HOMILIA PARA O INÍCIO DA GRANDE QUARESMA

Fragmentos da homilia proferida por São Sofian no Monastério de Antim no Domingo do Queijo, 16 de fevereiro de 1980:

E agora, irmãos e irmãs em Cristo, uma palavra sobre a Quaresma. Abrimos mão do queijo esta noite e, amanhã de manhã, com a ajuda de Deus, entraremos no período de jejum antes da Santa Ressurreição. Quando alguém parte para uma longa jornada, abastece-se com tudo o que é necessário para ter certeza de que, durante a viagem, não encontrará obstáculos ou limitações ao que pretende fazer. Nós também partimos para uma longa jornada e, embora pareça que permanecemos no mesmo lugar — fisicamente —, viajamos em espírito por uma estrada que sempre sobe, uma estrada cansativa. A colina que subimos é o Gólgota; lá encontraremos Jesus Cristo — Jesus que caminha com a Cruz nas costas, coberto de feridas, cheio de sangue, continuamente zombado e blasfemado — Aquele que liberta e tira os pecados do mundo. Começaremos a subir amanhã de manhã em direção a esta colina, este pico de lutas ascéticas, no caminho da Santa e Grande Quaresma.

O que é o período de jejum? Em primeiro lugar, jejuar significa autocontrole. Gostaria de chamar a atenção para o seguinte: se comer uma comida quaresmal muito boa e se alimentar bem, você transgride o jejum. Por exemplo, uma refeição de batatas, porém gordurosas com azeite rico e cozidas para ficarem saborosas, torna o jejum inútil.

Da mesma forma, quero salientar que quem jejua de alimentos jejua em vão se o seu jejum não for acompanhado por outro, o jejum espiritual: o jejum do mal. Jejuar do mal, jejuar dos pecados, é obrigatório, especialmente o “jejum da boca”. Por exemplo, se você fofoca, mesmo que não coma nada, ainda assim transgride. Quem condena outra pessoa é mais culpado do que quem não jejua, porque infringe os direitos de Deus. Assim, os Padres nos exortam a jejuar especialmente com a boca, como diz o Salmista: “Põe uma guarda, Senhor, à minha boca” (Sl 140,3). Você já não tem controle sobre uma palavra que foi dita. Ela escapa de você e é constantemente interpretada e fofocada de muitas maneiras. Portanto, mantenha-a sob controle, especialmente quando for uma palavra prejudicial. São João Crisóstomo diz que é por isso que existem lábios e dentes diante da língua; se ao menos pudéssemos refrear nossa língua! Senhor, ó Senhor, quanta maldade e engano ela é capaz de proferir! Leiam esta noite a Epístola de São Tiago para ver o que ele nos exorta a fazer para controlar nossa língua, que está cheia de maldade. Uma língua caluniosa roubou a recompensa do esforço de muitas pessoas — é bom não esquecermos disso.

Da mesma forma, pensamentos, imagens e lembranças de pecados também atacam nosso jejum e o arruínam. Portanto, eu os exorto a serem muito atentos ao jejum dos sentidos, isto é, a fechar todas as portas pelas quais o pecado pode entrar em vocês, porque este é o propósito do jejum, irmãos e irmãs em Cristo: fechar as portas pelas quais o pecado entra, isto é, erradicar todo o mal dentro de nós.

[…]

Em primeiro lugar, o jejum significa moderação contínua. Eu, por exemplo, aprendi com um cavalo a jejuar de beber. Enchi seu balde várias vezes e coloquei sua cabeça dentro, forçando-o a beber, e ele se recusou a beber mais um pouco. Ou seja, estar saciado além da medida é pecado. Aprenda a comer com simplicidade e a ter apenas o necessário para a sobrevivência. Tudo em excesso é pecado; possuir algo que você não precisa constitui um pecado. Ou seja, sua saciedade não deve ultrapassar a medida apropriada. É isso que Jesus nos diz.

Ninguém deve passar fome, para que vocês fiquem satisfeitos. Eu como e me farto, mas outra pessoa passa fome. Devemos sempre pensar nos outros porque, se todos rezarmos o Pai Nosso, então consideramos todas as pessoas nossos irmãos, cada pessoa amando e cuidando de seu irmão com o cuidado de um pai por cada um de seus familiares. Nos Evangelhos, Cristo Salvador insiste nesse cuidado exagerado por nossa existência. Para nossa existência terrena, precisamos de muito poucas coisas. Precisamos de moderação em nossa vida — esta era a sabedoria dos antigos: levantar-se da mesa com um pouco de fome para que haja espaço para comer mais.

[…] Cuidem de suas vidas interiores, porque não sabemos o dia em que Deus chamará cada um de nós, e Ele nos julgará como nos encontrar. Trabalhem em sua salvação com amor a Deus e aversão ao pecado, porque “o diabo anda ao redor como leão que ruge, procurando a quem possa devorar” (1 Pedro 5:8). Os mandamentos de Cristo não são impossíveis para nós, vendo como os santos os cumpriram — esses titãs da vida espiritual, humildes de espírito, mas tão exaltados pela humildade de suas vidas. E nós também devemos cumprir esses mandamentos; caso contrário, nos tornamos endurecidos e como bestas se não lutarmos para trilhar o caminho dos Santos Padres com um espírito de bondade, amor e paz — um espírito de paz cristã sem o qual a vida na terra se tornaria um verdadeiro inferno.

Portanto, jejuemos — um jejum agradável a Deus, um jejum de comida, bebida e todo o mal. Que o bom Deus nos ajude! Amém.

São Sofian de Antim
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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