FÉ DE IMPACTO TOTAL : UMA ENTREVISTA COM FATHER TURBO QUALLS

Mais um artigo (13.07.2017) da nossa série, do escritor romeno Tudor Petcu. Tudor é formado pela Faculdade de Filosofia da Universidade de Bucareste, Romênia. Seu trabalho se concentra na evolução da espiritualidade ortodoxa nas sociedades ocidentais. Neste artigo, ele entrevista o Padre Turbo Qualls – vencedor não oficial do prêmio de “Melhor Nome de Clérigo” de todos os tempos.

1) Primeiramente, por favor, explique-me o que devemos saber sobre São Moisés, o Negro, e por que ele é considerado tão importante para a comunidade ortodoxa de afro-americanos.

São Moisés foi um dos Padres do Deserto que viveram no início do século V. Segundo os relatos hagiográficos de sua vida, ele foi um escravo rebelde que se tornou um notório ladrão, assassino e líder de gangue, encontrando mais tarde um profundo arrependimento como monge, sacerdote e pai espiritual.

Sua vida é de particular importância para muitos afro-americanos devido aos paralelos sociais, morais e espirituais entre a sua vida e a nossa. Mais importante ainda, vemos em sua resposta às lutas que o afligiram um caminho para a salvação e para se tornar mais semelhante a Cristo.

2) Como o senhor descreveria a história e a evolução da comunidade ortodoxa de afro-americanos nos EUA e qual seria sua principal singularidade no mundo ortodoxo, se posso chamá-la assim?

Eu diria que a história dos afro-americanos dentro da Ortodoxia ainda é muito recente e está em desenvolvimento. Grande parte disso se deve às barreiras sociais que muitas das primeiras comunidades ortodoxas imigrantes enfrentaram para se adequar ao que era percebido como a mentalidade “americana”. Em outras palavras, historicamente, a Igreja Ortodoxa não tem demonstrado uma atitude tão acolhedora e evangelizadora em relação aos afro-americanos devido ao racismo, tanto explícito quanto implícito, presente na sociedade americana. Felizmente, isso está começando a mudar aos poucos.

Em relação à singularidade, eu diria que a experiência dos afro-americanos nos EUA é muito mais próxima da experiência de muitos ortodoxos da “velha pátria” do que da do americano “branco” médio. Deve-se notar que, quando esse termo é usado, geralmente deve ser interpretado como WASP (Branco Anglo-Saxão Protestante). A razão para isso reside na realidade da experiência de serem tratados como cidadãos de segunda classe e, muitas vezes, perseguidos até a morte. Tanto os cristãos russos quanto os romenos vivenciaram isso sob o comunismo. Os gregos e sérvios sob o domínio turco. Os sírios sob o islamismo, etc.

A maioria dos americanos brancos não tem memória ou experiência prática desse tipo de sofrimento; ao contrário dos americanos negros. É importante entender que a escravidão, as leis de segregação racial e a luta geral dos negros nos Estados Unidos são experiências recentes e contínuas. Por exemplo, meu avô era filho de escravos. Isso não está muito distante da minha realidade. A capacidade de suportar o sofrimento de uma forma que aproxime a pessoa de Cristo é um dos aspectos fundamentais da Ortodoxia, e a experiência protestante e católica romana, mais prevalente nos Estados Unidos, não possui os meios para abordar essa experiência em profundidade. Embora a maioria dos americanos negros seja historicamente protestante, a experiência de ser negro nos Estados Unidos é indissociável da experiência do sofrimento.

Portanto, a incapacidade do Protestantismo de articular e explicar essa realidade é uma das principais razões pelas quais muitos americanos negros, ao longo do tempo, abandonaram o Cristianismo por completo, optando por outra fé ou até mesmo pelo ateísmo.

3) Quais são os principais motivos pelos quais alguns afro-americanos tomaram a decisão de se converter à Ortodoxia, do seu ponto de vista? Considerando a pergunta acima, eu ficaria muito grato se o senhor pudesse falar um pouco sobre sua jornada espiritual rumo à Ortodoxia, sobre sua peregrinação na Igreja Ortodoxa.

Do meu ponto de vista, os principais motivos pelos quais os afro-americanos se convertem à Ortodoxia (que é encontrar a verdadeira e histórica Igreja de Jesus Cristo) são idênticos aos de todos os outros povos, exceto em um caso. Essa exceção é a busca pela reconciliação com o racismo inerente ao Cristianismo americano, especificamente ao Protestantismo. Para muitos afro-americanos, a experiência com Cristo é tão poderosa e tem sustentado nossas famílias e comunidades por gerações, mas o racismo e a opressão perpetrados em Nome de Cristo são, muitas vezes, difíceis demais de serem superados. Essa é uma das principais razões pelas quais o crescimento da Ortodoxia entre os afro-americanos não é tão rápido quanto poderia ser. Ou seja, como a Ortodoxia ainda é desconhecida neste país, muitos afro-americanos não sabem que existiu uma Igreja que não participou do comércio transatlântico de escravos e que não promoveu o racismo do Ocidente.

