O ASCETISMO DO JEJUM: O SIGNIFICADO E A IMPORTÂNCIA DO JEJUM DA NATIVIDADE

Um tempo de autocontrole e um tempo de oração, um tempo de tentações e um tempo de alegrias: tudo isso se relaciona ao jejum — um período especial na vida de todo cristão ortodoxo. O Igumeno Nektary (Morozov), reitor da Igreja do Ícone “Acalma as Minhas Dores” da Mãe de Deus, fala sobre o significado do Jejum da Natividade e sobre a importância até mesmo do mais pequeno exercício ascético e da expectativa da celebração.

—Estamos acostumados com o fato das festas estejam relacionados com  tempos de alegria. Por que os cristãos ortodoxos jejuam antes das celebrações mais importantes?

—Uma festa / um feriado, na compreensão secular, e um feriado, na compreensão da Igreja, são coisas completamente diferentes. No mundo, a preparação para um feriado significa ir às compras, garantir que a mesa esteja posta com diversos alimentos e pensar em como entreter os convidados. Essa abordagem é puramente terrena. Uma festa da Igreja é uma celebração de outra ordem, espiritual, que oferece aos fiéis a oportunidade, por meio da lembrança deste ou daquele evento da história sagrada, de conectar o coração a outra realidade, a celestial, e experimentar em toda a sua plenitude a alegria desse toque maravilhoso e incomparável.

Mas o homem é composto de espírito, alma e corpo. E seu espírito e alma, em seu dia a dia, encontram-se em um estado oprimido e reprimido — o corpo governa com suas necessidades, hábitos e prazeres. Para dar liberdade ao espírito em sua busca por Deus, precisamos “oprimir” nossa carne, limitando, ao menos de alguma forma, suas demandas, por vezes caprichosas. Essa forma de autocontrole é o jejum. De uma forma ou de outra, como a abstinência de excessos, ele deve estar sempre presente na vida de um cristão ortodoxo. Mas, ao longo do ano litúrgico, há períodos específicos dedicados a uma maior temperança — os jejuns de vários dias, um dos quais é o Jejum da Natividade.

— Também conhecido como Jejum de Filipe…

—Sim, porque começa no dia seguinte à comemoração do santo apóstolo Filipe, em 15/28 de novembro. Mas termina no Natal, celebrado em 25 de dezembro/7 de janeiro, e assim dura quarenta dias. De acordo com suas regras alimentares, não é o jejum mais rigoroso. Aos sábados e domingos, e também nos dias de festa com polyeleos,¹ se não caírem numa quarta ou sexta-feira, o jejum do Natal permite comer peixe, e nos demais dias — nada de carne ou laticínios. Os últimos dias são a parte mais rigorosa do jejum, durante a pré-festa — de 20 de dezembro/2 de janeiro a 24 de dezembro/6 de janeiro, inclusive. Nesses dias, mesmo que caiam num domingo, sábado ou em algum dia festivo, o peixe não é permitido. E o dia mais rigoroso de todos é a véspera do Natal, quando, segundo o Typikon da Igreja, é costume comer apenas à noite, com o aparecimento da “primeira estrela” no céu (por volta das 16h ou 17h).

—Estamos falando agora do aspecto físico do jejum. Mas o jejum também é necessário para a alma, correto?

—Sim, claro. No jejum físico, precisamos lembrar que o mais importante é o jejum espiritual. Portanto, se alguém se priva de comida, mas não vai à igreja, participando de algum tipo de entretenimento ou diversão, seu jejum não trará benefícios tangíveis — será apenas uma espécie de “dieta”, nada mais. Sem oração durante os Serviços, é praticamente impossível compreender o significado profundo do jejum. Para um cristão, o Jejum é um tempo em que ele pode trabalhar mais substancialmente em sua alma: lutar internamente contra as falhas que geralmente tolera por covardia, tentar cultivar virtudes nas quais percebe que não obteve sucesso até então. Então, o dia da festa, como a coroação do seu jejum, torna-se um dia de alegria genuína e celebração espiritual autêntica.

—O que significa o Natal para um fiel?

