JUSTIÇA E INJUSTIÇA – PARTE 1

 “Se todos os homens fossem injustos comigo, isso seria uma bênção! Digo sinceramente. As mais doces alegrias espirituais que senti, foram devidas às injustiças que sofri.”

A ACEITAÇÃO DA INJUSTIÇA

A atitude correta diante da injustiça

 – Geronta, quando me sinto injustiçado, meu coração se torna endurecido.

 – Para que seu coração não se endureça, nunca pense que as outras pessoas estão em falta, ou quanto alguém está em falta, mas no quanto você mesmo está em falta. Veja, quando uma pessoa está em desacordo com outra, cada uma delas pensa que está certa, e que tem mais direitos do que a outra pessoa, e assim elas prosseguem em constante desavença. Por exemplo, elas vão à polícia e cada uma diz: “Ele me bateu”, sem revelar o quanto ela bateu no outro, e exige punição.

 Se apenas nos lembrarmos de que Cristo sofreu a maior injustiça de todas, aceitaremos com alegria toda injustiça que cometem contra nós. Embora fosse Deus, Ele desceu à terra desde o infinito amor, e aceitou ser confinado ao útero da Panaghia por nove meses. Dos quinze aos trinta anos, Ele trabalhou como carpinteiro no meio dos judeus. Mesmo as ferramentas que ele usava naqueles dias eram muito rudimentares, e era preciso trabalho duro para transformar peças brutas de madeira em mobiliário. É difícil para nós imaginarmos o quanto era difícil o ofício de carpinteiro naqueles tempos. E, depois disso, Jesus suportou três anos de provações, viajando e pregando de pés descalços. Ele curou os enfermos, restaurou a vista ao cegos com saliva e lama, e ainda assim eles Lhe pediam que Ele lhes mandasse sinais e milagres. Ele expulsou demônios dos possessos, mas o povo ingrato acusou-O de estar possuído por demônios! E, apesar de que tantos tenham falado e profetizado a seu respeito, e depois de ter realizado tantos milagres, no final Ele foi escarnecido e crucificado.

 É por isso que os que sofrem injustiça são os mais amados por Deus. Como pessoas injustiçadas, elas carregam o próprio Cristo injustiçado em seu coração, e se alegram no exílio ou na prisão como se estivessem no Paraíso, porque, onde Cristo está, aí é o Paraíso.

 – Geronta, é possível a alguém carregar tamanho peso?

 – Deus nunca o carrega além das suas forças. As pessoas decaídas sobrecarregam os outros com pesos que não se pode suportar. O Deus Benevolente muitas vezes permite que as pessoas boas sofram nas mãos de gente má, para que elas possam obter as bênçãos dos Céus.

 – Geronta, as reclamações estão relacionadas com a ingratidão?

 – Sim. É muito comum que alguém não se dê conta de quanto cuidado lhe é dispensado, e passe a reclamar de ser injustiçado e maltratado. Se a pessoa não vigia a si mesma, quando ela comete um erro e lhe dizem que tome cuidado, ela pode facilmente se sentir injustiçada, e se tornar ainda mais insolente. Por exemplo, uma Irmã pode usar demasiado pesticida, queimando as oliveiras. Alguém a adverte disso, mas, ao invés de reconhecer sua falta e pedir desculpas, ela se sente injustiçada e começa a reclamar. “Foram malvados comigo. Se a lagarta viesse e destruísse as árvores, ninguém diria nada, mas como fui eu a causa de sua destruição, estão gritando comigo. Ó Senhor, só você me entende!”. E as lágrimas correm. Ela pode até sentir certa alegria, pensando na recompensa que terá por ter sido injustiçada, e assim expressar sua gratidão a Cristo! Isso constitui um falso entendimento da situação, um erro muito sério.

A alegria de aceitar a injustiça

 – Geronta, quando eu aceito com alegria uma reprimenda por um erro que cometi, é porque eu tenho sentimentos puros?

 – Veja, se você causou dano e as pessoas o repreendem, e você não reclama, mas, ao contrário, se alegra, dizendo, “Glória a Deus, eu precisava dessa reprimenda”, você tem apenas metade da alegria. Mas, se você não causou nenhum dano e é injustamente repreendido, e se o aceita com bons pensamentos, então sua alegria será completa. Não digo que você deva procurar por reprimendas injustas, porque dessa maneira o diabo vai envolvê-lo no pecado do orgulho, mas que você deve aceitar a injustiça quando ela vem a você naturalmente, e se alegrar com isso.

