“NÃO CHAMEM A NINGUÉM DE PAI…” ENTÃO, POR QUE O FAZEMOS?

“E a ninguém na terra chameis vosso pai, porque um só é o vosso Pai, o que está nos céus.” (Mateus 23:9) Essa passagem costuma provocar desconforto. Alguns a citam com convicção, outros com confusão. Afinal, se o próprio Cristo disse isso, por que os cristãos continuam chamando sacerdotes de “pai” e “padre”? Teria a Igreja ignorado uma ordem direta do Senhor?

A resposta começa por entender como nosso Senhor Jesus Cristo ensina. Nos Evangelhos, Cristo frequentemente fala de forma forte, até chocante. Ele manda arrancar o olho que escandaliza, cortar a mão que leva ao pecado, “odiar” pai e mãe para segui-Lo. Nada disso é literal num sentido superficial. São hipérboles. Linguagem intensa que força o ouvinte a sair da leitura rasa e a encarar a verdade espiritual por trás das palavras.

Quando Jesus diz para não chamarmos ninguém de pai, Ele não está regulando vocabulário, e sim curando corações. O contexto de Mateus 23 é essencial. Cristo está denunciando os líderes religiosos que amavam títulos, lugares de honra e reconhecimento público. Mestres que usavam a religião para se engrandecer, não para servir. O problema não era o nome “pai”, “rabi” ou “mestre”. O problema era a vaidade espiritual, a substituição de Deus por si mesmos.

São João Crisóstomo explica que Cristo não proíbe o respeito devido aos homens, mas condena aqueles que se apropriam de uma autoridade que pertence a Deus. Quando alguém busca ser chamado de “pai” para ser exaltado, usurpa aquilo que só pode ter sentido quando conduz ao Pai verdadeiro.

A própria Escritura confirma isso. Abraão é chamado de pai da fé. Eliseu chama Elias de “meu pai”. São Paulo escreve aos coríntios: “Fui eu que vos gerei em Cristo Jesus pelo Evangelho” (1 Coríntios 4:15). Ele não hesita em usar a linguagem da paternidade espiritual, porque sabe que ela não compete com Deus, mas aponta para Ele.

Na Tradição da Igreja, isso se aprofunda. Os monges do deserto chamavam seus guias espirituais de Abba, pai. Não como título honorífico, mas como confissão de dependência espiritual. Quem tem um pai espiritual reconhece que não se gera a si mesmo na fé. Que precisa ser conduzido, corrigido, acompanhado.

Quando um cristão ortodoxo chama um sacerdote de “Padre”, não está divinizando o homem. Está reconhecendo um ministério. O sacerdote não é pai por si mesmo, mas por participação. Ele é ícone da paternidade de Deus, assim como o altar é ícone do Reino e a Igreja é ícone do Corpo de Cristo.

Por isso, esse título não deveria inflar ninguém. Pelo contrário: um sacerdote que o escuta com o coração desperto deveria tremer. Ser chamado de “padre” é ser lembrado de que se deve gerar vida espiritual, não controlar consciências; servir, não dominar; conduzir a Deus, não a si mesmo.

São Basílio Magno advertia que aquele que guia almas responderá não apenas por si, mas por aqueles que lhe foram confiados. A paternidade espiritual, quando vivida corretamente, é cruz antes de ser honra.

Cristo não nos chama a uma leitura legalista, mas a uma conversão do olhar. Ele nos ensina a discernir o espírito da lei, não a usá-la como arma. Toda paternidade verdadeira nasce em Deus e retorna a Deus. Fora d’Ele, torna-se caricatura, abuso ou vaidade.

Por isso, o problema nunca foi chamar alguém de pai. O problema é esquecer quem é o verdadeiro Pai. Que aprendamos a honrar os títulos que usamos não com os lábios apenas, mas com vidas coerentes. E que toda palavra que pronunciamos, inclusive “pai”, seja dita de modo que glorifique Aquele de quem procede toda verdadeira paternidade, no céu e na terra.


+ Bispo Theodore El Ghandour

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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