Fragmentos da homilia proferida por São Sofian no Monastério de Antim, no Domingo de São Gregório Palamas, 30 de março de 1986:
São Gregório era um homem muito culto e filósofo. Antes dos vinte anos, já havia compreendido a filosofia da época com sua mente perspicaz; seus mestres se maravilhavam com a extraordinária luz que preenchia a mente do jovem, à qual se somava a graça proveniente da prática da oração, invocando o Nome do Senhor. São Gregório defendeu a oração com esses poderes, essas armas, mostrando que, por meio dessa oração, o próprio Deus opera no orante, conduzindo-o à deificação.
Talvez você se lembre de que o Salvador Cristo foi transfigurado no Monte Tabor e, em certo momento, enquanto orava — o Evangelho diz “enquanto orava” (Lc 9,29) —, Seu corpo e Suas vestes começaram a brilhar mais intensamente que a luz do sol. Seu rosto também brilhou, de tal forma que não se podia contemplá-Lo. O mesmo aconteceu com os homens de oração no Monte Athos, defendidos por São Gregório; e o próprio Gregório, depois de aprender a Oração do Coração, ou a Oração de Jesus. Quando orava, especialmente durante a Divina Liturgia, seu rosto brilhava e todos ficavam admirados. Assim, ele comprovou, em palavras e ações, a doutrina que expôs em sua disputa com o monge católico Barlaão e seu discípulo Akindynos.
Dessa controvérsia, a fé correta no poder da graça divina — que nos transforma interiormente e nos ilumina a tal ponto que uma pessoa se assemelha a uma chama de fogo enquanto ora, como fez São Serafim de Sarov — permanece para sempre. Lembremo-nos dessa figura singular na história da prática espiritual da Oração do Coração.
Em sua disputa com Barlaão, São Gregório revela os erros de seu oponente e demonstra a fé correta. Contudo, entre outras coisas, São Gregório afirma que, para crescermos na oração de invocar incessantemente o Nome do Senhor, precisamos nos esforçar muito para adquirir o desapego, irmãos e irmãs. Se alguém está irado, pensa em prazeres carnais, pensa apenas em comida e bebida, se seu coração está sempre em conflito com alguém, então, mesmo que essa pessoa ore, a Oração de Jesus não cria raízes em seu coração e em sua vida.
O desapego — esvaziar nosso coração de tudo o que é mau e impuro — é necessário para abrir espaço para a graça divina dentro de nós; somente então o Espírito de Deus realmente opera em nós. Caso contrário, se este vaso estiver contaminado por pecados e maldade, o Espírito Santo circula ao nosso redor, respeitando nossa liberdade; Ele circunda e não entra, nem transforma essa “sujeira” dentro de nós. Ele espera que colaboremos com Ele, isto é, que lutemos. Portanto, recomenda-se o ascetismo, o jejum, as vigílias, a oração e a humildade de coração. Se estes estiverem presentes, então nossa invocação do Nome do Senhor dará frutos.
Outro aspecto desta oração é a atenção, irmãos e irmãs. Quando oramos, não apenas a Oração de Jesus — uma oração de elevada importância espiritual — mas também em nossas orações diárias (orações da manhã, orações da noite, salmos, Acatistes, a Paraklesis à Theotokos, Cânones de arrependimento), se orarmos apenas com os lábios e lermos o texto apenas com os olhos, enquanto nossa mente está longe do que estamos dizendo, isso é uma afronta à oração — uma afronta, uma zombaria. Em nosso diálogo com Deus, lemos Cânones inteiros para Ele, lemos a Paraklesis à Theotokos, Acatistes, salmos e outras orações, e depois de um tempo — depois de uma ou duas páginas — percebemos que nossa mente está completamente em outro lugar. Durante esse tempo, não oramos, mas insultamos a Deus, desonrando-O, estando preocupados com os pecados e as aflições que nos escravizam.
[…]
Irmãos e irmãs em Cristo, assim como alguém que quer aprender a nadar engole água de vez em quando até aprender a nadar com a prática, também se aprende a orar orando. Para que a oração seja verdadeiramente benéfica para nós, ela deve ser feita com atenção em primeiro lugar, pois muitas vezes seguimos certas orientações para orar: oramos por libertação das paixões, mansidão de coração ou reconciliação com nossos inimigos. Se tivermos uma mente clara e atenta durante a oração, também adquiriremos desapego.
São Gregório diz que a oração não cria raízes se não lutarmos contra as paixões dentro de nós. Devemos purificar este vaso de nossa alma e corpo. O desapego vem da oração se tivermos verdadeiramente um coração puro, humildade, contrição e choro pelos nossos pecados. “Um coração quebrantado e humilde de Deus não desprezará.” (Sl 50,17) Portanto, a primeira condição para a oração é a atenção, com a qual devemos seguir as palavras das orações que lemos ou recitamos. Devemos estar presentes diante de Deus, sabendo que estamos falando com Alguém!