 Existem quatro estágios no confronto com a injustiça. Digamos que alguém o acusa injustamente. Se você estiver no primeiro estágio, você ataca de volta. Se você estiver no segundo estágio, você irá se sentir triste por dentro, mas saberá controlar-se e nada dizer. No terceiro estágio, você não se sentirá abalado pela injustiça. Mas no quarto estágio, você experimentará uma grande alegria, uma felicidade espiritual extraordinária. Quando alguém é acusado e prova não ter sido sua a falta, ele é justificado e se sente satisfeito. Nesse caso, ele sente uma alegria mundana. Mas se ele confronta a injustiça espiritualmente, com bons pensamentos, e sem tentar provar sua inocência, ele experimentará uma felicidade espiritual. Isso acontece quando ele sente uma consolação divina no coração, e se move no reino da doxologia, glorificando a Deus. Você tem ideia da alegria que sente a alma quando é acusada e não tenta se justificar, para que as pessoas digam “Bravo!”, ou “Desculpe-nos”? Ela se alegra mais por ter sido acusada do que por ser justificada. Aqueles que buscam essa condição espiritual agradecem aos que os acusaram, pela alegria que isso trouxe às suas vidas e também pela vida eterna que lhes assegurou. Quão diferente é a alegria espiritual da mundana!

 Na vida espiritual, as coisas são ao contrário quando você é deixado no fim da fila, você se sente bem, e quando você deixa esse lugar para outra pessoa, você se sente mal. Quando você aceita uma injustiça e está preparado para justificar seu próximo, você aceita o próprio Cristo em seu coração, Cristo que também foi acusado e injustiçado. Quando isso acontece, Cristo não pode ser retirado de seu coração, e o enche de paz e felicidade. Tente isso, filho, e experimentará essa grande alegria! Aprenda a ser feliz com essa alegria espiritual, não com a alegria mundana, e cada dia se transformará numa Páscoa.

 Não há maior alegria do que a que você sente quando aceita a injustiça. Eu gostaria que todo mundo fosse injusto comigo! Eu posso lhe dizer honestamente que a alegria espiritual mais doce que eu já experimentei foi quando aceitei a injustiça. Você não sabe como fico feliz quando alguém me diz que eu errei! “Glória a Ti, ó Deus!”, eu digo, “eu obterei uma recompensa por isso, enquanto que, se alguém me chamar de santo, eu estarei em débito”. Não há nada mais doce do que suportar a injustiça.

