GRAUS DA PERFEIÇÃO ESPIRITUAL – PARTE 1

(Nos capítulos anteriores), foi revelado que o trabalho mais importante da Igreja é curar o homem. Portanto, a Igreja Ortodoxa é um Hospital, uma enfermaria da alma. Isso não significa que a Igreja despreza outros domínios da atividade pastoral, já que ela visa o homem em sua totalidade, composto de corpo e alma. De fato, ela também se preocupa com os problemas físicos, econômicos e sociais; no entanto, o foco principal de seu serviço pastoral encontra-se na terapia da alma, pois, quando a alma do homem é curada, muitos outros problemas intratáveis são resolvidos.

Algumas pessoas acusam a Igreja Ortodoxa de não se envolver muito com os problemas sociais. No entanto, a Igreja se preocupa com todas as questões que dizem respeito ao homem. Isso é evidente no conteúdo de suas orações durante os ofícios litúrgicos, bem como no trabalho e no ensino dos Santos Padres. Mas, assim como um hospital médico está, em primeiro lugar, interessado no tratamento do corpo — e, por meio dessa terapia, acaba se envolvendo com os outros problemas da pessoa —, o mesmo ocorre com a Igreja Ortodoxa. Ela cura o núcleo da personalidade humana e, através disso, cura a pessoa como um todo. É por isso que, mesmo em tempos de turbulências sociais, quando todos os mecanismos governamentais praticamente entram em colapso — e até mesmo as liberdades externas das pessoas são interrompidas —, a Igreja mantém seu trabalho: tratar e curar a pessoa humana.

A cura da personalidade humana é, de fato, o progresso do homem rumo à perfeição, que se identifica com a “deificação” (theosis), pois, na teologia patrística, teose e perfeição são termos sinônimos. Essa terapia é absolutamente necessária porque a queda do homem, realizada na pessoa de Adão, constitui a enfermidade da natureza humana.

No Paraíso, antes da Queda, Adão estava no estado de “teoria” (visão) de Deus. O estudo do livro do Gênesis revela que Adão estava em comunhão com Deus; no entanto, era necessário que ele permanecesse nesse estado, por meio de sua luta voluntária, para que se estabilizasse mais e alcançasse a perfeita comunhão e união com Ele. São João Damasceno descreve de maneira característica esse estado de “justiça” primordial. Adão era purificado e nutrido ao mesmo tempo pela visão de Deus. Seu nous estava iluminado, o que significa, acima de tudo, que ele era um templo do Espírito Santo e experimentava a lembrança incessante de Deus.

O pecado “original” consiste no obscurecimento do nous e na perda da comunhão com Deus. Isso, obviamente, teve outras repercussões: o homem foi revestido das vestes carnais da decadência e da  mortalidade. O nous experimentou uma profunda escuridão. Em outras palavras, o homem perdeu a iluminação de seu nous; este tornou-se impuro, passional, e seu corpo passou a carregar a corrupção e a mortalidade. Assim, desde o dia do nosso nascimento, carregamos dentro de nós a corrupção e a morte: uma vida humana vem ao mundo destinada à morte. Consequentemente, por causa da Queda, experimentamos uma enfermidade universal. Tanto a alma quanto o corpo estão doentes, e, naturalmente, como o homem é a suma de toda a criação — o microcosmo dentro do macrocosmo —, a corrupção também atingiu toda a criação.

“Minha mente está ferida, meu corpo está enfraquecido, meu espírito está doente, minha fala perdeu sua força, minha vida está morta; o fim está à porta. O que farás, então, alma miserável, quando o Juiz vier examinar tuas obras?” (Grande Cânone).

De fato, ao falarmos do pecado original e de suas consequências, referimo-nos a três aspectos principais: em primeiro lugar, a disfunção do nous, uma vez que este deixou de operar adequadamente; em segundo, a identificação do nous com a razão (e, em certa medida, a divinização da razão) e, finalmente, a escravidão do nous pelas paixões, pela ansiedade e pelas condições ambientais. Esses fatores constituem a verdadeira morte do homem.

O homem experimenta uma desorganização total; seu interior está morto — seu nous é dominado pela escuridão. Assim como quando o olho do corpo é ferido, todo o corpo fica obscurecido, também ocorre com o olho da alma — o nous. Quando sofre cegueira, o ser espiritual como um todo adoece e cai em uma escuridão profunda. É a isso que o Senhor Se refere ao dizer: “Se, portanto, a luz que há em ti são trevas, quão grandes serão essas trevas!” (Mt 6,23).

