MARIA DO EGITO E A PRIMAVERA DO ARREPENDIMENTO

Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, um só Deus. Amém.

Hoje lembramos uma mulher que caminhou para o deserto e lá se arrependeu por mais de quarenta anos. Neste Quinto Domingo da Grande Quaresma, a Igreja celebra Santa Maria do Egito.

Nascida em meados do século IV, Maria era uma mulher dedicada aos prazeres. Às vezes é chamada de prostituta, mas esse termo não é realmente preciso, pois ela não aceitava dinheiro em troca de sua libertinagem. Muitas vezes lhe ofereceram, mas ela recusava, sustentando-se principalmente da mendicância. E assim viveu, buscando constantemente novos homens para se envolver em fornicação. Por ser bela, era desejada por muitos e, por isso, levava uma vida “ativa”. Começou esse estilo de vida aos doze anos, após fugir de casa para Alexandria.

Após dezessete anos de uma vida cada vez mais torturante, decidiu peregrinar a Jerusalém para a festa da Exaltação da Cruz, em setembro. Mas não foi para celebrar a festa. Em vez disso, esperava encontrar multidões de peregrinos com quem pudesse saciar sua luxúria, seu desejo constante e avassalador. Ao chegar a Jerusalém, continuou com seu estilo de vida, encontrando novas pessoas para levar à sua busca desesperada por satisfação física.

Por fim, foi conduzida à Igreja do Santo Sepulcro, que abriga o Gólgota, local da crucificação, o lugar mais sagrado para a celebração da festa da Cruz de Cristo. Mas, ao entrar pelas portas daquela igreja abençoada, foi subitamente impedida por uma força invisível. A multidão ao seu redor entrou, mas era quase como se uma grande mão a impedisse.

Naquele momento, algo começou que o mundo nos diz ser realmente impossível. Naquele momento, algo começou que, para o mundo, não é de forma alguma desejável. Maria começou a se arrepender. E ela caminhou além do rio Jordão e continuou se arrependendo por mais de quarenta anos.

Quando ouvimos a palavra arrependimento, é provável que não a interpretemos como algo positivo. Pode despertar sentimentos de culpa. Pode soar como julgamento ou condenação. Pode evocar em nossas mentes imagens de pregadores arrogantes e bombásticos proferindo sermões sobre fogo e enxofre do inferno como raios de deuses irados. Então, por que falamos tanto sobre arrependimento na Igreja Ortodoxa?

Bem, provavelmente devemos começar dizendo que muitas igrejas, ditas ortodoxas, deixaram de falar sobre arrependimento ou tentaram omiti-lo de suas mensagens por considerá-lo pouco atraente para seus fiéis. E certamente não se ouve mais falar muito sobre arrependimento em público. Faz muito tempo que nenhum presidente declarou um dia nacional de jejum e oração, como fez Abraham Lincoln em 1863. Ouso dizer que há algumas coisas feitas por pessoas em público que merecem arrependimento.

Creio que existam dois motivos principais para o arrependimento estar fora de moda. O primeiro é que, como dissemos antes, a maioria das pessoas tem uma imagem dura e dolorosa do que significa arrepender-se. É humilhante. É difícil. É irritante. O segundo motivo é simplesmente que gostamos do pecado — outra palavra que não é muito usada em público atualmente.

Mas, como cristãos ortodoxos, reconhecemos que precisamos nos arrepender. E visto que a proclamação pública do Evangelho sempre começou com a exortação “Arrependei-vos, porque o Reino de Deus está próximo”, primeiro na boca de João Batista e depois na de seu primo, o Senhor Jesus Cristo, devemos nos perguntar o que é realmente o arrependimento. E então devemos nos perguntar por que não devemos fugir do arrependimento, mas sim desejá-lo. E isso nos mostrará como alguém como Santa Maria do Egito pôde se arrepender por tanto tempo.

A palavra para “arrependimento” em grego é metanoia, e consiste em duas palavras gregas diferentes — meta e nous, sendo esta última alterada pelo composto. Meta pode significar muitas coisas, mas aqui significa “mudança” ou “transformação”. E nous é o sentido mais íntimo do ser humano, a faculdade com a qual apreendemos a realidade divina e mística. É o “coração” ou o “olho da alma”. Portanto, metanoia — arrependimento — é a transformação do olho da alma, a mudança do coração. Trata-se de desviar nosso olhar mais íntimo daquilo que é pecaminoso, daquilo que nos separa da vida de Deus, e direcioná-lo para o que é bom, daquilo que nos conecta com a vida do nosso Criador.

