APOSTASIA
DEUS está morto… Deus vem morrendo no coração dos homens desde que o mundo começou. À medida que o tempo avança, o estado da humanidade piora. Um curso de história é, na verdade, um curso sobre a lenta morte de Deus. Na escola do Niilismo, é um curso sobre a destruição do mundo. Esta é a nossa origem como filhos da guerra. Nascemos sob as águas da apostasia e fomos criados para nos afogar, e nossas muitas lágrimas se misturam a esse oceano.
Quando Caim assassinou seu irmão Abel, essa chuva de apostasia começou a cair. Quando o faraó egípcio escravizou uma nação escolhida, esse clamor foi ouvido debaixo desse oceano. Quando o filósofo grego Sócrates bebeu voluntariamente o cálice da morte em nome da verdade, suas palavras se afogaram nesse mar venenoso. Quando Cristo foi crucificado, Suas lágrimas e Seu sangue superaram esse oceano.
O imperador do que era conhecido no primeiro século como “toda a civilização” enlouqueceu e começou a se enfurecer contra aqueles que buscavam e amavam a verdade. O imperador Nero começou a tocar sua harpa enquanto observava seu próprio povo incendiar, por sua ordem, a capital de Roma. Em sua sacada, observando as chamas e ouvindo seu povo chorar, ele continuou a tocar sua harpa. Nesse momento, até as águas da apostasia secaram e se transformaram nas chamas do Niilismo. A parte assustadora dessa lição de história é que essa canção de insanidade tem sido tocada até hoje, mas passou da beleza do som de uma harpa para a total discórdia e distorção. A canção de Nero foi o início do declínio da civilização ocidental.
Desde então, a distorção foi amplificada pelo grande cisma de 1054, quando a civilização ocidental se separou do Oriente. Por causa dessa discórdia, a parte ocidental do mundo convocou a “Idade das Trevas”, o derramamento de sangue das Cruzadas, o Renascimento e seu renascimento do paganismo. A mente imperfeita do homem começou a substituir o Deus moribundo. A ciência substituiu a metafísica; este mundo ofuscou o céu, e a guerra tornou-se mais fria.
Sobrevivemos a séculos de holocausto e mal estamos vivos. Vivemos as filosofias de Voltaire e Rousseau e testemunhamos o derramamento de sangue de sua filosofia na revolução. Vimos a antiga ordem da moralidade e da tradição ser assassinada por sua “Nova Ordem”. Vivenciamos as ideias de Darwin e abraçamos essa fé em massa; e vimos um vislumbre de suas ideias através dos olhos de Karl Marx quando, inspirado por Darwin, ele disse: “A ideia de Deus deve ser destruída”. E o genro de Karl Marx resumiu a filosofia da época quando disse: “A Origem das Espécies de Darwin retirou de Deus Seu papel como criador no mundo orgânico”. Lenin e Stalin receberam então as chaves do “reino” deste mundo. Stalin era estudante de teologia quando ouviu os escritos populares de Darwin. Ele então chegou à conclusão lógica de que as pessoas são o resultado de um processo evolutivo no qual reina a competição implacável. Esta é a realidade moderna da “sobrevivência do mais apto”. Com essa filosofia, Stalin massacrou mais de 40 milhões de seu próprio povo com as formas mais cruéis de tortura já conhecidas.
Pouco menos de dois mil anos depois de Nero tocar sua canção de destruição, o louco profeta e filósofo do Niilismo do século XX, Friedrich Nietzsche, entoou a mesma canção, invocando a mesma chama para arder ainda mais forte. Foi ele quem declarou Deus “morto ao chegar” por seu desprezo pela religião, e pelo cristianismo em particular. Foi ele quem desferiu o golpe devastador naqueles que acreditavam em Deus ao dizer: “Deus está morto”. Nietzsche queria encarar a vida diretamente, sem Deus a obstruir sua visão, e o que ele viu foi agonizante para sua mente.
Os escritos e a filosofia de Nietzsche abriram as portas do inferno não apenas para a crença na inexistência da verdade, mas, com suas ideias de Niilismo, deram a tão aguardada justificativa para o assassinato. No início do século XX, certo homem se inspirou no que leu na filosofia de Nietzsche e agiu com base nessa inspiração. Esse homem foi Adolf Hitler. Após ler sobre a filosofia de Nietzsche de que os inferiores e os fracos deveriam ser destruídos, Hitler personificou o “super-homem” em sua vontade de poder e colocou a humanidade de joelhos. Ele, como Nero, queimou seu próprio povo em seu “Holocausto” e lutou impiedosamente para ser o governante do mundo. Assim, introduziu uma “Guerra Mundial”.