Além da desordem completa nas operações internas da alma, o pecado original também resultou na desorganização externa do homem. Ele agora se relaciona com seus semelhantes, com Deus, com o mundo e com toda a criação de uma maneira diferente. O nous perdeu a capacidade de encontrar-se com Deus, e a razão assumiu esse esforço. Contudo, a razão, por si só, é insuficiente para um verdadeiro encontro com o divino, o que levou à criação de ídolos de Deus, dando origem às religiões pagãs e até mesmo a desvios heréticos.

Incapaz de ver o homem como imagem de Deus, o nous o encontra sob a influência das paixões. Ele explora ambiciosamente o próximo, através do seu amor pelo prazer e o enxerga como um vaso ou instrumento de ganho material. Ele idolatra toda a criação, o que o Apóstolo Paulo descreve em sua Epístola aos Romanos: “Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos, e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem  de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis” (Rom. 1, 22-23).

Portanto, o homem precisa ser curado, ou seja, purificado, para alcançar a iluminação do nous — o estado de Adão antes da Queda — e então atingir a deificação. Isso é alcançado precisamente através da Encarnação de Cristo e de toda a obra da Economia Divina e da Igreja. É dentro desse quadro de referência que devemos entender muitos textos litúrgicos, nos quais Cristo é caracterizado como o médico e a cura das almas e dos corpos. Além disso, no mesmo contexto, diversos textos patrísticos devem ser estudados, nos quais é evidente que a obra de Cristo é, em primeiro lugar, uma obra terapêutica.

O herege Apolinário afirmava que, pela Sua Encarnação, Cristo assumiu a alma e o corpo, mas não o nous. Ele dizia, em outras palavras, que a natureza humana que Cristo assumiu da Panagia1 estava privada de nous. Refutando sua heresia, São Gregório, o Teólogo, afirmou que Cristo assumiu o homem inteiro; pois o que não é assumido não pode ser curado, enquanto o que é unido a Deus é salvo. Se apenas metade de Adão tivesse pecado, isso seria assumido por Deus para ser salvo. No entanto, como Adão inteiro pecou e a totalidade da natureza humana caiu na doença, o homem inteiro teve que ser totalmente assumido por Cristo para ser curado. No ensino de São Gregório sobre isso, é evidente que a cura da natureza humana foi realizada pela Encarnação do Filho e Logos de Deus; e é por isso que Cristo é o verdadeiro terapeuta e médico do homem2.

Após a Queda, o homem precisou de cura. Isso foi realizado pela Encarnação de Cristo e, desde então, essa tem sido a obra da Igreja. Ela cura e está curando o homem; ela cura principalmente sua personalidade doente — seu nous e coração. Todos os Padres da Igreja exortam o homem a buscar ser curado3. O homem é curado pela energia [operação] de Deus, cuja fonte é incriada e revelada “na Pessoa de Jesus Cristo”. A energia de Cristo, da qual vem a cura do homem, é concedida gratuitamente, e por isso é chamada de graça divina. Portanto, seja dizemos energia incriada ou graça divina, não faz diferença; estamos nos referindo à mesma coisa. O Apóstolo Paulo escreve: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef. 2, 8).

No entanto, precisamos dizer algumas coisas sobre a graça divina antes de vermos os estágios da perfeição espiritual — o método e o caminho da terapia do homem —, pois ela está intimamente ligada à purificação, iluminação e deificação.

Vivendo dentro da Igreja pela graça, o homem deve primeiro purificar seu coração das paixões; alcançar a iluminação do nous — o estado de Adão antes da Queda — e então ascender à deificação, que constitui a comunhão do homem com Deus e é identificada com a salvação. Estes são os passos da perfeição espiritual — os fundamentos da espiritualidade ortodoxa.

Na espiritualidade ortodoxa, purificação, iluminação e deificação não são estágios de atividade antropocêntrica, mas sim resultados da energia não criada de Deus. Quando a graça divina (energia de Deus) purifica o homem das paixões, ela é chamada de purificadora; quando ilumina o seu nous, ela é chamada de iluminadora; e quando deifica o homem, ela é chamada de deificadora. Essa mesma graça e energia de Deus recebe vários nomes de acordo com seus efeitos.

