No Primeiro domingo da Quaresma, celebramos o Domingo da Ortodoxia, ou seja, a festa da restauração dos santos ícones, pois a Igreja, mais uma vez, pela graça de Deus, venceu a heresia dos iconoclastas e preservou com exatidão a fé e a tradição dos Santos Padres da Igreja, tal como se mantiveram ao longo dos séculos.
Esta fé tem como resultado a cura da humanidade, nossa salvação e deificação. Reverenciar os ícones sagrados é a prova de que confessamos que Deus Se tornou uma pessoa descritível, que o Verbo de Deus verdadeiramente Se encarnou e Se fez pessoa, mas também que as pessoas verdadeiramente se tornam filhos de Deus e vasos do Espírito Santo, templos de Deus e membros de Cristo. Reverenciamos os ícones sagrados dos Santos e suas relíquias sagradas porque Deus habitou neles. Por isso, celebramos a restituição dos ícones sagrados e temos o bendito costume de levá-los em procissão, de honrar e abraçar os ícones de Cristo, de Nossa Senhora e dos Santos da Igreja.
E já que nosso tema são os ícones, lembremos o ícone por excelência, o ícone de Deus, a pessoa humana. O primeiro a criar um ícone ou imagem – uma de Si mesmo – foi Deus. E esse ícone é a pessoa humana. Deus disse: “Façamos o homem à Nossa imagem e semelhança” e, de fato, a pessoa humana tornou-se um ícone do Deus Trino, um ícone do Deus invisível. Podemos contemplar esta imagem de Deus. O ser humano é a mais bela e encantadora das criações de Deus. Se Deus quisesse criar algo melhor, Ele o teria feito. Sua imagem, o ser humano, foi a melhor que Ele criou. Mas este belíssimo ícone de Deus, que continha todos os dons que Deus lhe concedeu durante a sua criação, foi, infelizmente, destruído, quebrado, porque o diabo conseguiu estilhaçá-lo.
A luta iconoclasta não foi um fenômeno do século VII. Ela começou com o surgimento do ser humano. O diabo instigou uma guerra contra o ícone de Deus, contra o ser humano, e conseguiu destruí-lo, fazê-lo cair na morte, no pecado, distorcer esta bela imagem a tal ponto que ela deixou de ser testemunho da beleza de Deus e se tornou algo feio, repleto de paixões e pecados. Mas Deus não queria ver Sua imagem definhando na miséria, não queria ver Seu ícone, que Ele criou com tanto amor e cuidado, perdido na desolação da queda e do pecado. E assim Ele mesmo Se fez homem e modelo da nossa salvação. E para nos ajudar a redescobrir a beleza e a formosura da nossa criação, quando saímos de Suas mãos, Ele criou a Igreja, por meio da qual, antes de tudo, Ele nos dá a graça do Espírito Santo. A tarefa do Espírito Santo é a renovação da nossa natureza corrompida e o nosso renascimento. Esse renascimento se realiza por meio de dois fatores. O primeiro é a graça do Espírito Santo e o segundo é a liberdade humana. É assim que Deus nos recria. Primeiramente, pelo mistério do Espírito Santo. Quando somos batizados, o grande mistério da nossa recriação se realiza; despojamo-nos da velha pessoa e nos revestimos de Cristo, a nova pessoa. Em seguida, com o poder do Espírito Santo que nos é dado através do Santo Crisma, somos energizados e recebemos força, para que os dons que nos foram concedidos pelo Batismo e Crisma possam ser ativados para produzir frutos espirituais, para nos glorificar e santificar.
