Na espiritualidade da Igreja Ortodoxa, a Santa Quaresma não é meramente um período de restrição alimentar. É um tempo de retorno. Um retorno ao coração de Deus, à simplicidade da vida espiritual e, de certo modo, ao próprio Jardim do Éden, onde o ser humano vivia em comunhão com o Criador.
O jejum, na tradição ortodoxa, é uma educação da alma, e não uma punição do corpo. Ele nos ensina a colocar ordem em nossos desejos e a recordar que “nem só de pão vive o homem” (Mateus 4:4). Quando a Igreja nos chama ao jejum durante a Santa Quaresma, ela nos convida a recuperar algo que foi perdido desde a queda: a liberdade interior.
Desde o Antigo Testamento, o jejum aparece como um instrumento de purificação, discernimento e fidelidade a Deus. Profetas, reis e o próprio povo de Israel jejuavam em momentos decisivos. Mas um dos exemplos mais marcantes é o do profeta Daniel e seus companheiros na corte da Babilônia.
Quando Daniel, Ananias, Misael e Azarias foram levados para a Babilônia, receberam do rei alimentos ricos da mesa real. Porém, Daniel temia que esses alimentos o afastassem da fidelidade à Lei de Deus. Então ele pediu algo simples: “Experimenta, peço-te, teus servos durante dez dias: que nos deem legumes para comer e água para beber.” (Daniel 1:12)
Após esse período de prova, a Escritura relata um resultado surpreendente: “Ao fim dos dez dias, apareceram com melhor aparência e mais robustos do que todos os jovens que comiam das iguarias do rei” (Daniel 1:15). O jejum de Daniel não foi apenas uma escolha alimentar. Foi uma declaração de fidelidade. Ele preferiu a simplicidade daquilo que vinha do “jardim de Deus” a participar de uma mesa que poderia comprometer sua consciência. E Deus respondeu a essa fidelidade com saúde, sabedoria e força espiritual.
A prática do jejum na Igreja Ortodoxa muitas vezes inclui alimentos simples: grãos, legumes, frutas e vegetais. Não é coincidência. Esses alimentos lembram o modo de vida original do homem no Éden, quando Deus disse: “Eis que vos dou todas as ervas que dão semente… e todas as árvores que produzem fruto.” (Gênesis 1:29)
Durante a Quaresma, a Igreja simbolicamente nos conduz de volta a essa simplicidade. Ao comer de forma mais humilde, o cristão aprende três coisas profundas: Gratidão: percebemos que tudo vem de Deus; Sobriedade: descobrimos que precisamos de muito menos do que imaginamos; Liberdade: deixamos de ser escravos do apetite.
Os Santos Padres frequentemente recordam que o primeiro mandamento dado ao homem estava ligado à alimentação: não comer do fruto proibido. A queda começou com a desobediência da boca. Por isso, a restauração também passa por ela.
Contudo, a Igreja sempre lembra que o jejum não é apenas alimentar. São Basílio, o Grande, dizia que o verdadeiro jejum consiste em afastar-se do pecado, refrear a língua, abandonar a ira e reconciliar-se com o próximo. De nada adianta jejuar de carne ou de leite se o coração continua cheio de orgulho ou de julgamento. O jejum verdadeiro transforma o homem inteiro.
A Santa Quaresma é, portanto, uma escola de quarenta dias. Assim como Moisés jejuou antes de receber a Lei, Elias jejuou antes de encontrar Deus no Horeb, e o próprio Cristo jejuou quarenta dias no deserto. A igreja nos conduz por esse mesmo caminho espiritual. O objetivo não é sofrimento, mas transfiguração. Quando o homem se disciplina no jejum, sua alma se torna mais leve, sua oração mais profunda e seu coração mais sensível à presença de Deus.
O resultado do jejum verdadeiro se parece muito com o que aconteceu com Daniel e seus amigos. Eles não apenas ficaram mais saudáveis. A Bíblia diz que Deus lhes concedeu sabedoria e discernimento (Daniel 1:17). Este é o verdadeiro fruto da Quaresma: um coração mais claro, uma mente mais iluminada e uma vida mais próxima de Deus.
Assim, ao jejuar, o cristão não está simplesmente mudando sua alimentação. Ele está, espiritualmente, voltando ao Jardim de Deus, onde a vida era simples, pura e totalmente orientada para o Criador.
+ Bispo Theodore El Ghandour