—Para nós, o Natal é o fim do Antigo Testamento e o início do Novo, aquilo que os justos do Antigo Testamento aguardavam, juntamente com todos os que preservaram a fé no Deus verdadeiro, desde o momento em que nossos antepassados ​​transgrediram o único mandamento dado por Deus ao primeiro Adão, criado. Este evento, que mudou o destino da humanidade, é o início da nossa salvação.

O próprio Serviço Litúrgico prepara o homem para essa compreensão do Natal. Nos dias que antecedem a festa (20 de dezembro/2 de janeiro a 24 de dezembro/6 de janeiro), o mesmo pensamento: “Cristo nasceu, Cristo está vindo”, surpreendente em sua profundidade e ternura, é ouvido nos Stikera e no Cânone das Matinas e Completas, atingindo um clímax. E esse sentimento, de que “o Senhor está vindo”, torna-se completamente real.

Vou dar um exemplo um pouco pessoal, mas muito vívido. Um amigo meu, fiel, mas que não vivia uma vida totalmente religiosa, estava servindo no exército há algum tempo. Na noite de Natal, ele estava em patrulha e, de repente, sem qualquer motivo aparente, sentiu que… o Senhor havia nascido. Uma alegria impressionante e completamente inesperada inundou seu coração. Evidentemente, algum tipo de mistério acontece na noite de Natal — o mistério do mundo relembrando o momento mais extraordinário de sua história: como Deus Se fez homem para que o homem pudesse se tornar Deus.

—Como podemos compreender a necessidade do Jejum para nós mesmos?

—O mandamento do jejum é o mais antigo. Foi o primeiro, dado ao primeiro homem criado no Éden. E o jejum ocupa um lugar de destaque na história da Igreja. Primeiramente, há o memorável jejum do profeta Moisés, que precedeu a apresentação das tábuas inscritas por Deus. Há um contraste surpreendente: por um lado, Moisés não comeu por quarenta dias para receber a aliança de Deus. Por outro lado, os israelitas, que ele conduzia pelo deserto, estavam prontos para retornar ao Egito, onde mataram todos os primogênitos das famílias judias, porque não tinham tanta carne, cebola e alho como estavam acostumados no Egito!

Santo Inácio (Brianchaninov) fala de forma notável sobre isso: Um homem orgulhoso, em autoengano, considera-se importante, mas assim que seu estômago é apertado, torna-se óbvio que ele é seu escravo. O jejum é um dos meios de se libertar dessa escravidão.

Mas o principal para nós aqui é o exemplo do Salvador, que, preparando-Se para o Seu ministério, empreendeu o mesmo jejum de quarenta dias. Sem precisar de tal preparação, Ele próprio nos mostrou uma imagem de como nos preparar para eventos importantes em nossas vidas.

— O jejum é difícil para o homem moderno, que vive não em um dormitório monástico, mas no meio do mundo. Às vezes, o jejum parece um anacronismo estranho para aqueles ao nosso redor, e às vezes simplesmente obscurantismo. Há alguma possibilidade de concessão nesse sentido para alguém que está jejuando?

—Certamente, jejuar no meio do mundo é mais difícil do que em um monastério. Às vezes, em famílias, uma pessoa se converteu a Deus, enquanto outra não entende e não aceita a vida da Igreja e suas regras, e, portanto, não há alimentos adequados para o jejum. Também é difícil quando se passa a maior parte do dia no trabalho, onde não há como conseguir alimentos de qualidade para o jejum. Mas difícil não significa impossível. A experiência mostra inequivocamente que, quando um cristão decide jejuar, ele consegue; todos os obstáculos são superados.

Há ainda um outro aspecto muito significativo do jejum para quem vive no mundo. Neste mundo, sem igreja, sem conhecer a Deus, muitas vezes nos “dissolvemos” e nos perdemos em seus acontecimentos e assuntos, o que nos força a esquecer quem somos. Nesse sentido, o Jejum é um meio muito eficaz de lembrar que você é um crente ortodoxo. E, ao mesmo tempo, é uma homilia sem palavras, porque ao ver alguém que se recusa a algo por amor a Deus, as pessoas inevitavelmente começam a respeitar sua fé. Muitas vezes, torna-se uma ocasião para que elas reflitam e questionem algo importante para si mesmas.