Da parte de Deus, tudo foi feito perfeitamente e de uma maneira que Lhe convém. Deus realizou a nossa salvação e concluiu a Sua obra; agora cabe a nós fazer com que esses dons se tornem nossos. As pessoas que são batizadas em Nome da Santíssima Trindade, na Igreja e por meio da Igreja, e ungidas com o Espírito Santo, tornam-se pessoas renascidas em Cristo, que agora podem avançar e ativar em si mesmas os dons que Deus lhes concedeu. Portanto, todos nós somos batizados com a graça de Deus. Não importa se somos crianças quando somos batizados, porque o batismo não é resultado da nossa própria vontade e intelecção, mas sim resultado e ação do Espírito Santo. É o que acontece depois do Batismo que requer a nossa cooperação e consentimento. No momento do Batismo, não há dom que Deus não nos dê. Ele regenera a pessoa por completo, remodela-a e realmente a reveste de Cristo. E assim começa nossa luta, e como Deus não age por mágica, nem erradica a liberdade humana, é por isso que nossa própria liberdade é necessária: para trabalhar com a graça de Deus.
A luta espiritual que travamos desde o momento em que nos tornamos conscientes de nós mesmos ao longo da vida é precisamente como ativar os dons que recebemos no Batismo e que, naturalmente, nos são inerentes desde a nossa criação. É porque estamos feridos e subjugados ao pecado que o Batismo é necessário para nós e por isso Cristo foi enfático: “todo aquele que crer e for batizado será salvo”, porque o Batismo é necessário, juntamente com a fé, para a nossa salvação, visto que sem eles não podemos renascer.
E assim começa a luta, e é a luta contra a iconoclastia. É uma luta de Satanás, do pecado do nosso ambiente, de nós mesmos contra a imagem de Deus, contra o ícone que carregamos dentro de nós. Como o diabo destruirá a imagem de Deus que temos tanto por natureza quanto pelo Batismo? O pecado é o que destrói a imagem; é isso que macula a imagem e a corrompe, fragmentando as pessoas e tornando-as incapazes de funcionar naturalmente, como Deus nos criou. O pecado é essencialmente cativeiro; ele visa diretamente à nossa liberdade e a destrói, razão pela qual é uma afronta a Deus e à pessoa. Pessoas sujeitas ao pecado não têm liberdade. Em cada momento em que somos derrotados pelo pecado, é aí que nos tornamos escravos do pecado. Depois disso, o amor que tínhamos por termos sido feitos à imagem de Deus, amor esse que era direcionado a Deus e, por meio de Deus, ao mundo, à criação e aos nossos semelhantes, torna-se um amor passional, idólatra e corrupto. Em relação à criação, torna-se idolatria e, em relação às paixões, transforma-se em sensualidade, ambição e avareza. A pessoa, que era tão bela, criada por Deus e, acima de tudo, livre, torna-se agora escrava e cativa nesses grilhões.
Embora sejamos batizados e selados com o Espírito Santo, embora tenhamos em nós as sementes da beleza de Deus, ainda precisamos cooperar para que todas essas sementes germinem.
Como podem as pessoas reconstruir essa imagem de Deus e contemplar a grande beleza que possuem por natureza, por sua própria criação? É por isso que essa luta espiritual da Igreja é tão significativa, pois sabemos que o objetivo dessa luta é restaurar o ícone de Deus que foi destruído. Particularmente neste período, a Igreja mobiliza todas as suas forças para ajudar cada um de nós a completar nossa própria luta e alcançar nosso objetivo. A Igreja possui armas e remédios espirituais, pois é uma cirurgia espiritual; ela tem os recursos para livrar o corpo e a alma das doenças e sabe como dar saúde às pessoas. Assim, o jejum, a oração, a vigília, a esmola, a Confissão, a participação nos Sacramentos, a Divina Eucaristia, tudo o que a Igreja oferece é o remédio que destrói o mal.
A presença de Deus na Igreja transforma a nossa imagem e realmente nos tornamos como Deus nos criou, à Sua imagem e semelhança. Isso acontece quando uma pessoa entra no reino da graça. E as pessoas que triunfam são aquelas que encontram a chave para entrar no Reino dos Céus, pessoas que aprenderam o arrependimento, que foram capazes de mudar sua maneira de pensar e se humilharam. Mantenhamos este ícone de Deus diante de nós e lutemos contra a iconoclastia do demônio, que deseja destruir a imagem de Deus com a qual fomos revestidos em nosso Santo Batismo.
Metropolita Atanasios de Limassol
tradução de monja Rebeca (Pereira)








