetesse à Semana da Veneração da Cruz. Peregrinos navegam para a Festa da Exaltação da Santa Cruz. E ela decide navegar com eles.
Passo a palavra a outro poeta contemporâneo, Alexander Barash (“Maria do Egito”, 1999).
Certa manhã, em meio a um nevoeiro ensolarado,
navios partiam para a Palestina.
E os peregrinos eram tão jovens — dava vontade de deixar a Terra.
Bem, ela era uma prostituta, cantava canções,
adorava beber vinho até ficar embriagada.
É uma coisa terrível, Deus me livre,
há tanta felicidade, e ela está sozinha.
“Felicidade”, “prazer”… Seria mesmo prazer e felicidade? Talvez fosse assim que lhe parecia então. O mar, os peregrinos, os marinheiros, o sol, o vinho — tudo misturado: o mar, o céu, os peregrinos…
Aqui se percebe uma referência implícita ao comportamento de outra famosa mulher egípcia — a esposa de Potifar, que tentou seduzir José, contra a sua vontade, para o adultério. Os peregrinos no navio também provavelmente tentaram manter a pureza, mas não foram tão resilientes quanto José… “Maravilho-me, Abba, de como o mar suportou a nossa devassidão! Como a terra não abriu a sua boca e o inferno não me engoliu viva!…”
Mas o mar suportou, e a terra não engoliu. Maria chegou a Jerusalém. E então, na Festa da Exaltação da Santa Cruz, ocorreu um milagre.
De “Maria do Egito”, do poeta inglês John Heath-Stubbs (1950, minha tradução – S.A.):
Atirada para longe das portas do templo por um sopro de ar,
Maria, a meretriz egípcia,
caiu sobre uma pedra. Sacerdote, velas e acólito
tremeram no fogo de sua visão que se esvaía –
Ela jazia imóvel.
Então fugiu
para o deserto negro. Por quarenta anos
escondeu-se entre rochas, fendida pelo calor…
Assim, a jornada quaresmal que começou em Constantinopla nos leva a um novo lugar no Quinto Domingo — o Jordão. Por quê? Só podemos especular.
O Jordão era um rio de cura. Depois de se banhar no Jordão, o comandante militar sírio Naamã foi curado da lepra. O Jordão era um rio de arrependimento. João Batista batizou o povo no Jordão, chamando-os ao arrependimento.
Maria embarcaria numa jornada de arrependimento e cura, uma jornada de libertação da luxúria. E para encontrar a paz.
O que havia de tão especial em Maria do Egito?
Sim, na transformação radical que ocorreu dentro dela.
Entre os santos associados aos domingos da Grande Quaresma (Imperatriz Helena, Gregório Palamas, João Clímaco, etc.), esta é talvez a mudança mais significativa. Não se trata simplesmente de metanoia — “mudança de mentalidade”, como a palavra literalmente traduz, significando arrependimento, penitência — mas de metamorfose — “mudança de aparência”, de toda a própria imagem. Uma transfiguração.
Maria do Egito não apenas se arrependeu e abandonou sua antiga profissão. Ela foi transformada. Abba Zósimas, que a encontrou no deserto, chegou a confundi-la com um homem. É assim que ela é geralmente representada nos ícones.
Aqui, aliás, reside outra fronteira entre a Ortodoxia e o Catolicismo. Não o Catolicismo “em geral”, mas a metamorfose que sofreu no final da Idade Média. Quando a veneração de Maria do Egito foi ofuscada pela veneração de outra Maria, Madalena. Tanto que grande parte da vida dela foi “transferida” para a vida de Madalena.
Mas esse não é o problema. As Vidas dos Santos não são documentos históricos. Seu propósito é dar ao leitor não uma ideia do passado, mas uma instrução para o futuro. Que tipo de pessoa ele, o leitor, deve ser e o que deve emular. As Vidas dos Santos, como os ícones, são a-históricas. Não julgamos a aparência ou as vestes reais de um santo pelos ícones; da mesma forma, em uma vida, um santo é apresentado não como um “retrato”, mas simbolicamente.
Por exemplo, na Capela de Maria Madalena em Assis, pintada no século XIII pelo grande Giotto, um dos afrescos retrata Abba Zosimas entregando uma vestimenta não a Maria do Egito, mas a Maria Madalena. Isso era, obviamente, um anacronismo, mas não uma distorção. O significado edificante permanece inalterado.
Mas a forma como Maria é retratada neste afresco altera profundamente o significado hagiográfico. Ela é representada como uma matrona viçosa, de pele clara e cabelos dourados e encaracolados. Isso, depois de quarenta e dois anos no deserto…
Vemos essa mesma matrona rechonchuda e de cabelos dourados na famosa pintura de Ticiano e em muitas outras pinturas. O espectador é convidado a admirar a beleza física da pecadora, talvez até a simpatizar com ela. Mas de forma alguma consegue apreciar a transformação que ocorreu em seu interior.
Basta colocar ícones ortodoxos de Maria do Egito lado a lado. Um corpo escurecido pelo calor, definhado, completamente desprovido de “encanto”. Nenhum “arrependimento” exterior e exagerado destinado ao público.
Um ícone, por definição popular, é teologia em pintura; a restauração da veneração de ícones é celebrada como o Triunfo da Ortodoxia. A heresia na iconografia não é menos perigosa do que em tratados teológicos e sermões. A secularização da iconografia durante o Renascimento privou a imagem da meretriz arrependida de seu elemento mais importante — a iluminação ascética. A arte renascentista conhece dois extremos: ou a carne viçosa e sedutora de uma jovem pecadora, ou a carne repulsiva e senil da “Maria” de Donatello. Em ambos os casos, o elemento “carnal”, físico, obscureceu poderosamente o espiritual.
