Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!
A vida humana, irmãos e irmãs, é repleta de tristezas e sofrimentos: inúmeras dores mundanas oprimem a alma e frequentes enfermidades debilitam o corpo, como que para nos lembrar que o dia em que teremos de prestar contas de todos os nossos atos a Deus, o Justo Juiz, não está longe. E quem não pecou? Como, então, nossos corações não podem se alegrar e exultar ao ouvirmos – ou, mais precisamente, ao nos lembrarmos – de que temos uma Intercessora misericordiosa e amorosa que consola os aflitos, cura os enfermos, fortalece os desanimados e, sobretudo, intercede constantemente junto ao Senhor por nossa salvação eterna? Essa Intercessora, essa Medianeira, é a Mãe de Deus – a Mãe de todos os cristãos, a Puríssima Virgem Maria.
O amor de Deus por nós, pecadores, é infinito. Não há limites, pois quem pode compreender o amor do Incompreensível? E assim como esse amor é inefável, também o é a sabedoria divina para o nosso cuidado providencial. A hoste de santos intercede por nós nas câmaras celestiais diante do Trono do Rei da Glória; as fileiras dos Poderes Celestiais nos protegem invisivelmente de inúmeros males, afastando-nos do mal, guiando-nos para o bem e expulsando os cães demoníacos malignos e atrevidos do inferno. E, no entanto, muitas vezes não conseguimos resistir: transgredimos os mandamentos do nosso Criador e caímos, tropeçando no pecado diante d´Ele, tornando-nos culpados e sujeitos ao Seu justo e temível Julgamento. Pode ser assustador para nós aproximarmo-nos d´Ele ou contemplarmos os Céus. Contudo, o Senhor misericordioso, que não Se irou até o fim, concedeu-nos uma esperança que não pode ser envergonhada, uma intercessão infalível diante d’Ele: Sua Mãe Puríssima, que na Cruz adotou toda a humanidade na pessoa da discípula e teóloga amada. Suas orações, mais do que todas as outras, são sempre aceitáveis a Ele, o Todo-Poderoso. Ele também ouve as súplicas daqueles que A veneram, mesmo quando Ela intercede por aqueles que são indignos de misericórdia e indulgência.
Não apenas pessoas com suas dores particulares e pessoais, mas também nações e países inteiros preservaram a memória da intercessão e súplica da Mãe de Deus por eles em momentos em que nenhuma ajuda humana teria sido suficiente.
Hoje, o quinto sábado da Grande Quaresma, é dedicado à lembrança de um evento tão milagroso – e não apenas um, mas três. Por isso, é chamado de Sábado do Acatiste ou da Louvor à Mãe de Deus.
No início do século VII, em 626, durante o reinado do imperador Heráclio, Bizâncio atravessava tempos difíceis. Constantinopla estava cercada por inimigos por todos os lados: os persas marchavam do leste, os ávaros do oeste. A situação dos gregos parecia desesperadora. A queda da capital, com a perda de seus defensores e habitantes pacíficos, parecia inevitável. Mas então o patriarca Sérgio de Constantinopla realizou uma procissão ao redor da cidade sitiada e carregou pessoalmente o ícone milagroso de Hodigitria, da Mãe de Deus. Outro objeto sagrado precioso também foi levado: o manto da Santíssima Mãe de Deus, que era preservado em sua famosa igreja de Blachernae. Quando o manto foi carregado ao redor das muralhas da cidade e depois imerso nas águas do Bósforo, ocorreu um milagre que alegrou os gregos e apavorou seus inimigos. O mar, que até então estava calmo, começou a ferver e irrompeu numa terrível tempestade, que afundou os navios inimigos com suas ondas revoltas. A cidade então passou a noite inteira em oração na Igreja de Blachernae, cantando hinos de ação de graças à Mãe de Deus.
Por duas vezes Constantinopla foi agraciada com tamanha misericórdia da Rainha dos Céus; por duas vezes foi milagrosamente libertada do cerco inimigo. Portanto, a celebração de hoje foi instituída em memória das extraordinárias obras de amor da Mãe de Deus para com o povo cristão. Neste dia, um hino de louvor à Theotokos, chamado Acatiste, é cantado em todas as igrejas ortodoxas do mundo.
De fato, irmãos e irmãs, a Mãe de Deus auxilia aqueles que A invocam com uma rapidez surpreendente. Assim como uma mãe devotada se apressa em socorrer seu filho, também a Mãe de Deus Se apressa em responder ao chamado do coração humano aflito, para ajudar, interceder e salvar aqueles que estão perecendo.
Portanto, desde os tempos mais remotos, os cristãos têm sido salvos por meio de Sua intercessão, encontrando n´Ela auxílio e proteção, conforto e consolo. Ela, a Santíssima das santíssimas, tem um amor indizível por todos os que se dedicaram à piedade, por todos os que entregaram completamente suas vidas e a si mesmos ao Seu Filho Amado. Mas – o milagre maravilhoso, a profundidade da misericórdia! – Ela também ama os pecadores e aqueles que perecem em suas iniquidades. Ela é misericordiosa para com eles, estendendo-lhes uma mão amiga a cada instante. Quantos pecadores foram erguidos, curados e restaurados por Ela, a Rainha dos celestiais e dos terrenos? Ela os elevou das profundezas da queda às alturas da santidade, conduzindo-os aos radiantes aposentos nupciais do Mestre Celestial!
