Deus está conosco! Ele está! E sempre estará!
Hoje, estamos às margens do Jordão — não apenas em memória, mas na própria realidade de nossa vida espiritual. Celebramos a Teofania. E enquanto nossa imaginação pinta cenas majestosas — o céu aberto, a pomba, a voz do Pai — o apóstolo Paulo, na leitura de hoje, nos traz de volta da contemplação do céu para a nossa terra cotidiana. Ele profere palavras que são a chave para a compreensão da festa: “Porque a graça de Deus se manifestou trazendo salvação a todos os homens, ensinando-nos” (Tito 2:11).
Muitas vezes, estamos acostumados a perceber a graça como uma espécie de “nuvem de conforto”, uma energia invisível destinada a resolver nossos problemas, acalmar nossos nervos ou magicamente endireitar a vida enquanto permanecemos passivos. Mas o apóstolo fala de algo diferente. A graça é uma mestra. Se, por anos, frequentamos a igreja, mas nosso coração permanece frio e nossos hábitos inalterados, então não estamos aprendendo nesta escola. Tomamos a “chave” do Reino de Deus, mas temos medo até mesmo de colocá-la na fechadura, porque além da porta está o trabalho da transformação. A graça não anula nosso esforço; ela o torna frutífero. Deus não nos salva sem nós.
O apóstolo Paulo nos apresenta três marcos claros do que o Cristo manifestado nos ensina. Esses são três pilares sobre os quais se constrói a vida de uma pessoa que encontrou Deus.
Castidade. Não se trata apenas de pureza corporal. Trata-se de plenitude. Num mundo que nos dilacera com notícias, ansiedades e opiniões alheias, a castidade é a capacidade de preservar “a mente de Cristo”. É quando nossa fé não termina na entrada da igreja, mas continua a agir no trabalho, numa discussão familiar, nas redes sociais. Ser casto hoje significa guardar a paz interior e não permitir que o veneno do ódio penetre na alma.
Justiça. É a fidelidade a Deus nas pequenas coisas, quando ninguém está olhando. É fácil ser “justo” na retórica, denunciando os vícios do mundo. É difícil ser justo quando se precisa admitir o próprio erro diante de um ente querido, ou agir de acordo com a consciência quando isso é “inútil”. A graça nos ensina a ser cristãos, não meramente a estarmos “certos”.
Piedade. É a consciência viva de que Deus está presente. É o hábito, no meio de um dia de trabalho, de se perguntar: “Senhor, como esta minha ação, esta minha palavra, se apresenta diante da Tua face?”. É uma postura honesta diante do Criador, sem máscaras ou belas palavras.
Prestemos atenção às palavras do Apóstolo; ele nos chama a viver assim “neste mundo presente”. Não em um passado idealizado, não em um futuro imaginado, não no isolamento de um mosteiro, mas aqui — em 2026 — com todo o seu ruído informacional, agressividade, cansaço e incerteza. É precisamente aqui, neste “mundo presente”, que Cristo entra nas águas do Jordão. Ele santifica não a “água ideal”, mas a água em que vivemos.
Renunciar à impiedade significa parar de barganhar com o pecado. Somos mestres em encontrar justificativas piedosas para as nossas paixões. Chamamos nossa crueldade de “defesa da justiça”, nossa indiferença de “paz de espírito”, nosso conformismo de “humildade”. Mas a Epifania é um momento de verdade. A graça se manifestou para arrancar essas máscaras.
Meus queridos! A festa da Teofania é um espelho. Cristo entra no Jordão não porque Ele precise de purificação, mas porque a purificação é o que nós precisamos. Ele nos oferece não apenas um rito, mas um modo de vida. Se sairmos da igreja hoje sem a resolução de mudar ao menos uma característica do nosso caráter, ao menos um hábito de justificar nossa ira, então a festa passou por nós. Que a graça que se manifestou ao mundo hoje se torne para cada um de nós não apenas uma bela lembrança, mas um poder real. Que ela nos ensine a ser honestos, a ser íntegros e — acima de tudo — a amar, apesar de tudo.
Feliz Festa da Teofania do Senhor!
Metropolita Luka (Kovalenko) de Zaporozhye e Melitopol
tradução de monja Rebeca (Pereira)