Minha jornada está relatada aqui no site da paróquia “St. Barnabas” que frequentei quando me converti à Ortodoxia (há 11 anos). Aqui está a parte do artigo que descreve minha trajetória.

Por muitos anos, os interessados ​​e catecúmenos de todas as idades vinham de origens evangélicas, anglicanas e carismáticas mais tradicionais. Então, um dia, Turbo Qualls, um jovem tatuador afro-americano (e agora iconógrafo em ascensão), apareceu. Seu passado incluía uso de drogas, bruxaria e magia antes de se tornar cristão evangélico. Ele liderava um grupo de estudo bíblico e discussão às segundas-feiras à noite no estúdio de tatuagem “Sid’s Tattoo Shop”, em Anaheim, Califórnia, com outros jovens desiludidos, da contracultura punk-rock, desiludidos com a cultura americana excessivamente materialista e em busca da verdade fundamental.

Um dos primeiros contatos de Turbo com o Cristianismo Ortodoxo foi o livro “Juventude do Apocalipse”, publicado pelo Mosteiro de São Hermano do Alasca, em Platina, Califórnia (fundado pelo Padre Serafim Rose). O livro circulava na cena punk rock cristã do sul da Califórnia, da qual ele fazia parte. Depois de lê-lo, ele descobriu que algumas das letras e a essência da música punk rock haviam sido, na verdade, inspiradas pelo Cristianismo Ortodoxo, sem que isso lhe fosse diretamente atribuído.

Turbo estava em busca de seu lugar no mundo.

“Cresci sendo frequentemente o único negro por perto, então eu tinha muita vontade de ter uma identidade.”

A cena punk cristã proporcionou isso por um tempo, mas, embora a igreja que eu frequentava me desse uma comunidade, ela não me dava realmente uma “identidade”, explica Turbo. Através de suas leituras e pesquisas, Turbo descobriu a Igreja Ortodoxa Oriental de “São Moisés, o Negro”, o monge ortodoxo etíope do século IV, originário do Egito. São Moisés fora anteriormente um suspeito de assassinato e líder de um bando de bandidos violentos, antes de se esconder em um mosteiro no Egito e ser atraído pela paz e tranquilidade que encontrou lá. Turbo visitou São Barnabé e tornou-se catecúmeno. Logo, outros como ele, alguns apenas marginalmente cristãos – alguns ostentando dreadlocks, tatuagens, cabelos multicoloridos, moicanos, piercings no lábio e no nariz – começaram a aparecer com ele. Assim como Turbo, eles eram atraídos pela reverência, pela beleza e pela profundidade do Cristianismo Ortodoxo.

Quando perguntado sobre o impacto que o Cristianismo Ortodoxo teve em sua vida, Turbo reflete antes de responder:

“A oração e a vida devocional da nossa família agora são o centro da nossa vida doméstica. Essa é provavelmente uma das maiores mudanças.” Ele continua: “Também percebi que precisava ser gentil com minha esposa e ser um homem verdadeiramente ‘bom’; não apenas para manter uma aparência cristã, mas bondade genuína, porque sei que serei julgado.”

4) Como se apresenta, neste momento, o diálogo entre a comunidade ortodoxa de afro-americanos e as igrejas ortodoxas históricas?

A situação não é tão monolítica quanto se possa imaginar. Existem inúmeras denominações negras, assim como no resto do mundo protestante. Há comunidades com as quais a Irmandade de São Moisés (Fellowship saint Moses the Black) dialoga, mas, atualmente, percebo que o maior obstáculo para um diálogo impactante é a falta de uma voz ortodoxa unificada na América. Se a hierarquia ortodoxa denunciasse as heresias e atrocidades cometidas e ainda não retratadas no Ocidente, veríamos um movimento recorde de afro-americanos se convertendo à Ortodoxia.

5) O senhor diria que a comunidade ortodoxa de afro-americanos tem alguma influência na sociedade americana ou que essa influência se fortalecerá no futuro?

Sim. Aqueles de nós que tiveram as portas da Ortodoxia abertas compreendem o profundo poder que ali se esconde. Esse poder é transformador e libertador; mais importante ainda, é a própria validação da nossa recusa em negar Cristo, mesmo que a sociedade, a história e outros negros nos chamem de tolos por fazermos parte do que é erroneamente considerado uma religião “de branco”. Entendemos por que outros pensam e dizem isso; no entanto,

“Provamos do cálice da imortalidade e sabemos que não há outro lugar para onde possamos ir.” (João 6:68)

https://journeytoorthodoxy.com/2017/07/full-impact-faith-an-interview-with-fr-turbo-qualls/
Tudor Petcu
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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