A Santa Quaresma chega como um chamado de Deus no meio do barulho do mundo. Vivemos tempos tensos. Fala-se de guerras, de ameaças, de conflitos que parecem não ter fim. As nações se armam, os discursos se endurecem, e o medo se infiltra nos corações. Ao mesmo tempo, cresce uma indiferença perigosa: um mundo movido por interesses, negócios e cálculos, onde a pessoa humana se torna secundária.
Diante disso, a Igreja não nos convida ao desespero, mas à conversão. A Palavra de Deus diz: “Convertei-vos a Mim de todo o vosso coração” (Jl 2,12). A Quaresma não é apenas um tempo de jejum alimentar, mas um jejum da violência, da dureza, da frieza espiritual. É um retorno à consciência de que cada ser humano é imagem de Deus e que nenhuma lógica econômica ou política pode apagar essa verdade.
Nos ensinamentos dos Santos Padres da Igreja, encontramos um apelo constante à vigilância interior. Eles nos recordam que as grandes guerras começam primeiro no coração. Quando deixamos crescer a inveja, o orgulho, a ambição desmedida, já estamos colaborando, em pequena escala, com a desordem do mundo. A verdadeira batalha é invisível, e é travada no silêncio da alma.
A espiritualidade da Igreja Ortodoxa nos ensina que o jejum, a oração e a caridade caminham juntos. Jejuar sem amar é dieta. Orar sem arrependimento é formalidade. Fazer caridade sem humildade é vaidade. A Quaresma é um caminho integral: corpo, mente e coração voltados para Deus.
Num mundo onde os interesses falam mais alto que a verdade, devemos ser testemunhas de integridade. Num tempo em que a negligência cresce, somos chamados à responsabilidade. Num cenário de ameaças e tensões, somos chamados a ser construtores de paz, começando dentro de nós mesmos.
O Senhor nos diz: “Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). A paz que o mundo não consegue produzir nasce do coração reconciliado com Deus.
Que esta Santa Quaresma seja para cada um de nós um deserto fecundo. Um tempo de silêncio verdadeiro. Um tempo de exame sincero. Um tempo de reconciliação.
Que, ao final deste caminho, possamos celebrar a Ressurreição não apenas como uma festa externa, mas como uma vitória interior: a vitória da luz sobre as trevas, da misericórdia sobre o cálculo, do amor sobre o medo.
Que Cristo nos fortaleça. Que a Sua Cruz nos ensine. E que a Sua Ressurreição renove o mundo, começando por nós.
+ Bispo Theodore El Ghandour