 Certa manhã, na minha Kaliva, alguém bateu à porta. Eu olhei pela janela porque não tive tempo de abrir a porta. Vi um jovem com o rosto iluminado e percebi que ele tivera experiências espirituais, pois a Graça de Deus em sua face o denunciava. Por essa razão, ainda que eu estivesse ocupado, interrompi o que estava fazendo, abri a porta e o convidei a entrar. Ofereci-lhe água e comecei a lhe perguntar sobre sua vida, vendo que ele tinha um conteúdo espiritual. Então lhe perguntei, “O que você faz para viver, jovem?”. “O que faço para viver?”, ele respondeu. “Eu cresci na prisão, e passei a maior parte da minha vida ali. Agora eu tenho vinte e seis anos”. “E o que você fez para ser posto na prisão, jovem?”, indaguei. “Quando eu era jovem, me entristecia com as pessoas que sofriam. Eu conheci todo esse povo sofredor, não apenas na minha paróquia, como de outras paróquias. Como o Padre e o Conselho da paróquia estavam constantemente reunindo fundos para construções, galpões, para reparos diversos, eles acabavam por negligenciar as famílias pobres. Eu não julgava se tais projetos eram necessários ou não, eu apenas via que havia muitas pessoas desafortunadas e com necessidades. Eu passei a roubar em segredo o dinheiro dos diferentes projetos. Eu consegui bastante dinheiro, mas não todo. Eu comprava comida e outras coisas, que deixava na porta das pessoas pobres sem que me vissem. Então eu ia diretamente à polícia e confessava, “Eu roubei o dinheiro da Igreja e o gastei”, sem mais dizer; eu não queria que qualquer pessoa fosse acusada injustamente. Eles me batiam, me ofendiam, e eu ficava em silêncio. Então eles me colocavam na cadeia por algum tempo. Isso continuou por anos. Toda a cidade, de uns trinta mil habitantes, e outras cidades vizinhas, me conheciam e me ridicularizavam como um notório ladrão. Eu ficava quieto e sentia uma alegria interior. Houve uma vez em que me trancaram na cadeia por três anos. Algumas vezes eles me prendiam injustamente por algum tempo, e quando pegavam o verdadeiro ladrão, me soltavam. Se não encontrassem o culpado, eu ficava na cadeia cumprindo a pena. É por isso que lhe digo, Padre, que a maior parte da minha vida eu passei na cadeia”. Eu o ouvi atentamente, e lhe disse: “Jovem, embora isso pareça bom para mim, não é bom, e você não deve voltar a fazê-lo. Ouça o que direi. Você fará o que vou lhe dizer?”. Ele respondeu: “Sim, Padre”. “Eu quero que você volte para sua cidade, ou para outra cidade onde eu conheça pessoas que o ajudarão a se estabelecer. Ali você irá trabalhar e ajudar as pessoas pobres tanto quanto puder, com seu salário. Isso tem muito valor. Mas, mesmo quando alguém não tem o que dar aos pobres, mas sente compaixão genuína por eles em seu coração, essa é uma oferenda superior, porque ele tem a caridade em seu coração. Pois, se ele tivesse o que dar, ele sentiria alegria, mas, como não tem, sente dor no coração” Ele prometeu seguir meu conselho e partiu alegremente.

 Sete meses depois, eu recebi uma carta sua da prisão de Korydallos, na qual ele escreveu: “Reverendo Padre, certamente você ficará surpreso de receber uma carta minha dessa prisão, depois do conselho que me deu para que eu reformasse minha vida e da promessa que lhe fiz. Quero que saiba que estou cumprindo uma sentença prisional que eu já havia cumprido. Aconteceu um erro. Graças a Deus que não existe justiça humana, caso contrário as pessoas espirituais se veriam privadas de suas recompensas celestiais”. Quando eu li as últimas palavras dessa carta, fiquei maravilhado com esse jovem, que tomou tão a sério a vida espiritual e compreendeu o sentido profundo da vida! Ladrão, em Nome de Cristo! Ele tinha Cristo em seu coração. Ele não conseguia se conter, com a alegria que experimentava. Ele possuía uma loucura divina em si e experimentava uma celebração espiritual.

 – Geronta, ele recebia essa alegria do ridículo das pessoas?

 – A alegria provinha da injustiça. Ele era um homem mundano, que não lera as Vidas dos Santos nem os escritos dos Santos Padres. Ainda que ele tenha sido injustamente acusado, preso e ridicularizado como o ladrão da cidade, ele manteve o silêncio e encarou a tudo de um modo espiritual! Ele era um jovem que não procurava se estabelecer, mas apenas ajudar os demais! Ladrões notórios raramente são encarcerados, enquanto esse jovem foi preso duas vezes pelo mesmo roubo, e foi enjaulado injustamente por outros roubos, até que encontraram o verdadeiro ladrão. Mas a alegria que esse jovem experimentou não poderia ser encontrada em toda a população daquela cidade. Trinta mil pequenas alegrias, toda a população da cidade, não alcançariam aquela enorme felicidade.

 É por isso que eu digo que um homem espiritual simplesmente não tem tristezas. Quando seu amor aumenta e seu coração é agraciado com a divina paixão, não há lugar para angústia ou tristeza. O grande amor por Cristo ultrapassa a dor e os sofrimentos causados pelo povo.

As recompensas pelas injustiças

 – Geronta, quando eu sou injustamente por alguma coisa que uma Irmã disse a meu respeito, eu não consigo suportar e fico fria em relação a ela.