Aliás, a Vida de Maria do Egito nada diz sobre sua aparência.
Ela era bonita na juventude? Não se sabe. Se fosse realmente bonita, provavelmente teria se tornado uma cortesã, vendendo seu amor a clientes ricos e nobres. Mas, a julgar por sua história, ela era algo como Katka, de “Os Doze”, de Blok: “ela costumava sair com os cadetes — agora sai com os soldados…” Essas mulheres raramente são beldades perfeitas. E elas não precisam necessariamente de tanta beleza.
Sua Vida não menciona que ela se tornou feia na velhice. Diz que seu corpo, “queimado pelo calor do sol”, era negro, e “os cabelos em sua cabeça eram brancos como lã, e não compridos, não chegando abaixo do pescoço”. Pode-se até supor que ela era bonita na velhice. Mas não beleza física, e sim a beleza da santidade que se torna especialmente evidente na velhice. Especialmente quando essa beleza está associada à transformação.
Contudo, Maria não esteve sozinha em sua transformação e rejeição da antiga vida de fornicação. A tradição da Igreja conhece muitas histórias de prostitutas arrependidas.
Pelágia de Antioquia, batizada por São Nono. Zoe de Belém, que tentou seduzir São Marciano, mas acabou fracassando e foi convertida por ele a uma vida virtuosa. Thaisia da Tebaida — esta prostituta, aliás, era de fato notável por sua beleza e era (antes de sua conversão por São Pafnúcio) uma cortesã.
Podemos também recordar a meretriz convertida por Abba Serapião, as meretrizes que abandonaram a sua profissão sob a influência da pregação de Vital de Alexandria, e muitas outras.
O que há de tão especial em Maria do Egito?
Em todas as histórias, a fonte da conversão e da orientação das meretrizes é um homem, que as supera — e a muitos outros — em santidade e sabedoria. Na história de Maria do Egito, por outro lado, é ela quem instrui Abba Zósimas, superando-o — como afirma a revelação que lhe foi dada — em santidade e perfeição.
Sim, não há homem nem mulher: pois todos vocês são um em Cristo Jesus (Gálatas 3:28). Pela fé, as diferenças entre homem e mulher perdem o seu significado — em Cristo, todos são um.
E esta é outra característica notável dos domingos da Grande Quaresma: eles são divididos igualmente entre homens e mulheres, alternando entre eles. O primeiro domingo, o Triunfo da Ortodoxia, está associado à Imperatriz Teodora. O segundo, a São Gregório Palamas. O terceiro, a Veneração da Cruz, está novamente associado a uma mulher, a Imperatriz Helena. O quarto, a São João Clímaco…
E agora, o quinto domingo, quando Maria do Egito é venerada. Esta mulher, uma antiga prostituta, superou em santidade o Abade Zosima, que foi criado em um monastério desde a infância.
Será essa alternância de domingos “dos homens” e “das mulheres” durante a Quaresma uma coincidência? Talvez sim. Mas, uma vez incorporada à vivência da Quaresma, uma vez que se torna parte da jornada quaresmal, deixa de parecer aleatória. Cristo veio tanto para homens quanto para mulheres, e não havia menos mulheres do que homens entre seus discípulos.
A santidade não conhece gênero nem dados de passaporte.
Por outro lado, a fornicação, talvez o pecado mais disseminado, também não conhece distinções de gênero. Ela envolve a todos com seu fogo e, como qualquer pecado, busca subjugá-los completamente. Recordemos mais uma vez os versos de Ivan Aksakov:
Ela se deixou levar
Por sua atração incompreensível
E trilhou o caminho pecaminoso
De prazer em prazer…
Uma definição muito precisa de pecado: “ela se deixou levar”. Pecado é quando não nos guiamos, não controlamos nossas paixões, mas nos deixamos levar por elas. Especialmente a luxúria. “A natureza coopera com a serpente da luxúria carnal”, escreveu São João Clímaco. A natureza, nossa natureza, nossa natureza inata.
O pecado de Maria do Egito era natural, “natural”. Mas isso não o tornava menos pecaminoso. – Metropolita Anthony de Sourozh
“A fornicação”, continua o mesmo metropolita, “não consiste apenas no pecado corporal, no desprezo pelo próprio corpo e pela pessoa do outro. A fornicação consiste no erro da pessoa; consiste na fragmentação e degradação da integridade do amor humano, de modo que a pessoa não seja mais capaz de amar uma pessoa e o único Deus com toda a sua alma, todo o seu coração, toda a sua mente, todo o seu corpo, todo o seu ser…”
Após se arrepender e se purificar do pecado, Maria alcançou esse amor. Foi uma jornada longa e árdua, uma jornada de luta constante contra as dificuldades da vida no deserto, mas, principalmente, contra si mesma. Contra aquilo que a havia “guiado” anteriormente. E nessa luta, ela prevaleceu.
E, ao mesmo tempo, foi uma jornada fácil. Uma jornada de retorno a um estado natural (no sentido mais elevado da palavra), quase paradisíaco. Quando ela não precisava se preocupar em ganhar a vida, com homens, com joias e roupas, ou com qualquer coisa que lhe tivesse sido tão fervorosamente importante em sua vida anterior. Tudo o que ela precisava estava ao seu alcance.
A Terra.
O Jordão.
O Céu.
Evgeny Abdullaev
tradução de monja Rebeca (Pereira)







