Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Bendito és Tu Senhor, nosso Deus e Rei do Universo, Que revelastes a nós a universalidade da Tua salvação e Te tornastes o nosso Sumo-Sacerdote, de nós ortodoxos que viemos de todas as nações da Terra para Te adorar em espírito e verdade.
Hoje, celebramos a Festa da Apresentação de Nosso Senhor Jesus Cristo no Templo de Jerusalém. Esta Festa é chamada, em grego, de Ὑπαπαντή, ou Santo Encontro, porque ela marca não apenas um cumprimento ritual da Lei, mas um acontecimento teológico de enorme profundidade, onde se revelam publicamente o mistério da Encarnação e o cumprimento da Antiga Aliança na Nova Aliança.
Então, me deixem mostrar a vocês a grandeza deste encontro que aos olhos de muitos parecia algo meramente casual:
Desde o exílio na Babilônia, na época do profeta Jeremias, 586 anos antes de Cristo, quando o Templo foi destruído por Nabucodonosor, o Monte do Templo permanecia espiritualmente vazio. A Arca da Aliança, sinal visível da Presença divina (השכינה), havia desaparecido da história humana e jamais retornara mesmo com o Templo reconstruído sob o decreto de Ciro, o Grande. O culto continuava, os sacrifícios eram oferecidos, mas a plenitude da glória de Deus já não habitava mais ali como outrora. O Templo estava de pé, mas incompleto. O Santo dos Santos estava vazio. E o livro de Esdras confirma que muitos judeus daquela época, que viram a glória do Primeiro Templo, choravam de desgosto ao ver o Segundo porque, sem a Arca e sem a Presença Divina aquilo não era a mesma coisa.
Mas, no encontro da Apresentação de nosso Senhor Jesus Cristo no Templo de Jerusalém, essa incompletude histórica e espiritual do Templo foi curada. Quando Maria entra no Templo trazendo o Menino nos braços, a Casa de Deus volta a estar completa. A Nova Arca da Aliança, a Theotokos, não feita de madeira e ouro, adentra o Templo trazendo não as tábuas de pedra da Lei, mas O próprio e Verdadeiro Deus encarnado; não mais o Maná do deserto, mas o Verdadeiro Pão Vivo Que desceu do Céu; não mais a vara de Aarão que floresceu, mas o próprio Sumo-Sacerdote Eterno de todas as nações da Terra.
Havia novamente a Arca da Aliança no Templo e a Glória da Presença de Deus era novamente notada, não mais envolta em nuvem e ocultada por véus como antes, mas agora plenamente revelada em Cristo. O Deus, Que outrora descia sobre o propiciatório da antiga Arca, é agora carregado pela Virgem profetizada, a Theotokos. O Templo recebe Aquele Que é maior que o Templo; o Criador entra na casa feita pela criatura; a Glória retorna, não em esplendor sensível, mas em humildade.
E, nisto, cumpre-se aquilo que o profeta Malaquias anunciara: “De repente entrará no seu Templo O Senhor Que buscais”. E ainda a profecia de Ageu: “A glória desta última casa será maior do que a da primeira”. E a glória é maior porque não é mais apenas Lei e Promessa, mas Cumprimento pelo próprio Deus Vivo Que Se encarnou e voltou ao Seu Templo com a Sua Nova Arca da Aliança.
Assim, neste encontro, |onde a Plenitude da Glória da Casa de Deus é não só restaurada, mas supera a glória da Primeira Casa,| as promessas da Lei e dos Profetas agora recebem O Divino Legislador, O Messias esperado que dá cumprimento à Torah.
Neste mesmo encontro, do Antigo e do Novo Testamento, é revelada ao mundo a universalidade da salvação e se faz presente o Messias, o Verdadeiro Rei e Sumo-Sacerdote do Verdadeiro Israel, não mais carnal e limitado, mas sim espiritual e universal: A Igreja.