Foi a guerra que deu origem às primeiras “contraculturas”, as primeiras rebeliões aceitáveis em escala popular, os primeiros protestos da “Geração Beat” e ao novo estilo de música chamado “Jazz” e “Blues”. Eles cantavam canções que eram a voz de uma busca confusa por respostas em meio a um mundo de violência. Eles se afastariam dos caminhos do mundo “moderno”, que não fazia sentido. Mas o clamor na progressão da música ficou mais alto com o nascimento da música “rebelde”, com uma borda mais dura, chamada “Rock”. Então a banda popular chamada Beatles fez uma declaração que resumiu o espírito da época: “Somos mais populares do que Jesus Cristo”.
E então, mais uma vez, a guerra deu origem a outra “contracultura” que levou isso quilômetros além dos “Beats”, com ideais ainda maiores, embora ainda não totalmente definidos. Essa “contracultura” foi chamada de “movimento hippie”. Com o “amor livre”, deram origem ao conjunto inrastreadável de modas e movimentos que compõem o fim do século XX. A geração de jovens de hoje, com as “contraculturas” de punks, atletas, excluídos, skinheads, metalheads, mods, hippies, jovens do gueto, gangsters, skatistas, posers e alternativos, compõe esta geração em busca de identidade: Geração X.
Em todos esses diferentes movimentos, há um elemento que os une. Há um clamor comum; há uma mensagem que todos pregam: Niilismo. À medida que o tempo avança, a confusão aumenta e a máquina trabalha cada vez mais rápido. A juventude de hoje não pode deixar de ser queimada e marcada para a vida por essa máquina. Não há ninguém para nos dizer que o fogo queima; assim, precisamos aprender da maneira mais difícil e esperar não morrer no processo.
É fácil demais dizer que nós, os filhos da era moderna, não somos afetados pela história do Niilismo, e ainda assim nos sentamos sobre cinzas: uma criança abandonada em um deserto de apostasia, sobreviventes solitários de séculos de holocausto, sem ninguém para apontar a direção do lar, pois tudo foi destruído.
Nietzsche, a voz da Geração X, de maneira assustadora retratou esses tempos sem Deus e definiu a experiência da juventude de hoje em sua parábola, “O Louco”.
Vocês não ouviram falar daquele louco que acendeu uma lanterna nas claras horas da manhã, correu para a praça do mercado e gritou incessantemente: “Estou procurando Deus, estou procurando Deus!” Como muitos dos que não acreditavam em Deus estavam reunidos ali, ele provocou grande riso. “Ora, ele se perdeu?”, disse um. “Perdeu o caminho como uma criança?”, disse outro. “Ou está se escondendo? Tem medo de nós? Partiu em viagem? Ou emigrou?” Assim gritavam e riam. O louco saltou para o meio deles e os atravessou com o olhar.
“Para onde foi Deus?”, gritou. “Eu lhes direi. Nós o matamos — vocês e eu. Todos nós somos seus assassinos. Mas como fizemos isso? Como fomos capazes de beber o mar inteiro? Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? O que fizemos quando desacorrentamos esta terra do seu sol? Para onde ela está se movendo agora? Para onde estamos nos movendo agora? Para longe de todos os sóis? Não estamos caindo continuamente? Para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Ainda existe um acima ou um abaixo? Não estamos vagando como através de um nada infinito? Não sentimos o sopro do espaço vazio? Não ficou mais frio? Não está a noite, e cada vez mais noite, chegando o tempo todo? Não precisam ser acesas lanternas pela manhã? Ainda não ouvimos o ruído dos coveiros que estão enterrando Deus? Ainda não sentimos o cheiro da decomposição de Deus? Deuses também se decompõem. Deus está morto. E nós o matamos. Como nós, os assassinos de todos os assassinos, nos confortaremos? O que havia de mais santo e mais poderoso de tudo o que o mundo já possuiu sangrou até a morte sob nossas facas. Quem limpará esse sangue de nós? Que água existe para nos purificarmos? Que festas de expiação, que jogos sagrados teremos de inventar? Não é a grandeza desse feito grande demais para nós? Não devemos nós mesmos nos tornar deuses apenas para parecermos dignos dele? Nunca houve um feito maior; e quem nascer depois de nós — por causa desse feito, fará parte de uma história mais elevada do que toda a história até agora.”
Aqui o louco calou-se e olhou novamente para seus ouvintes; e eles também se calaram e o encararam com espanto. Por fim, ele jogou sua lanterna no chão, e ela se quebrou e se apagou.
A juventude de hoje também parece ter procurado Deus freneticamente, mas, na inocência de sua juventude, o mundo lhes disse com risos: “Ora, ele se perdeu?” Assim, eles jogaram sua lanterna no chão, e ela também se apagou.
st. Herman of Alaska Brotherhood
tradução do Diácono André Souza