Essa é a descrição etimológica e teológica do que significa arrependimento. Mas, para entendermos o arrependimento, creio que precisamos de algumas imagens ilustrativas. O lugar para onde Maria do Egito foi para se arrepender foi o deserto além do rio Jordão. Diz-se que lá ela regou o lugar com suas lágrimas, as lágrimas que derramou por seus muitos anos de maldade e autodestruição.

E é isso que o pecado faz. Não é apenas uma transgressão contra alguma lei cósmica. É autodestruição e nada menos. Às vezes, a destruição é repentina e devastadora, mas outras vezes é a lenta desidratação que transforma o que é fértil na esterilidade do deserto. Foi isso que aconteceu com grande parte do Oriente Médio, aliás — muita terra era fértil, mas, devido ao uso excessivo e inadequado da terra, tornou-se deserto. Assim acontece com os seres humanos. O que é belo, fértil e cheio de possibilidades torna-se, com o tempo, pouco a pouco, seco e sedento.

Contudo, o arrependimento é possível. Quando uma alma se arrepende, a chuva começa a cair. Às vezes, a chuva pode ricochetear no solo duro, por não estar habituado a recebê-la, e por isso pode parecer não fazer nada ou até mesmo causar dor. Mas, com o tempo, a chuva começa a encharcar a terra. E onde antes havia lama e erosão, eventualmente surge fertilidade e crescimento.

O arrependimento é a primavera da alma, e não é de admirar que estejamos agora, nesta Quaresma, tempo de arrependimento, neste exato momento, na primavera? Até mesmo a palavra Quaresma significa “primavera”. Derramamos arrependimento em nossas almas ao nos despojarmos daquilo que nos pesa, daqueles fardos inúteis do pecado que parecem e nos fazem sentir tão bem, mas que, na verdade, são profundamente perigosos para nós. E quando esse arrependimento flui, todas as virtudes de nossas almas, como flores em um jardim, começam a despertar, a brotar e a florescer. Elas estiveram adormecidas durante o longo inverno do pecado, mas agora podem crescer.

Arrepender-se não é sentir-se culpado. A culpa pode nos encorajar ao arrependimento, mas nem sempre. A culpa é apenas a dor de reconhecer o deserto em que nossas almas se transformaram. Mas dor não é arrependimento. Arrepender-se é converter-se, mudar, voltar à vida. Precisamos enxergar que temos um deserto em nossas almas, e às vezes é preciso o abalo de um desastre, depressão, divórcio, drogas ou morte para percebermos isso. Mas não precisa ser assim. Enxergar o deserto interior também pode ser inspirado pelo contato com a verdadeira beleza. Ao contemplarmos a beleza do Éden, a beleza do Paraíso, no amor de nosso Senhor, percebemos que vivemos no deserto. E desejamos o Éden.

E então nos arrependemos. Retornamos ao Éden. Retornamos à vida divina de Cristo, à vida da Santíssima Trindade concedida em comunhão com o Filho de Deus. Isso é o que significa arrepender-se! Significa que nós, que estamos mortos, podemos ser vivificados, que nós, que estamos secos e sedentos, podemos nos tornar férteis e saciados, que nós, que somos viciados, podemos ser libertos.

E foi assim que Maria do Egito pôde viver naquele deserto por décadas. Ela não estava lá se lamentando e se sentindo culpada. Ela estava regando seu jardim. Ela estava cuidando das flores da virtude em sua alma. Ela caminhava com Deus no Éden, assim como Adão e Eva haviam feito. Aquela que fora um deserto em meio à fertilidade tornou-se um paraíso ambulante em meio ao deserto.

Esta Grande Quaresma tem sido a primavera da sua alma? Mesmo que ainda não tenha sido, ainda pode ser. Sempre há esperança. Sempre há misericórdia. Sempre há possibilidade. Arrependamo-nos com alegria, irmãos e irmãs, e assim derramemos a graça de Deus como a tão esperada chuva no deserto de nossas almas.

Ao nosso Deus que dá a vida, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, toda a glória, honra e adoração, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos. Amém.


Sacerdote Andrew Stephen Damick
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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