 – Espere um minuto! O que a Regra da Igreja diz a esse respeito? Como classificamos isso? Como você pode ser mais ajudada? Vamos assumir que as coisas sejam como você diz, e que você não cometeu falta. Pois bem, se você tivesse sido injustamente acusada, então você se beneficiaria espiritualmente. A outra pessoa, caso tenha dito algo contra você para justificar-se, será mais tarde censurada por sua consciência; ela se arrependerá, e olhará para você com mais amor. Isso significa duas ou três coisas ao mesmo tempo. Desse modo você terá tido a oportunidade de ser enriquecida e se tornar uma senhora nobre, não uma cigana das ruas. Uma vez que Deus lhe dá a oportunidade de se tornar uma pessoa nobre, capaz de dar a outras pessoas, por que você desejaria permanecer como uma cigana?

 – Geronta, meu pensamento insiste que eu deveria perguntar à Irmã de que maneira ela interpretou meu comportamento e assumiu que eu era culpada.

 – Sem dúvida é esse o caso, porque o diabo não suporta ver você receber uma recompensa celestial. Ele pressiona você a buscar justificação para si e expulsar Cristo de si mesma.

 – Geronta, de tempos em tempos, quando cometo um erro, eu gostaria de receber um pequeno perdão das outras pessoas.

 – Por que, você quer se justificar? Digamos que elas o fizesse. Espiritualmente, você ganha ou perde com isso?

 – Eu perco.

 – Se você possuísse uma loja, você gostaria de ter perdas ou ganhos?

 – Ganhos.

 – Então, se você não quer ter perdas em seus negócios mundanos, quão mais cuidadoso não deverá ser para não se prejudicar espiritualmente! As pessoas do mundo buscam ganhos materiais e evitam as perdas; será correto que as pessoas espirituais desdenhem os ganhos espirituais? Mas, mesmo que as pessoas do mundo desperdicem seu dinheiro, elas estarão perdendo apenas coisas materiais, enquanto que nós, quando não aceitamos a injustiça, perdemos coisas espirituais e celestiais. Aqui se consome de tudo. Por que negociar o espiritual com o terrestre? Ademais, o infeliz povo desse mundo ignora a vida espiritual, enquanto que nós estamos cientes dele; esposamos a vida monástica para ganhar os Céus, e ainda que tenhamos iniciado num lugar, terminaremos em outro. É muito desgostoso ver uma pessoa do mundo executada, presa ou simplesmente perseguida injustamente. Mas nós, monges e monjas, devemos procurar essas coisas e suportá-las por amor a Cristo. Devemos buscar a desonra, a rejeição, o insulto, porque eles trazem benefícios às nossas almas. Por exemplo, um pai de família tem necessidades, e tenta se justificar porque está pensando em como sua família sobreviverá se ele perder sua reputação e falir. Por essa razão, as pessoas do mundo têm uma desculpa, mas nós, monges e monjas, não.

 Quando somos acusados e aceitamos essa injustiça, de fato, ganhamos. Por exemplo, eu sou falsamente acusado de haver cometido um crime, e sou preso injustamente? Isso é ótimo. Minha consciência está limpa, uma vez que eu não cometi tal crime e, acima de tudo, eu recebo uma recompensa celestial. Pode haver maior benevolência? Eu não reclamo a Deus; ao contrário, eu glorifico a Deus, “Como posso agradecer-te, meu Senhor, por não ter cometido esse crime? Se eu o tivesse feito, eu estaria pronto a carregar o fardo do remorso”. É por isso que a prisão pode se tornar um Paraíso. Alguém me acusou injustamente? “Glória a Ti, Senhor! Talvez eu esteja pagando por um pecado, pois, também eu acusei alguém alguma vez”. Fui insultado injustamente? “Glória a Ti, Senhor! Eu o aceito por amor a Ti, pois também Tu foste golpeado e esbofeteado por mim”.

O Tesouro nos Céus

 – Geronta, eu fico triste quando os outros não pensam bem de mim.

 – O que você me conta é ótimo! A partir de agora, você irá orar para que os outros não tenham uma boa opinião a seu respeito, pois isso será para seu benefício, minha criança. Deus providencia para que pessoas pensem mal de nós ou para que nos digam palavras perturbadoras que nos ajudem a redimir algum débito ou pecado, ou para acrescentar ao nosso tesouro nos Céus. Eu não consigo entender o que você imagina que seja a vida espiritual. Você ainda não se deu conta do que vem para seu benefício espiritual, e espera ser pago inteiramente aqui; você não deixa nada para os Céus. Por que você vê as coisas dessa maneira? O que você tem lido? Você leu o Evergetinos[1]? Não fala ele do que se deve fazer? Você lê o Evangelho? Leia-o todos os dias.

