Hoje celebramos uma grande Festa, o Encontro do Senhor no Templo, celebramos um evento jubiloso: o Encontro do Céu e da Terra, do eterno e do transitório, de Deus e do homem, na pessoa do Senhor Jesus Cristo.
No Templo de Jerusalém, o Salvador recém-nascido foi recebido nos braços do justo ancião Simeão, que, tendo recebido a promessa divina de que não morreria antes de ver com seus próprios olhos o Salvador e Messias, deu graças ao Senhor naquele exato momento por cumprir tal promessa, dizendo: “Agora podes despedir em paz o Teu servo, segundo a Tua palavra, porque os meus olhos já viram a Tua salvação…”. Ao receber e tomar em suas mãos idosas o Salvador do mundo, o justo Ancião reconheceu também em sua visão profética toda a história do que aconteceria com Cristo e todos os que O seguem, e é por isso que Ele diz à Santíssima Theotokos: “Eis que este Menino está destinado à queda e à ressurreição, e a um sinal que será contestado e contra o qual muitos se levantarão”, mas eles não poderão prevalecer, pois nEle serão revelados os pensamentos dos corações de muitos.
Cristo presta contas dos pensamentos do homem; assim, Ele não é apenas nossa alegria, mas também nosso julgamento. Muitos santos se alegraram ao comparecer perante a face de Cristo e oraram: “Senhor, purifica-me, tem misericórdia de mim, renova-me, pois se eu comparecer despreparado diante de Ti, será terrível para mim se Tu desviares o Teu rosto”.
Muitos hoje desejam encontrar Cristo. Isso é ainda mais perceptível entre o nosso povo, é evidente e vivenciado. Após meio século de escravidão e impiedade, buscamos a face do Deus Vivo – e aqueles que não O conheceram, e aqueles que não O sentiram, mas O anteciparam nas profundezas do seu ser. Sempre que buscamos algo grandioso, bom, duradouro, verdadeiro, justo, humano, belo e santo, buscamos a Face de Deus, buscamos Cristo – a Imagem do Deus Invisível. Nosso povo hoje está nessa busca. Contudo, o clamor daqueles mesmos ímpios que no passado baniram Cristo pode ser ouvido após esse despertar e renovação do povo. Por outro lado, o ataque dos nossos inimigos e falsos cristãos do Ocidente, bem como das falsas religiões do Oriente, faz com que o nosso povo se encontre na situação que São Simeão predisse à Santíssima Mãe de Deus: que uma espada lhe transpassaria o coração, mas que assim seriam revelados os pensamentos de muitos corações.
O nosso povo está hoje a ser examinado tal como São Simeão o foi quando encontrou Cristo. Os pensamentos e sentimentos de todos os nossos corações estão a ser revelados. Alguns correm para escapar, enquanto outros correm para se defender com palavras, declarações, decisões no papel, e assim pensam sufocar os pensamentos e sentimentos dos seus corações que Deus conhece. Outros, os verdadeiros sérvios ortodoxos, lutam pelo bem do seu semelhante, criado à imagem de Deus, e por uma imagem e luz melhores entre o seu povo, para que a luz do Encontro com o Senhor, que brilhou sobre aqueles que estavam nas trevas, nos seja revelada a glória da Salvação do Senhor, da qual São Simeão fala hoje no seu louvor a Cristo.
Nesta Festa do Santo Encontro do Senhor, quando os céus se encontram com a terra, Deus Se encontra com o homem, a história se encontra com a eternidade, quando – como diz tão belamente o nosso povo – a primavera e o inverno se encontram, que possamos também abrir os nossos corações para um encontro com o Senhor. Ele está lá, batendo à porta de cada um: “Eis que estou à porta e bato; se alguém abrir a porta, entrarei em sua casa e ceiarei com ele”, diz o Senhor (Ap 3,20). Que possamos abrir as portas do nosso ser, dos nossos corações, para que nunca as fechemos, para que os nossos seres velhos, banais e desgastados sejam renovados – as nossas almas e os nossos corpos – e nos alegremos no encontro com o Senhor, o Santo Encontro do Senhor, Que vem a nós nos braços da Santíssima Mãe de Deus, para que nos acolha a todos no Seu seio eterno. Pois Ele está eternamente no seio do Pai, e ali preparou um lugar para nós.
Abram seus corações, escutem as profundezas de seus pensamentos, desejos, sentimentos, expectativas, nostalgias, anseios, as buscas de seus corações. Pois nossos corações foram criados à imagem de Deus e anseiam por Deus; a verdade muitas vezes está enterrada em paixões, desejos, apetites, ambições, preconceitos. Libertemo-nos deles e encontremos o Senhor, pois Ele sempre vem ao nosso encontro. Ele é Aquele Que veio, Que está conosco, Que sempre vem estar conosco.
Desejo uma feliz festa, especialmente às nossas crianças, que celebram não só o Natal, quando Deus Se torna uma Criança, mas também o Santo Encontro, quando o Senhor é recebido como uma Criança das mãos do homem para que pudesse receber o homem na vida eterna no Reino dos Céus. Oremos a Deus por aquelas crianças que sofrem, que são órfãs, que estão feridas, que são refugiadas. Há muitas delas, não só nas terras sérvias, no Sul, no Kosovo e nas terras ocidentais, na Krajina, mas também no Chipre, na Geórgia, no Médio Oriente e noutros lugares.
Sabem quantas crianças nossas sofrem no Ocidente, sendo zombadas e ridicularizadas nas escolas por serem sérvias, por serem ortodoxas, com a alegação de que até Deus nos virou as costas e nos julgará? Mas que isso não nos preocupe nem nos faça tropeçar, pois nossa busca, anseio e expectativa, que brotam do fundo de nossos corações, é encontrar a Face do Deus Vivo e comparecer perante Ele para que nos julgue. Pois é melhor que Ele nos julgue do que os homens.
Uma feliz festa a todos vós que, com vossas doações, ajudam o povo crucificado e sofredor nas terras sérvias e Krajinas, e que o Senhor vos recompense com alegria e celebração na vida eterna no Reino de Deus. Amém.
Vladika Atanasije (Jevtich), proferida em 1995 em Pozarevac
tradução de monja Rebeca (Pereira)