Irmãos e irmãs, tudo o que dizemos ao longo da vida é ouvido e registrado por Alguém. Parece que estamos sozinhos, livres e podemos dizer qualquer coisa. Mas isso não é verdade! Cada palavra é recebida por Alguém, é captada por Alguém e, em algum momento, seremos confrontados com cada palavra que proferimos. Não sou eu quem diz isso, mas o próprio Senhor Jesus Cristo, quando nos informa que, no Dia do Juízo Final, cada um de nós terá que prestar contas de cada palavra vã proferida em nossa vida (Mateus 12:36). Portanto, devemos estar atentos às nossas orações e às palavras que proferimos, e devemos proferi-las com humildade e com a consciência de que Alguém as ouve, as registra e pode responder aos nossos pedidos. Mas se nossa mente se desviar para outras preocupações e pensamentos, nossa oração se torna um insulto, não uma oração ou um pedido pelo qual precisamos da resposta de Deus.
Você sabe muito bem como é curta a oração conhecida como Oração de Jesus: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador”. Apesar de curta, essa oração contém em si todas as orações da Igreja.
A primeira parte da oração é um reconhecimento do Mestre de todos, de Deus que Se fez carne em Jesus Cristo (“Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus”), que pode nos ajudar em qualquer circunstância e nos conceder qualquer coisa. Cristo Salvador, na véspera de Sua Paixão, diz: “Até agora, nada pedistes ao Meu Pai em Meu Nome. Pedi em Meu Nome tudo o que desejardes e vos será dado, em Nome de Jesus Cristo (cf. Jo 16,24). Pedi qualquer coisa em Nome de Jesus Cristo! Podemos pedir qualquer coisa e nos será dada. Na primeira parte desta oração, há uma autoridade suprema, que é a fonte de todas as coisas boas e do poder divino ao qual nós, humanos, nos dirigimos.
A segunda parte da oração, “tem piedade de mim, pecador”, é o subsolo, o mundo terreno em que nós, humanos, nos encontramos, tendo diferentes tipos de necessidades. E nossas necessidades e problemas são expressos nesta breve palavra: “tende piedade de mim, pecador”. “Tem misericórdia de mim” expressa todas as nossas necessidades, de qualquer tipo. E assim, como eu disse, esta oração contém em si todas as súplicas da Igreja. E se a recitarmos com atenção, com espírito humilde, com a consciência da presença de Deus que pode nos ajudar, então, sem dúvida, nosso coração se transformará — algo acontecerá em nosso coração.
Quem recita esta oração frequentemente ao longo do dia, centenas de vezes, em silêncio ou em voz alta, não pode deixar de sentir algo em seu coração. Uma sensação de paz, liberdade, alegria, profunda quietude; podemos suportar todas as dificuldades ao nosso redor com mais facilidade. Então vemos como superficiais, como fracas são essas dificuldades diante do poder que nos fortalece por dentro — se pedirmos ajuda o máximo possível, isto é, se nossa mente estiver continuamente voltada para o Nome de Jesus Cristo, invocando-O em nosso auxílio.
Esta oração é proferida em silêncio ou em voz alta, utilizando o método da respiração. Respire lentamente, prendendo a respiração durante a primeira parte da oração enquanto diz: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus”, e após expirar, durante a segunda parte, diga: “Tem piedade de mim, pecador”.
Esta repetição rítmica da oração, como já mencionei, tem um efeito benéfico sobre o nosso ser interior. Se pudéssemos adquirir desapego, se pudéssemos cortar e extirpar as paixões dentro de nós, poderíamos nos tornar como os santos, como chamas de fogo, através desta oração. Lembrem-se da vida de São Serafim de Sarov, quando ele orava, seu rosto brilhava como brasas. O discípulo que estava na presença de São Serafim ficava maravilhado com o que via e sentia: uma alegria e uma paz que nunca havia experimentado antes em sua vida cotidiana (Nota: Conversa de São Serafim de Sarov com Nikolai Motovilov).
Contudo, para que isso aconteça, devemos cuidar de purificar este vaso interior, este vaso ou templo do Espírito Santo que cada um de nós é; como diz São Paulo: “Acaso não sabeis que sois templo do Espírito Santo e que trazeis Deus dentro de vós?” (cf. 1 Cor 6,19). Se honrarmos este templo do Espírito Santo em nós e invocarmos a graça divina — o poder de Deus em nós — para o preencher, então, sem dúvida, a nossa vida interior renascerá e seremos uma alegria para todos os que nos rodeiam; através da oração, poderemos ajudar aqueles que não conseguem orar e que necessitam de oração.
É tudo o que direi, irmãos e irmãs, sobre esta oração de invocar o Nome do Senhor, e exorto-vos a orar o mais frequentemente possível, invocando o Seu Nome. Pois, na verdade, essa oração tem suas raízes no Evangelho, na oração do Publicano que estava em algum lugar nos fundos [do templo], junto ao candelabro, e orou com estas poucas palavras: “Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” (Lc 18,13). O Fariseu orava com os braços erguidos e em voz alta para ser ouvido e louvado pelos outros, enquanto o Publicano olhava para baixo humildemente, pensando em seus pecados e se arrependendo deles, proferindo esta oração: “Deus, tem misericórdia de mim, pecador!”. E o Salvador Cristo diz que ele, o Publicano, saiu em situação melhor do que o Fariseu.
Portanto, irmãos e irmãs em Cristo, nos entreguemos à esta oração invocando o Nome do Senhor, seja com a oração do Publicano ou com esta oração: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador”; e com a ajuda de Deus, sentireis os Seus benefícios. Amém.
São Sofian de Antim
tradução de monja Rebeca (Pereira)