Como recordamos recentemente, foi à Todo-Pura que a pecadora, Santa Maria do Egito, clamou em oração: “Sê minha fiel testemunha diante de Teu Filho de que jamais contaminarei meu corpo com a impureza da fornicação, mas assim que eu vir a Árvore da Cruz, renunciarei ao mundo e às suas tentações e irei aonde quer que me conduzas”. E a Mãe de Deus, de fato, não se envergonhou da súplica dessa pecadora desesperada, mas tornou-Se sua auxiliadora e protetora por toda a sua vida, fortalecendo-a e consolando-a invisivelmente.
São Siluan, o Athonita, que também experimentou a milagrosa intercessão da Theotokos ao receber d´Ela uma misericordiosa admoestação, jamais se cansou de glorificá-La ao longo de toda a sua vida. “Agora eu vejo”, escreve ele em suas anotações, “como o Senhor e Sua Mãe Se compadecem das pessoas. Imaginem – a Mãe de Deus aparecendo dos céus para mostrar a um jovem como eu os seus pecados!” “O que eu poderia dar à nossa Santíssima Senhora”, escreve o Ancião, “por vir a mim e trazer iluminação, em vez de Se afastar com repulsa pelo meu pecado? … Meu espírito se alegra e minha alma se eleva a Ela em amor, de modo que a simples invocação do Seu nome é doce ao meu coração.”
Mas por mais que se diga, por mais exemplos que se cite, irmãos e irmãs, tudo isso não passará de uma pequena gota no oceano da misericordiosa generosidade de Nossa Senhora. Quem pode dizer quantas pessoas, ao longo destes longos séculos, alcançaram a salvação e a vida eterna de bem-aventurança graças unicamente à Sua mediação?
Em nossos dias, a voz da eternidade é quase inaudível: foi abafada pelo ruído das grandes cidades e da turbulência política, pelo ruído da vida moderna com suas vaidades. Mas, pela misericórdia de Deus, há pessoas que estão sendo salvas ainda agora. Hoje, pessoas – uma a uma – estão despertando do sono do pecado, seus corações estão recuperando a visão de Deus e elas estão se arrependendo das vidas que passaram sem Ele. Por quais caminhos, desconhecidos para nós, nos chega a nossa salvação? Quem nos guarda, quem implora à Justiça de Deus que continue a nos tolerar e não nos condene à morte por nossas iniquidades? Para muitos de nós, isso provavelmente permanecerá um mistério que só descobriremos depois de sermos libertos dos grilhões da carne e deixarmos este mundo de pecado e sofrimento.
Contudo, por vezes, mesmo nesta vida terrena, por razões que nos são insondáveis, a Divina Providência digna-se levantar ligeiramente esse véu tão fino, mas impenetrável, que nos oculta o outro mundo. E então vemos quem nos demonstra misericórdia e nos protege; vemos quem cuida de nós com mais atenção do que a mãe mais devota e carinhosa jamais poderia. Então aprendemos que a Santíssima Virgem Maria não nos abandonou até os dias de hoje, mas está sempre conosco, tal como prometeu aos Apóstolos enlutados na sSua partida deste mundo.
Contudo, não são apenas aqueles poucos afortunados a quem o cuidado da Theotokos se revelou de alguma forma visível, mas todos nós devemos ter a crença inviolável de que não há pecador, nenhuma pessoa que tenha vindo a Deus, por quem a Mãe do Senhor não interceda com Suas orações, a quem Ela não tome pela mão e conduza à Igreja de Deus. Por quê? Porque a Sua Proteção Divina se estende a todos nós, sem exceção. Porque Ela intercede por todos, sem exceção, diante do Rei Celestial. Ninguém é privado de Sua misericórdia e amor, ninguém – enquanto não se transformar em pedra, enquanto sua alma não morrer – é definitivamente privado do cuidado de Deus.
Irmãos e irmãs, nós – cada um de nós, nosso país e a própria Igreja – não estamos vivendo tempos fáceis. Mas o Senhor tem sido misericordioso conosco até agora, por meio das súplicas de Sua Mãe Puríssima. Portanto, devemos recorrer incansavelmente a Ela em nossas orações, para que o Senhor continue a nos afligir, a proteger nossa Pátria e Igreja e a conceder às pessoas o arrependimento que conduz à salvação.
Mas não é apenas em nossa tristeza e aflições que devemos nos voltar para a Mãe de Deus; não é apenas na angústia do coração que devemos suspirar a Ela com lágrimas de contrição. Antes, com gratidão por toda a Sua beneficência – conhecida e desconhecida, passada e futura – cantemos o maravilhoso hino de louvor à Santíssima Virgem, clamando a ela com sincera compaixão: “Rejubila, ó Esposa Imaculada!”
Confiemos que a Rainha não desprezará nossa humilde louvação, mas terá misericórdia de nós, concedendo-nos aquela alegria que não será tirada para sempre, aquela alegria que Ela deseja para cada um de nós com todo o Seu amoroso coração materno. Amém.
Igumeno Nektary (Morozov)
tradução de monja Rebeca (Pereira)