Mas, é claro, desvios do Typikon aceito são possíveis se alguém estiver doente e não tiver forças físicas para segui-lo. Embora seja melhor coordenar isso com seu sacerdote, pedindo sua bênção e conselho.

Sabe, fisicamente somos muito mais fracos do que nossos ancestrais, que demonstraram exemplos incríveis de autocontrole, e não podemos adotar o mesmo nível de ascetismo que eles. Mas também somos mais fracos do que eles mental e espiritualmente. Portanto, hoje, um sacerdote deve ser condescendente não apenas com aqueles que estão fisicamente doentes, aliviando-lhes o rigor com algumas indulgências. A pessoa moderna que frequenta a igreja pode não estar preparada para o jejum por razões puramente psicológicas. A ideia de ter que renunciar à alimentação habitual por quarenta dias causa-lhe pavor. E quando se percebe que alguém não está a jejuar com a mesma determinação, então, para não o afastar completamente, pode-se sugerir um jejum de “treino”: abrir mão apenas da carne e de algo modesto na primeira vez. Há esperança de que, no jejum seguinte, essa pessoa esteja preparada para uma abstinência mais rigorosa.

—Um fiel deve celebrar o Ano Novo durante o Jejum? O que fazer se este feriado for muito importante para seus entes queridos?²

—Aqui precisamos de raciocínio espiritual. Se você tem pessoas da Igreja ao seu redor, é simples: por sua própria vontade, um fiel não deve passar a noite toda assistindo a programas de TV, em uma festa ou em algum outro evento. Se nem todos na sua família são crentes, então você precisa encontrar um bom equilíbrio: não se desviar do jejum corporal, mas tentar fazê-lo da maneira mais imperceptível possível e não se entregar a excessos de diversão. Não pode haver um meio-termo completo. Em vez disso, devemos fazer com gentileza e amor o que a lei de Deus e os cânones da Igreja nos obrigam a fazer.

—Que outros conselhos daria a alguém que está jejuando?

—Ao fato de que o Jejum não é apenas um período de árduo ascetismo, mas também um tempo de tentações. Uma lei espiritual se revela: ao começar a tentar viver de forma mais disciplinada, você entra na linha de frente. Um tempo de guerra se aproxima: as forças que se opõem a toda bondade em nossa vida pegam em armas contra nós. Mas isso não acontece sem a permissão de Deus. Como diz Abba Doroteu, toda boa ação é precedida ou seguida por uma tentação.

Na maioria das vezes, as tentações do jejum se manifestam no agravamento de conflitos existentes ou no surgimento de novos. Em geral, infelizmente, quem jejua às vezes fica muito mais irritável, nervoso… Mas, sabendo de antemão que o jejum é um tempo de tentações, é possível se preparar melhor para elas e suportá-las com mais serenidade. A oração deve ser o principal auxílio nesse sentido. Em geral, os fiéis costumam intensificar sua rotina de oração durante o jejum: leem o Saltério, fazem prostrações e procuram não omitir nem abreviar nada em sua prática.

Há algo mais que eu gostaria de dizer. As pessoas, inclusive os fiéis, esquecem-se com muita facilidade de seus deveres. Precisamos constantemente de incentivos e razões para estarmos atentos às coisas importantes que encontramos em nosso dia a dia. E o Jejum é justamente essa ocasião, esse incentivo para nos recompormos. Mas, infelizmente, com o fim do jejum, muitas vezes ocorre um certo “retrocesso”, e perdemos rapidamente o pouco que conseguimos conquistar. É muito importante evitar isso, então o Jejum seria para nós mais um passo, ainda que pequeno, em nossa ascensão a Deus; para que não regredíssemos a partir desse degrau.

______

1 O canto festivo dos Salmos 134 e 135 nas Matinas das festas mais importantes. O nome “polyeleos” vem da repetição da frase “pois a sua misericórdia dura para sempre” no Salmo 135.

2 É claro que esta questão se aplica diretamente àqueles que observam o Jejum segundo o Calendário Antigo. Na Rússia, onde o Ano Novo é um feriado importante, tendo sido imposto ao povo como substituto do Natal sob a opressão soviética, ele permanece um feriado querido até hoje, embora os fiéis possam celebrar o Natal abertamente.


Igumeno Nektary (Morozov)
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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