MEU PRÓXIMO, MINHA SALVAÇÃO

Um dos maiores problemas da espiritualidade ortodoxa nos últimos anos tem sido a distorção aplicada à escatologia ortodoxa, ou seja, ao discurso profético sobre os últimos tempos. É comum que pessoas espiritualmente inexperientes, sem qualquer conhecimento real do que significa a Ortodoxia ou do que seu magnífico conteúdo envolve, se apressem em se envolver sistematicamente com o que foi registrado sobre o fim do mundo: seja com uma palavra do Senhor, de um Apóstolo ou de um Santo, mesmo que não estejam em condições espirituais para fazê-lo.

De fato, a principal característica da maioria de pessoas assim, é que elas vão direto ao Apocalipse de São João, sem nunca terem estudado os Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, as Epístolas de Paulo e dos outros Apóstolos, ou seja, sem sequer terem um conhecimento superficial dos textos fundamentais do Cristianismo. Eles reivindicam o direito de analisar e interpretar um livro “selado com sete selos”, sobre o qual um dos maiores intérpretes das Sagradas Escrituras, São Basílio o Grande, confessou ser totalmente incapaz de analisar.

Uma vez que as imagens descritas no Apocalipse de São João e nos textos escatológicos da Igreja em geral serem muito claras e detalhadas, elas são capazes de causar medo e inflamar a imaginação, especialmente quando vistas superficialmente. Isso viola o fato de que a Igreja não usa o medo como instrumento pastoral, nem deseja que as pessoas se aproximem de Deus por medo e forjem um relacionamento com Ele por compulsão.

Além disso, ignoram o propósito para o qual esses textos nos foram dados em primeiro lugar, que é alertar os cristãos de que muitas coisas terríveis acontecerão na história da humanidade, no contexto de uma guerra frenética contra a Igreja Ortodoxa e a verdadeira fé. No fim, porém, Cristo, o Rei Eterno, triunfará e aqueles que permanecerem fiéis a Ele reinarão com Ele para sempre.

O julgamento

A leitura do Evangelho no Domingo do Juízo Final [Mateus 25, 31-46] apresenta as próprias palavras do Senhor a respeito dos últimos tempos. Por que então este texto é lido? Porque uma série de leituras o precedeu, culminando nos dois trechos anteriores, o Publicano, o Fariseu e o Filho Pródigo, que por apresentarem o amor de Deus com tanta lucidez, poderiam nos levar a desconsiderar a Sua justiça. A maneira como Deus nos julgará é descrita para que possamos entender que ninguém escapará da provação divina, e também para que possamos meditar proveitosamente sobre o único evento que é motivo de preocupação, embora não de ansiedade na alma de todo o povo de Deus: na maneira em como nos comportar perante o temido tribunal de Deus e dar uma boa defesa.

O que há de estranho no julgamento de Deus? O fato de não haver menção a pecado e transgressões, mas sim em tudo que parece depender da nossa atitude para com os outros, para com as pessoas individualmente, para com o nosso próximo. Com especial referência do Senhor ao fato de que tudo o que fizemos ao nosso próximo “fizestes a Mim”.

A ferida e a cura

Por que não há nenhuma menção ao pecado? Vamos relembrar como o ato equivocado de Adão e Eva foi cometido e como o pecado e a morte entraram no mundo. A serpente, a principal força motriz do mal, isolou Eva e a levou a uma discussão. Em vez de chamar Adão, para que a raça humana pudesse enfrentar o desafio da tentação como um todo, ela continuou sozinha em um diálogo cuja principal característica era a alteração da noção humana de Deus e do propósito por trás de Sua lei. O início do pecado foi a ruptura entre Adão e Eva, o rompimento do vínculo entre o homem e a mulher, da amorosa dependência de um em relação ao outro. A consequência natural do pecado foi que Eva, ignorando novamente Adão e desprezando sua presença, não só provou do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, como também persuadiu Adão a provar do mesmo fruto, dizendo-lhe: ‘Coma’. Antes de Adão e Eva pecarem contra Deus, pecaram um contra o outro. E antes que a ofensa fosse imputada a Deus, já havia sido imputada um ao outro.

É essa dimensão do pecado que esta leitura do Evangelho visa curar, embora sem sequer mencionar o pecado! Ela inverte o processo da Queda e prioriza o fato de uma boa relação com os outros como ponto de partida e confirmação de uma boa relação com Deus Pai. Se você se mantém distante das outras pessoas, não pode afirmar estar em comunhão com Deus. Por outro lado, aqueles que se importam e se aproximam dos outros com amor, também diminuem a distância que os separa de Deus. Por isso, como uma conclusão maravilhosa, o discípulo do amor escreve: “Aquele que diz: ‘Eu amo a Deus’, e odeia os outros, é mentiroso; pois quem não ama os outros, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1 João 4:20). Esta é a perspectiva para o nosso envolvimento com as últimas coisas: o amor ao próximo como medida do nosso amor a Deus.


Metropolita Ieronymos de Larisa and Tyranos
tradução de Frank Pereira

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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