Falando sobre o Deus Triúno, os Santos Pais dizem que existem em Deus a essência (ou natureza), a energia (ou graça divina) e as pessoas. Cada Pessoa da Santa Trindade possui essência e atributos pessoais. Os atributos pessoais pertencem a cada Pessoa. A essência é comum nas três Pessoas, assim como a energia. A criação e recriação do homem e do mundo é a ação comum de Deus, a Trindade. A salvação do homem é uma energia do Deus Trino, mas “na pessoa de Jesus Cristo”, pois Cristo se fez encarnado “pela condescendência do Pai e pela sinergia do Espírito Santo”.

Deve-se notar que as energias de Deus são “naturais”, ou seja, estão ligadas à natureza de Deus; ainda assim, ao mesmo tempo, elas são hipostáticas. Para compreender esse conceito, é preciso referir-se ao ensino de São João Damasceno, que afirma que a energia é a atividade potente e essencial da natureza. Trata-se de algo diferente da natureza da qual a energia se origina (ενεργητικόν — energetikón) e da hipóstase que faz uso da energia, pela qual ela age (ενεργών — energón), bem como o efeito da energia (ενέργημα —enérgima)4.

Isso significa que a energia divina é a atividade da natureza divina através da qual o homem participa e se une a Deus. Não há essência sem energia, nem energia sem essência. No entanto, essa energia divina é revelada no homem e pela sua participação na hipóstase, uma vez que quem age é a hipóstase, a pessoa. Assim, a energia de Deus é natural e não autoexistente. Embora não seja autoexistente, ela é enipostática [en + hupóstasis, isto é, depende da hipóstase (“pessoa”)], ou seja, age sobre o homem, que dela participada através da sua hipóstase. Assim, conhecemos a Deus, entramos em comunhão com Ele e participamos de Sua graça e energia não criadas através da Revelação e Encarnação de Cristo.

Dissemos antes que a energia incriada, a graça divina, de acordo com seus efeitos, tem vários nomes. Por exemplo, há a energia purificadora, há a energia iluminadora e também a energia deificante de Deus. Por esta razão, podem ser distinguidos três estágios de perfeição espiritual: purificação do coração, iluminação do nous e, em terceiro lugar, a deificação. Assim como uma pessoa deve passar com sucesso por níveis elementares, intermediários e superiores de educação para alcançar o conhecimento, também deve passar por três estágios de perfeição espiritual — purificação do coração, iluminação do nous e deificação — para adquirir o conhecimento divino. Dessa maneira, a pessoa é curada.

Devemos enfatizar dois pontos antes de passarmos para uma análise desses três estágios de perfeição espiritual, a fim de evitarmos mal-entendidos sobre o ensino dos Padres da Igreja:

O primeiro ponto é que atingir esses estágios não é resultado do esforço humano, mas sim da energia de Deus. Eles não são medidas que envolvem o exercício positivo da vontade de uma pessoa; são os frutos e as ações resultantes da graça incriada de Deus. Esses estágios de perfeição espiritual se desenvolvem naturalmente nas pessoas que cooperam e respondem à energia da graça divina.

O segundo ponto é que a distinção feita entre esses estágios espirituais não é estática nem estanque. Na educação pública, quando alguém termina a escola primária, não volta mais para ela. Isso não se aplica na “pedagogia teantrópica” que vivenciamos dentro da Igreja, porque os três estágios de crescimento espiritual são intercambiáveis. Para que uma pessoa atinja a “theoria” de Deus, a purificação e a iluminação devem preceder. Quando ela atinge a “theoria” de Deus — o terceiro estágio da perfeição espiritual —, ela pode permanecer lá por um certo período de tempo e depois, novamente, pode “voltar” ao estado de iluminação do nous. Além disso, se não for cuidadosa, é possível que ela caia do estado de iluminação do nous para o estágio de purificação do coração.

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1 “Toda-Santa” ou “Santíssima”.

2 Cf. São Gregório, o Teólogo, Padres Gregos da Igreja (em grego, E.P.E.), Tessalônica, 1986, Vol. 7, p. 182.

3 Cf. Ibid, Vol. 5, p. 316.

4 São João Damasceno, “Exposição da Fé Ortodoxa” (em grego), ed. Pournaras, p. 272.


Metropolita Hierotheos (Vlachos) de Nafpaktos
tradução do Sub-Diácono Gregório Siqueira

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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