O véu do Templo, que se rasgou completamente no dia da crucificação, começa a se rasgar aqui, rompendo as barreiras dos vínculos de carne e sangue para levar a salvação a todas as nações e dar cumprimento à promessa de Deus a Abraão: “e em ti serão benditas TODAS AS FAMÍLIAS da terra.”.
O Encontro, à primeira vista, pode parecer pouca coisa. Mas não foi!
São Cirilo de Alexandria ensina que Cristo não foi apresentado no Templo por necessidade pessoal, mas para santificar a Lei pela obediência e mostrar que a Encarnação não aboliu a economia antiga, mas a consumou. Ele escreve que O Senhor “entra no Templo não como alguém que necessita de purificação, mas para purificar aqueles que ali estavam”.
Também São Gregório, o Teólogo, revela que Cristo aceita os ritos mosaicos para curar a desobediência de Adão pela obediência perfeita.
E merecedor de atenção teológica do Encontro é Simeão, o Justo, que representa a Israel fiel, que esperou o Messias não no poder político e militar, mas na promessa divina de salvação universal. A proclamação de São Simeão marca a liberação da Antiga Aliança, que cumpriu sua função pedagógica e agora entrega o testemunho ao Novo Israel Universal. Na Ὑπαπαντή, o local era judeu; mas o alcance foi para todas as nações.
Do mesmo modo, a Santíssima Mãe de Deus não necessitava de purificação. Ainda assim, dando-nos o exemplo de humildade e amor [como Jesus no Jordão] Ela Se submete ao rito. São João Damasceno revela que Maria Se apresenta no Templo “não para ser purificada, mas para ensinar a pureza”. Sua obediência silenciosa manifesta uma kenósis, o esvaziamento voluntário que testemunha toda a economia da salvação. Aquela Que não precisava de purificação ritual, ensina àqueles que se tornariam depois seus filhos o valor da humildade e da purificação no Mistério do Arrependimento.
E por que este exemplo da Virgem Maria é importante para nós, ortodoxos? Maria aparece aqui como prefiguração da Igreja Ortodoxa, que, mesmo sendo santificada por Cristo, caminha no mundo em humildade, sem se eximir da disciplina espiritual. Já a profetisa Ana, simboliza, segundo os Santos Padres, a vida ascética e vigilante dos fiéis ortodoxos que, com jejuns e oração contínuos se tornam testemunhas do Cristo.
E este encontro não acabou naquele evento histórico. Na Tradição Ortodoxa, a Ὑπαπαντή é uma realidade litúrgica permanente na qual, a cada Divina Liturgia, um novo Encontro acontece: Cristo é trazido na Eucaristia, a Igreja O recebe, e o fiel, como Simeão, é chamado a dizer: “Agora posso partir em paz.”
Contudo, essa paz só é real se, como Ana, abraçarmos a plenitude da vida espiritual da Igreja com a participação na Divina Liturgia, nos Santos Mistérios, com o arrependimento, com jejuns e oração constante, se entregando à ação transformadora do Espírito Santo. A profetisa Ana não se afastava do Templo e servia a Deus dia e noite, com jejuns e orações. Então não se afastem da Igreja para não perderem este encontro. E isto requer disciplina, decisão e lucidez para permanecer lutando contra nossas próprias paixões e auto-leniências, pelo Reino dos Céus e a vida eterna.
Portanto, continuemos ouvindo a voz que ecoa deste Encontro que hoje festejamos mais uma vez, pois ela proclama a salvação para todos nós em Jesus Cristo. A vitória só ocorre n´Ele e jamais sem Ele, porque Ele, Jesus Cristo, é o Senhor e o nosso Deus, o Senhor é Um. Alláh Wéhid.
Bendito seja o Nome d´Aquele cujo glorioso Reino é eterno, do Pai, do Filho e do Espírito Santo, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém.
Sacerdote Spiridon Chasse
Santo Encontro 2026