 – Geronta, quando faço algo de bom, fico triste se os outros não o apreciarem.

 – Mas o que você quer, a aprovação de Cristo ou das outras pessoas? Não receberá você uma bênção maior pelo reconhecimento de Cristo? em que o auxiliará obter o reconhecimento das pessoas? Se as pessoas reconhecerem o bem que você fez, espere para ouvir na próxima vida: “Você já recebeu sua recompensa em vida[2]”. Devemos nos alegrar quando os outros não reconhecem nossos esforços e não nos retribuem, porque então esses esforços entrarão na conta de Deus, e Ele nos retribuirá com uma recompensa eterna. Uma vez que essa recompensa existe, devemos reservar algumas dracmas para o Tesouro de Deus. Devemos aceitar a injustiça como uma grande bênção, porque esse é um meio para obtermos as bênçãos espirituais.

 – Geronta, quando alguém aceita a injustiça, não por pensar no Julgamento futuro, mas apenas por considerar como uma boa coisa, isso está certo?

 – Bem, isso não conduzirá à mesma coisa? Claro, devemos tomar cuidado para não fazê-lo apenas para ser uma boa pessoa, como o fazem os Europeus. Devemos estar conscientes de que fomos criados à imagem de Deus e que estamos destinados a crescer na semelhança de nosso Criador. Se essa motivação está colocada então a pessoa está se movendo na direção certa. Caso contrário corre-se o perigo de cair no humanismo[3] dos Europeus.

A santa hipocrisia

 – Geronta, quantos anacoretas[4] vivem no Monte Athos?

 – Eu não sei. Alguns dizem que são sete. De alguns anos para cá está sendo muito difícil encontrar um local quieto e viver asceticamente. É por isso que alguns Padres, quando ainda havia mosteiros idiorrítmicos[5] na Montanha Santa, procuraram outros caminhos para viver asceticamente. Por exemplo, eles podem dizer: “Não me sinto em paz no monastério; irei a algum monastério idiorrítmico para trabalhar e ganhar algum dinheiro”, e os Padres acreditarão nele. Eles, de fato, seguem para um monastério assim e trabalham por três ou quatro meses, e depois exigem um alto pagamento. Quando isso lhes é negado, eles dizem: “É indigno ficar aqui; vou embora”. Recebem algum pão seco e se vão, buscando alguma caverna remota onde se escondem e vivem asceticamente. Os outros pensam que ele se foi para trabalhar em outro monastério. E, quando os Padres perguntam naquele monastério a respeito de tal ou qual monge, receberão como resposta: “Sim, ele esteve aqui, uma pessoa muito peculiar. Ele queria receber dinheiro e pediu um alto pagamento. Um monge exigir pagamento! Que tipo de monge é ele?”. Como resultado, esses anacoretas recebem uma bênção por seus trabalhos ascéticos e pela condenação dos demais, e até de ladrões. Pois os ladrões ouvirão que esses anacoretas receberam dinheiro e irão procurá-los. Depois de torturá-lo para encontrar o dinheiro, nada encontrarão e o deixarão a sós.

 – Geronta, como posso imitar a virtude de uma Irmã se ela a esconde?

 – Ela seria louca se não a escondesse. Os Santos colocam mais esforço em esconder suas virtudes do que em adquiri-las. Você sabe o que fazem os loucos de Cristo? Primeiramente, eles escapam da hipocrisia do mundo e penetram no reino da verdade evangélica. Mas isso ainda não é suficiente para eles, e eles avançam a um outro patamar, conhecido como a santa hipocrisia pelo amor a Cristo. Tendo alcançado isso, eles já não se perturbam, não importa o que façam com eles, ou o que digam deles. Mas, para alcançar esse estado, é preciso um grande trabalho de humilhação. Enquanto que um leigo ficaria ofendido se fosse dito algo negativo a seu respeito, ou se não fosse elogiado por algo que fez, esses anacoretas ficam realmente alegres quando pensam mal deles.

