Hoje, recebi em meu skite 6 jovens sérvios (naturais de Montenegro). Aqui a questão nacionalista é bem intensa, principalmente porque envolve grupos políticos do passado que se colocaram opostamente durante o período em que a Sérvia se viu sob o jugo dos comunistas. E essa ladainha dura até os dias de hoje… aqueles que se chamam четници (tchetnitsi) são a antiga guarda do Rei da Sérvia de outrora, liderado pelo General Draja – lógico que a referência deles esta intimamente relacionada com a identidade sérvia e a fé ortodoxa. Já os партизани (partizani) são aqueles que se opuseram a este movimento e posteriormente formaram a realidade comunista, completamente estranha ao Patriotismo sérvio e consequentemente à fé ortodoxa, são ateus natos, materialistas, comunistas, em uma palavra.
Em nossa conversa comentei sobre os últimos acontecimentos que se deram lugar no rio da cidade nas comemorações da Grande Benção das Águas por ocasião da Teofania. Neste ano, os rapazes reunidos (uma multidão) começaram a entoar cânticos relacionados ao General Draja. No meu ponto de vista – o de uma convertida brasileira (mas, levem em conta que moro nos Bálcãs desde 2004!) – comentei que este caráter da mentalidade dos sérvios de Montenegro não ajuda em nada na compreensão da mensagem do Evangelho de Cristo. São apenas costumes (competição a nado para ver quem pega primeiro a cruz lançada no rio para abençoa-lo) que devem nos remeter a um acontecimento maior, como a Festa da Teofania, por exemplo, e não nos remeter a valores terrenos, chefes de exércitos idolatrados e por fim nos dividir entre grupos políticos que num passado já remoto geraram conflitos fraticidas e traumas em toda identidade de povos (como foi o caso da Sérvia, Rússia, Romênia e todos os outros países, principalmente ortodoxos, que foram vítimas de um sistema que pregava que a fé era o ópio do povo).
Tentei de várias maneiras entender por que este comportamento é ainda cultivado… lógico, que por um lado sempre é mais cômodo ficar na inércia de uma postura já existente na sociedade do que se por em ação a algo novo e que dá trabalho… no entanto, minha pergunta sempre foi: Por que a Igreja permite que este comportamento seja ainda cultivado? Por que permitir e cultivar costumes e tradições que aumentam e fomentam o nacionalismo tomar parte (senão ocupar a parte central) de Festividades de nossa Igreja que devem nos conduzir ao Salvador Que vem morrer na Cruz por nós?
Passadas algumas horas depois de ter despedido estes jovens, meu coração pareceu ainda ficar conectado a este tema… e só agora pude, não sem esforços, perceber que esta é a concepção de identidade destes jovens neste território do globo terrestre – os Bálcãs. A fé é praticamente vivida assim aqui … defendendo território, exaltando chefes de exércitos, entoando cânticos patriotas e semelhantes. Eles não veem nisso nada de anormal, enquanto para mim é inconcebível conceber uma ideologia como instrumento de sua confissão de fé!
E isso tem sua verdade! Num Brasil ainda bebê a nível de Ortodoxia, tais assuntos não têm espaço. Nossa missão é outra, pois nossa mentalidade é outra. No Brasil não precisa se brigar por fronteira com adversários de outras confissões de fé, nossos filhos não são levados em cativo para servir o exército inimigo com os Janissaries, nem temos a pressão quer do Papa, quer do Han para uma aliança formal. Não! Nossa realidade é outra e tudo isso é fora de contexto para nós!
No entanto, o que ficou pra mim selado hoje foi o fato de que devemos ser extremamente flexíveis e compreensíveis para com a missão dos outros, quer povos ou simplesmente irmãos em Cristo. Cada povo tem seu “canal” de missionarismo, seu instrumento de pregação de uma realidade que está relacionada à sua identidade enquanto Povo que escolheu não só seguir a Cristo, mas sofrer e dar a vida por Ele.
Admito, no entanto, que esta questão ainda está em aberto para mim… tema a ser desenvolvido ainda, mesmo após 27 anos vivendo e vivenciando a Fé Ortodoxa em diferentes países e povos, tanto nos Bálcãs como na Euro-Ásia… porque se eu fosse incluir a Bielorússia agora, então precisaria escrever um tratado sobre mentalidades… que ainda não conclui)))
monja Rebeca (Pereira)