 Antigamente, havia alguns Padres que pretendiam estar possuídos por um demônio, para esconder sua virtude e dar causa a outros de mudar o alto conceito que tinham deles.  Quando eu estava no Monastério de Philoteou, que nessa época era idiorrítmico[6], havia ali um Padre que antes levara uma vida ascética em Vigla[7]. Assim que os Padres de lá se deram conta de sua avançada vida ascética, ele pediu a bênção de seu Pai Espiritual e se foi. Ao partir, ele disse. “Estou cansado de comer pão seco amanhecido nesse lugar. Vou para algum monastério iddiorrítmico onde eu possa comer carne e viver como um ser humano normal. Eu seria louco se ficasse aqui”. Então ele foi para o monastério de Philoteou e fingiu ser possuído por demônios. Seus antigos colegas monges ouviram dizer que ele estava possuído por demônios, e disseram, “Que vergonha, o pobre colega foi possuído. Não admira que isso acontecesse com ele, porque nele nos deixou porque estava cansado de comer pão seco amanhecido, e se foi para um monastério iddiorrítmico para comer carne”. Mas o que ele realmente fez?

 Por mais de vinte e cinco anos, ele nem cozinhou, nem dormiu. Por toda a noite, ele andava pelos corredores com uma lanterna e permanecia acordado. Quando ficava cansado, ele se encostava na parede, e, quando começava a cochilar, punha-se de pé recitando a prece de Jesus, “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim”. Então ele continuava a oração em sua mente. Algumas vezes sua voz estremecia com uma violenta explosão da Oração de Jesus, alta o bastante para ser ouvida. E, quando ele encontrava outro Padre, dizia: “Ore, ore por mim, para que o demônio me deixe”. Assim, todos os consideravam possuído por um demônio. Um jovem noviço me disse um dia: “Lá vai o possesso…”, mas eu lhe respondi: “Não o chame assim, ele é um monge virtuoso que finge estar possesso”. Depois disso, o jovem passou a reverenciá-lo. Quando ele morreu, os Padres o encontraram segurando um pedaço de papel que continha o nome de cada monge, e ao lado um apelido sarcástico para cada um, prevenindo assim que, mesmo na morte, lhe dirigissem bons pensamentos. Apesar disso, suas relíquias exalaram uma fragrância maravilhosa. Você vê, ele tentou se esconder, mas a Graça de Deus o revelou.

 Por essa razão, não devemos tirar conclusões sobre as pessoas pelas aparências, especialmente se não for possível discernir o que realmente se esconde dentro dela.


________________________________

[1] Uma coletânea de ensinamentos e narrativas de vários Santos Padres, composta no século XI pelo Monge Paulo, fundador e abade do Monastério de Panaghia Evergetinos em Constantinopla.

[2] Lucas 16: 25.

[3] O humanismo – que coloca no centro a pessoa humana autônoma, cortada de Deus e da Igreja – desenvolveu-se no Ocidente depois da Idade Média.

[4] E, q950, quando Pai Paisios chegou pela primeira vez no Monte Athos e buscava o caminho que levava de Kavsokalyvia à Skete de Santa Ana, ele encontrou um anacoreta: “Com o rosto brilhante – cerca de setenta anos de idade – por suas roupas ele parecia não ter contato com outras pessoas. Por essa indicação, ele parecia um santo!” (Pai Paisios do Monte Athos Athonite Fathers and Athonite Masters, ed. Holy Hesychasterion Evangelista João o Teólogo, Souroti, Thessaloniki, 1993, pg. 61f.). Quando perguntou ao eremita onde ele vivia, ele replicou: “Em algum lugar por ali”, e apontou o cume do Monte Athos. Mais tarde, Anciãos experimentados confirmaram a ele que doze anacoretas viviam na obscuridade nas alturas do Monte Athos.

[5] Diz-se dos monges que vivem separados, que possuem bens, que trabalham individualmente e se autossustentam, e que, embora sendo membros de um mosteiro supervisionado por um conselho eleito, não estão sob supervisão diária direta.

[6] 1956-1958.

[7] O deserto de Vigla fica na região sudeste do Monte Athos.


São Paísios, o Athonita
tradução de Tito Kehl

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